A única novela

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Luiz Roberto Benatti

 Entre nós, desde 1966, só assistimos a uma única novela – O Direito de nascer. Você se senta na poltrona, depois de pedir licença ao gato, com a luz estroboscópica entre branco e preto até que ela se torne colorida, mas o filho, o sempiterno filho, recorta-se pelo antigo formato. A primeira novela foi também a última. Enroscamo-nos na primeira porque nela se achava o cascalho reluzente de nosso tema: a busca do pai e a identidade. O filho procurava o pai como quem carece de pedaço essencial do corpo e a alma. Se nos falta o tronco, onde assentaremos pescoço e cabeça ou guardaremos o coração? O Brasil é rurbano.Estaria o pai na roça ou na cidade? Do coração para a cabeça flui o sangue como se fosse o mar oceânico ou talassêmico de Ulisses, a quem o filho aguardava em Ítaca. Ítaca está em qualquer lugar e em lugar algum. Você tem de vestir a camisa do pai como quem se recobre da pele de Adão. Está manchada de suor, um furo na axila, colarinho esgarçado, desbotada e caída de moda, como a que você comprou na Ellus, no último Verão, estará daqui a uns dois anos. Essência e aparência. A primeira novela foi e será sempre a última. Adão, Eva, Caim, Maria Copolla, Donatela.Trocam-se os nomes, mas não caracteres. Trocam-se entidades, mas não figurações matriciais. Albertinho Limonta escondeu-se atrás da porta do quarto à espreita do pai. O pai custa para achar-se como pai porque ele anda à busca do próprio pai.

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