Rinha de galo

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Luiz Roberto Benatti

 Assim que  ele acabou de anotar os números sorteados da megassena, sentiu o suor  na palma das mãos: os números  eram os seus, erro não havia. Abriu o compartimento da carteira em que guardava coisas  a ser mantidas longe do olhar do curioso: nada. Foi ao quarto, à lata de arroz da cozinha, à gaveta de ferramentas, ao cesto de roupa suja, ao lixo da véspera. Nada. O volante sumiu-se sem deixar pegada. Por isso, uma vez mais, ele teve vontade de se matar. Revólver ou formicida? Assim é demais, cara! A mulher fugiu de casa para viver com o vizinho vesgo e meio idiota, os filhos o deixaram falando sozinho, os amigos o chamaram de corno manso, o pai recusou-se a recebê-lo, o patrão o despediu, o carro fundiu o motor, a prestação do novo televisor foi para o pau, ele contraiu herpes zooster na região genital. Assim é demais, cara! Como ele fosse fã incondicional de Kerouac, pôs o pé na estrada, sem lenço nem documento. Foi preso por vagabundagem e passou a noite no xilindró com dois malucos de pedra que fediam alho e cebola, jogaram truco a noite toda e roncaram durante o dia.Quando o soltaram, na primeira esquina, ele fechou os olhos e escolheu a estrada à direita. Caminhou por quatro ou cinco dias, foi picado por abelhas, passou fome e frio,  roubaram-lhe o tênis, ele apanhou feio de mendigo, até que alcançou uma biboca encravada no pé da serra: pareceu-lhe pacata, ele viu um cachorro sarnento em frente dum boteco, entrou, o dono ressonava atrás do balcão engordurado, ele perguntou:  Como se chama o lugar? O homem custou para abrir os olhos, resmungou que não o deixavam dormir em paz e devolveu a pergunta com um Como? Como se chama o lugar? Galo de Briga, respondeu o dono do boteco. Por que? Deve ser por causa da grande festa de setembro. Se você ficar por aí, vai saber do que se trata. Ainda bem que ainda existe alguma coisa na vida que possa ser do meu interesse. Estamos em janeiro e até lá tem tempo. Vou me instalar numa pensão, dormir três dias seguidos, pescar, andar por aí, conversar com o povo e esperar pelo mês de setembro. Quando ele acordou depois do terceiro dia de sono profundo, soube que, em setembro, a vila atraía o povo da região, vinham o circo, o sorveteiro, as primas do meretrício, o batedor de carteira. Coisa animada. Quando setembro chegou, ele já tinha a cara dos moradores da vila, havia-se esquecido da ex-mulher e dos filhos e, do dinheiro que levou consigo, ainda lhe restavam 1.800 paus. Dois dias antes da festa, a vila ficou em polvorosa e, duns 600 habitantes, passou a contar com 4 ou 5 mil almas. Numas gaiolas, havia galos de todos os tipos e cores para a rinha, coroamento do grande acontecimento, no sábado à noite. Ele se engraçou com uma prostituta ruiva que lhe surripiou 500 paus e, com a sobra, resolveu mudar a vida para melhor ao apostar tudo  nos galináceos. Ah! Inácio, tinha um amigão com esse nome.O prêmio era gordo. Ele foi ver os galos , informou-se e, depois dumas duas horas, perguntou ao cara mais bem informado da vila qual era o galo bom. O bão?, quis saber ao certo o homem. Deixe-me ver de perto. O bão, cara, é aquele. Era um galo vistoso, de penas brancas e  peito estufado. Vou apostar tudo o que tenho nesse aí. E foi. Verdadeiro massacre porque o galo carijó furou o olho do branco, bicou-lhe o peito e o deixou prostrado. O branco agonizou e morreu. Você não disse que o branco era o bom? E era, mas tem um porém: O outro era o marvado!

 

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