Ciclo da desconstrução urbana do Brasil, II: cenas adversas

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Luiz Roberto Benatti,  Elko Perissinotti & Diego Tiscar

 

Hamlet: the fall of the phallus

 

Enquanto houver vida inteligente no planeta,  Hamlet será lido, relido e treslido, assim como o falo será usado, manipulado e simbolicamente castrado. Sem ele, teríamos nos transformado em sombras erradias cercadas de  carcaças de automóveis, vermes, salas de teatro povoadas de ratos e morcegos. O falo é aquilo de que eu falo. Tu falas, ele fala, nós falamos. No intervalo, entre sim e não, nós o acariciamos. É como bambu fino por onde escoa a gosma branca, creme de leite  penetrante, depois do suor e os vagidos ensaiados. Hamlet deu-se conta dos limites aos quais a morte punha termo: “The question is: is it better to be alive or dead?”Is/is: afasia ou dislalia;  no discurso morrem a consciência e o desejo duma promessa de felicidade que não se cumpre: aquém  ou além do interdito, a mãe/a Mãe – abrigo da gosma automodelável – via-se bojuda no espelho, e  com ar de triunfo, ao apalpar o falofilho que, aos poucos, aprendia a erguer-se, empinar-se, mexer-se, socar as paredes do único Éden marcado pela permanência, à procura do qual todos nós não passamos  de  órfãos   desvalidos de Marcel Proust.Quem tem falo pode falar, delirar e copular no lar ou fora do lar.  “… in death’s sleep who knows what kind of dreams might come …”, razão da velatura que fez de Sigmund Freud um tradutor de enigmas para uma língua enigmática – a Psicanálise. O abismo invoca o abismo. As fímbrias da Dinamarca estão podres porque o falo, quando flácido, refugia-se no ataúde de Nosferatu. Phallus/fall: queda, caimento, redução, palidez. O falo é progenitor da honra e da desonra, do conforto e o desconforto.  Vergonhoso vê-lo agonizante ou ausente no esqueleto, com a admissão de que, agora, homem/mulher perderam de vez cartografia e identidade. Não há nada ali porque o advérbio é apenas o não-lugar do fantasma desejante. O falo é a-tópico. A mãe que nos acalentou enquanto teve hora e vez de falar de nós como falo, a mãe patriarcal, aliou-se ao tio matriarcal para matar o Pai, nosso algoz supremo. Ardilosos, mãe e tio, enquanto o pai/Pai campeava no sonho do sono o sabor antigo de chá e bolacha, introduziram-lhe pela concha auditiva o veneno que lhe corroeu o cérebro, até que ele se esquecesse das clásulas da Lei – “the inefficiency of the legal system”. O sistema produz lucro e ferramentas: “When you could simply take out your knife and call it quits.” Castre-me, ó Pai, para que a noite encubra meu corpo enregelado. Dê-me um corpo inaugural que não se recorde do furor da ausência.

 

O terror

 

Tanto o  riso quanto o escárnio cessam diante do cenário de terror. O luto não tem gengivas. Conrad, que o conheceu por viagens e o imaginário de escritor, escreveu: “Who knows what true loneliness is – not the conventional word but the naked terror? To the lonely themselves it wears  mask. The most miserable outcast hugs some memory or illusion”, quer dizer, “Quem sabe o significado da verdadeira solidão – não a palavra convencional, mas o terror posto a nu?Para os solitários ela usa uma máscara. Os mais comuns e desamparados acalentam alguma lembrança ou ilusão.”O terrorista também é um solitário, todavia essa condição não faz dele um paladino de grandes causas religiosas ou debates  filosóficos. Seu silêncio não se propaga no claustro, mas se inebria com o formol do necrotério. No ato de provocar o morticínio, ele se mata. O morto não tem tempo de ver esgarçadas ou esfareladas as próprias memórias e o terrorista apaga os mais mínimos traços  de memória invasora que a vítima, independentemente de sua vontade, aspergia como cinema, escultura, museu, celular, moda. O terrorista é como o cão que não faz trocas: seu osso é moeda única que bolsa alguma negocia. Ele aprende a Língua do outro apenas para mapear locais e ruas por onde o sangue irá escorrer. É um Robespierre que nada soube do regime antigo nem vai-se enamorar do utópico. No terrorista a infância foi absorvida pela adolescência e a adolescência jura de pés juntos que a velhice é para os otários. Os pedaços do terrorista não frequentam o IML. Para escapar à morte, o morto provável finge-se de morto – estato único admitido pelo terrorista. Problema sério para o terrorista é que ele, a rigor, não poderá sobreviver à sua missão, uma vez que a memória é sua grande adversária. Ele só não poderá zerar a geografia – o deserto interior/anterior  é sua mãe: waste land. Ele  não se  emociona com a Revolução francesa de 1789 nem sequer a lamenta: naqueles dias, a França montou cenários ao ar livre assistidos pelas massas, enquanto que o terrorista dos dias que correm é minimalista. Nos EUA, ele mata professor e aluno nas escolas depois de ter premeditado o gesto por muito tempo fechado num quarto de solteiro. O terrorista norte-americano é o mais solitário dos solitários, ainda que ele só abra fogo contra seus fantasmas à luz do dia. A multidão não precisa ser morta: ela cometeu suicídio há muito tempo. A multidão quer comer, o terrorista é frugal. Num estádio de futebol, sob ataque terrorista, a multidão mata a si mesma, pisoteada por pés equinos em fuga. O terrorista adora indefesos e distraídos.O controle (ma)remoto do terrorista é o fuzil Kalashnikov. O brinquedo de Ísis é explosivo.

