Niemeyer e o obscuro objeto do desejo

Luiz Roberto Benatti

Oscar Niemeyer elogiava Fidel Castro como quem se delicia com  o gosto suculento duma maminha. Foi amigo de Luiz Carlos Prestes e, por certo, endossava gestos estapafúrdios e decretos retrógrados de ditadores latinos à  esquerda, assim como convidou para um bate-papo em seu escritório intermediário das Farcs a quem deu ajuda em dinheiro. Era generoso com os amigos, mas um mistério que nem Poe resolveria consiste em saber quanto cobrava por projetos como o da universidade argelina ou da Editora Mondadori. Pela vida afora ele se afirmou comunista, todavia melhor teria sido dizer-se stalinista. O fato de ter sido ele filho de fazendeiro, não o impediu de bater caixas infindáveis sobre o partido ou com  figurantes notórios como Jean-Paul Sartre. No mundo todo os intelectuais cultivam porções de bestunto indevassáveis, talvez criptográficas. O PCB surgiu em 1922, no mesmo ano em que Stálin ascendeu ao cargo de secretário geral do comitê central da União soviética. Lênine, doente nessa época, morreu em 1924. Em 1941, Stálin chegou ao topo do comando da Rússia. Em 1928, ele havia posto  em prática a NEP/nova política econômica que resultou na industrialização e na coletivização da terra. Com o aumento no número de adversários, muitos dos quais como Trotsky defensores da  revolução permanente, Stálin agarrou-se ao poder e ao socialismo num só lugar, instalou campos de trabalho correcional, deportou e exilou. Em 1932 e 33, a coletivização foi à breca e os russos passaram fome. Stálin mandou executar centenas de milhares de desafetos e contraditores e, em 1939, firmou pacto com Hitler. Jorge amado e Graciliano Ramos,assim como o chileno Pablo Neruda,  dois anos antes da morte de Stálin, receberam  o prêmio da paz em Moscou. Se você disser à moçada que não conhecemos nem jamais iremos conhecer um partido comunista  brasileiro de feições leninistas ou trotskistas, eles torcerão o nariz e, na roda dos eleitos, dirão que somos chatos de galocha. Em 1922, Lênine tinha dificuldade até mesmo para saber quem era Krupskaia e o Brasil talvez lhe parecesse um zôo tropical infestado de cobras e jacarés. Em 1922, Jorge amado tinha 10 anos, Niemeyer 15 e Neruda 18. O mais velho deles, Graciliano, estava com 32, o único, talvez, que poderia saber algo de Lênine ou Stálin. [ Imagens:cigarro à boca, Jorge amado, na Rússia, em 1951; Oscar e os charutos enviados por Fidel]

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