Ciclo da desconstrução urbana do Brasil, I

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Luiz Roberto Benatti

Anotações dum ex-freio de camburão

Pela ordem. Conheci bem uns trinta funça.Vida louca, mas não cheguei a shock nem vi a branca do dia pra noite. Pensava, queimava o bestunto, sabia dar caôca. A caôca funcionava. De ripado que fui, um dia você fica bem na fita. Lá dentro o cascão não despregava o olho de mim. Louco de pedra. Quem vai arregaçar? Pensei: faço uma bicuda e meto na pança do infeliz. Ofereci cascuda, ele queria brizola. Dei choca, ele vomitou na minha cara. O puto queria cimento. Ele dizia baixinho: Não me enche, que tu volta a ser cofre. E mais: Tu precisa de corrida. O sujeito só me corujava.Disseram no pátio: Dá mio pra ele.Como? Vai entrar dragão, aí você deixa de ser esparro. O homem quer farinha. Nóis arruma uma graneleira escolada procê: 10 ou 15 paus.As muié guarda na perseguida.  Bufunfa? A gente faz uma ajudazinha, tu deixa de tremer como vara verde e passa o rato na quinta-feira, dia sem Lua. E se eu for pro Sítio do Pica? Não, cara, o homem vai cair. Temos X9 aqui dentro. É só simular. Tu tem de parecer cabuloso, faroleiro, 171. Aqui nóis sabe tudo, quem chacoalhou, o que pensa o capa-preta, nóis tem bomba. Nada de coazada nem passar o dia na comarca. Tu tem de ser 12 dos bão lá fora.Lá fora é na mão grande.  Também não precisa ser duquecatorze. Na quinta, tudo vai estar branco. Tu sai, se arranja e arruma uma feinha. Fica nobre, compra G3. E se eu  for pro piano? Eles botam lambreta nos dedos. Tu mata o cara, joga no latão de lixo e a turma leva pro microondas. Moca a bomba paia com os cabritos. Tu tem jeito de patrão. Os porco vai cair tudo e tu ainda acaba ripado.Fiz o serviço com uma 40, estourei o miolo do distinto. O tempo passou, acabei ripado e patrão.  Pela ordem.

 

Antônio Rabe, ao seu dispor

 

Herdei a dupla ou tripla papada do avô paterno, meu grande herói. No começo você custa para segurar no canto do lábio direito o charuto aceso: os olhos pegam fogo, o cheiro ácido provoca náuseas. Tenho 1,87 e peso 130 quilos e  já arrebentei porta de garagem com três bons murros.Não sou de me gabar, mas a você eu conto: dei um murro na cabeça dum touro e o bicho estrebuchou. Estrebuchou e morreu. Atirei de metralhadora de mão. Nada de cocaína, velho. Meu avô faturou uma montanha de dólares com a lei seca. Secou aqui, você abre ali – torneirinha inesgotável: deputado, senador, grã-finos, peixes graúdos, a arraia miúda,  todo mundo no bolso.Solte a grana e a turma vem logo comer na palma da mão: a baba viscosa escorre pelos cantos dos lábios.  Quanto mais firme  a proibição mais meu avô vendia uísque bom ou falsificado. Alguns idiotas juram que o falsificado é melhor que o bom. Uísque, mulher, cassino, perfume, roupa chique, assalto a banco, controle total e absoluto  da área central da cidade. Periferia? Deixe para o povo do craque. Merreca. Dê proteção contra você mesmo. Espalhe que você come churrasco de criancinha de colo.  A turma paga. Mija de medo mas paga. Melhor uma cidade bacana agitada que uma vila morta: bola de capim seco levada pelo vento gelado do Inverno. Vá se catar, cara! Se aparecem concorrentes? Aos montes. Fique de olho na turma, bota espião nos quatro cantos da cidade. Uma vez armamos uma cilada, às 3 da manhã, num pátio de ferro velho, pelos lados da Catedral de São Jerônimo. Frio de lascar. Os panacas chegaram armados até os dentes, sentaram-se conosco ao redor duma mesa de madeira duns quatro metros de comprido.Pareciam agentes funerários.  Falamos do tempo, de futebol: conversa de tico-tico. É bom falar de futebol porque todo mundo acha que entende. Meu pai puxou o lenço, assoou o nariz: era a senha. Estouramos 25 miolos. Se não for assim, vamos comer arroz com banana e pão amanhecido. Al Capone? Começou como motorista e soube como chegar lá. Um mestre, exemplo para qualquer jovem desmiolado de hoje triunfar na vida.Não adianta quebrar braço de professora: o negócio é o grande negócio do crime. Crime é cultura.  Meu nome é Antônio Rabe, Nino, o xodó da nona Rita. Para mim as mulheres, com exceção de minha mãe,  são todas safadas. Mentem até mesmo quando juram dizer a verdade, mas nada que um autêntico Patchoulli não resolva.

[Do ponto de vista do número de mortos, os assassínios de Osasco e redondezas foram  fichinhas quando comparados com os 7 mortos abatidos pela quadrilha do lado Sul, de Chicago, chefiada por Al Capone, contra Bugs Moran, chefe da quadrilha do lado Norte, no dia de São Valentim ou dia dos namorados, em 14 de fevereiro de 1929, nos tempos da lei seca. Por outro lado, a motivação para os crimes é  de mesma natureza, quer dizer, os senhores da guerra urbana ampliam cada vez mais o domínio da  geografia do crime.]

Bate-papo de malandro

 O coroa, os primo, ninguém lá no morro encara fanchona, biroba ou kula. E não vem não com essa de preconceito, coisa de gringo estudado. Raça traiçoeira. Se caio na tua pilha, tu logo me pede um brau. Nenhum doceis é chegado.Num dô brau nem careta. Pega o beco! Meta os ganho, ferrado de gilete, leva o bacana perfumado na bicaria e arranca uns coro de rato do trouxa, em Copa, no Leblon ou mais pra lá, no Estácio. Deixa de sê prego. Pensa que é só usá tora rego ou teta de fora? A tua despinguelou feio. Branguelão engomado, ruço encardido. Tem medo dos cana? Quem tem fiofó tem medo. Corage? Toma umas birita ou gel. Tem filé concorrente na Lapa? Conta lenda, enche o rabo do bacana de ouro do veneno. O bunitão anda de Chepala e tu de camelo? E daí, Mané? Os cara não passa duns bucho de lama. Se liga na fita, véi, e não se meta em praia melada de cocô. Da larica você não sai mais nem com reza braba e você vai virá salame podre. Tô lombrudo com você, serrote sem proveito. Tu deve nas boca e os mano não vai pagá sapo não. Noutro dia tu aprontou e foi se escondê nas prima. Tem dona lá? Corta dos dois lado? Tu tá é de fulerage. Chega de zuera. Vou puxá um zero bala.

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