 

De um dos terroristas, sobrou apenas um dedo: no estado em que se encontra não servirá mais para retirar o pino da granada. Para a polícia de inteligência, serviu para identificar um jovem sírio que vivia no bairro Madelaine e nisso Marcel Proust acordou para o chá e a bolacha, cuja memória teria levado o terrorista, vivo, a apunhalar-se. A morte não cultiva memórias.

 

A única novela

 

Entre nós, desde 1966, só assistimos a uma única novela – O Direito de nascer. Você se senta na poltrona, depois de pedir licença ao gato, com a luz estroboscópica entre branco e preto até que ela se torne colorida, mas o filho, o sempiterno filho, recorta-se pelo antigo formato. A primeira novela foi também a última. Enroscamo-nos na primeira porque nela se achava o cascalho reluzente de nosso tema: a busca do pai e a identidade. O filho procurava o pai como quem carece de pedaço essencial do corpo e a alma. Se nos falta o tronco, onde assentaremos pescoço e cabeça ou guardaremos o coração? O Brasil é rurbano.Estaria o pai na roça ou na cidade? Do coração para a cabeça flui o sangue como se fosse o mar oceânico ou talassêmico de Ulisses, a quem o filho aguardava em Ítaca. Ítaca está em qualquer lugar e em lugar algum. Você tem de vestir a camisa do pai como quem se recobre da pele de Adão. Está manchada de suor, um furo na axila, colarinho esgarçado, desbotada e caída de moda, como a que você comprou na Ellus, no último Verão, estará daqui a uns dois anos. Essência e aparência. A primeira novela foi e será sempre a última. Adão, Eva, Caim, Maria Copolla, Donatela.Trocam-se os nomes, mas não caracteres. Trocam-se entidades, mas não figurações matriciais. Albertinho Limonta escondeu-se atrás da porta do quarto à espreita do pai. O pai custa para achar-se como pai porque ele anda à busca do próprio pai.

 

AMARÁS O MARQUÊS DE SADE COMO A TI MESMO ou   KANT/ADAS AVEC Le MARQUÊS DE SADE

 

Sade Adu é  linda e com voz capaz de “decapitar corações”! Como é amicíssima do Dr. Lois Alzheimer, avisa-nos que, confusos e desorientados em seara alheia, navegamos na contramão e já estamos prestes a  abalroar  o fulgurante farol da Normandia, cemitério dos bravos marines. As guerras são grandes e cinematográficas ocasiões para a criteriosa observação do sadomasoquismo, por isso são desejáveis tanto no que diz respeito à venda de armas quanto para garantir o sanduíche com limonada dos psicanalistas ou psiquiatras.

Depois de passar os argutos olhos pela resenha do jornal italiano La Stampa sobre o filme de Steven Soderbergh, Terapia de Risco, o marquês logo  deu-se conta de que poderia se safar da perseguição dos reis e da sogra, se saísse em busca dos modernos tratamentos.A coisa mais atraente nos modernos tratamentos é que eles são modernos, num mundo em que ninguém quer ser tido como ultrapassado. Pensou também nas farras e surubas em novas fronteiras. Chegou até a convidar Kant, mas o furioso Lacan não permitiu que lhe roubassem o espelho e muito menos a razão. Mandou chamar Justine, a virtuosa loira burra  —  mas havia pensado em Juliette, a puta  –, e seu namoradinho para uma viagem de dois meses a Londres onde iriam encontrar-se com Sigmund Freud e seu divã de conspurcadas memórias para tratar dos achaques histéricos. A angelical Justine talvez encantasse/fisgasse o famoso alienista que já havia analisado Machado de Assis,ao curá-lo na casa do Cosme Velho de   epilepsia histérica com Gardenal. Sade, o marquês, grande especialista em hospício e dentifrício, sabia muito bem o que fazia e esperava aprontar umas e outras com o doutor que havia acabado de levar porradas públicas de seu ex-pofessor, Dr. Meynert, por  insistir na maluca idéia de histeria masculina. Até que poderia ter dado certo a maquiavélica estratégia sadeana. Todavia, imprevisíveis ou então mais previsíveis do que aparentavam ser, o trio libertino ateou fogo às vestes do cardeal que  se queimou com a camisinha ainda pendurada no órgão  —  o avesso da Santa Inquisição. E chicotearam o pobre e servil cocheiro até a morte. O cocheiro havia se encantado e se engraçado com as belas coxas da moça, e a moça, mesmo esmagada pelo super-eu, deliciava-se com a vista do corpo nu  do cocheiro. Justine, hesitante diante do chamado da carne, acabou por agarrá-lo na dobra de um longo corredor escuro do convento das carmelitas, e o cocheiro aprendiz de encoxador  estremeceu da cabeça aos pés, ensaiou arfante algumas manobras aprendidas com o marquês, e Justine, a loira virtuosa, como toda boa histérica, recuou e prometeu vingança para o dia seguinte, pois naquele instante já se encontrava em cima da hora para o início da missa. O cocheiro não era um cretino absoluto; leitor de D.H. Lawrence diplomara-se em sacanagens na leitura de O amante de Lady Chatterley.Foi assim que no divã do Dr. Freud  —  em êxtase diante de suas constatações  —  depois  de sangrar os costados  do desgraçado, abriram-lhe as feridas com  sal da Sardenha e chuparam-lhe o sangue. O rapaz-namorado quis aplicar-lhe pimenta mexicana, todavia não localizou o pote presenteado por Octavio Paz no ano anterior. O marquês ficou ensandecido porque a usava para apimentar suas orgias, além de ser admirador do Nobel mexicano amigo de Simone de Beauvoir no Facebook. Final da história: tudo em vão, tudo em vão, como diria Both, assassino de Lincoln. Justine morreu estuprada pelos deuses do Olimpo. O marquês morreu no hospício, mas com duas mulheres. E Louis Sade botou fogo nos livros do Pai.Aliás, botar fogo nos livros é uma boa, como costumam  dizer os moços ágrafos do Brasil contemporâneo.

 

[Nota dos Autores: Nada mais parecido com a realidade do que a ficção, já que Aristóteles atirou pela amurada do Titanic o tratado de Lógica. Todavia, adiantamos-lhes que de nenhum modo nossa narrativa deverá ser classificada como anarcossindicalista.]

 

Obliqüidades do Eu ou Coimo a ninfa Eco ficou prisioneira do claustro de Madame Selfie

Desde que os ícones religiosos recriaram rostos que jamais existiram, com uma tiara de luz acima da cabeça, não mais deixamos de nos amar. Fato é que nunca amamos o outro ou um outro; somente a nós mesmos. O outro não existe, a não ser revestido de grande Outro, o que nos torna tementes aos deuses, aos fantasmas e às sombras. Narciso sabia disso, e criou a sua própria selfie. Como Prometeu castigado, também sabemos disso, mas resistimos/insistimos e depois vamos dar esmolas ao mendigo, para ganhar indulgências. O amor a si próprio vence até mesmo nossas paixões por grandes objetos de desejo, como Marilyn Monroe e Scarlett Johansson. Entre o nosso adorado corpo desconhecidamente assexuado e os de Marilyn e Scarlett, ficamos com o nosso que é bem mais desejável. O amor a si próprio é ato fenomenal porque ainda que estivéssemos contrariados com nós mesmos, na manhã seguinte ao acordar voltamos (ou voltaríamos?) a erguer a bandeira branca da paz, com uma suave inscrição: “eu me amo, acima de todas as coisas”. Nenhum de nós será feio o bastante para crer que, mesmo o buraco do queixo do Kirk Douglas, não possa ser um traço de congenial beleza. Estamos doentes, mas sempre estivemos. O ruim é que ultimamente o paciente vem piorando. Na selfie, não há garota que se comporte como o roto que fala do defeituoso, porque nos vemos no retrato como virtuosos, com ou sem ninguém ao lado. Ainda não há vacina para a histeria; antigamente havia: as tias da zona de luzinhas vermelhas e os espanadores de xoxotas (vibradores do século retrasado do Dr. Taylor). Como a fila anda, restou o velho espelho e as suas ramificações “photoshopadas” para decifrar a origem dos abismos no corpo e na alma. Como na esquizofrenia, toda selfie tem uma das origens num pedaço de invalidez crônica que nos habita, e há situações em que a fatia é bem grande. São esses pedaços e essas fatias que retroalimentam a selfie. Foi a selfie que ensinou a Lacan que a relação sexual não existe. Adler, muito antes, já sabia da potência da vontade do poder, muito mais forte que a velha libido. Como os pernilongos da febre amarela, a selfie tem poucos dias de vida, mas seu poder de reencarnação imediata é dantesco. Uma izselfie só não domina suas sombras, que têm vida própria e nos assombram. Jung buscava a segunda sombra, isto é, a sombra da sombra, aquela à qual chamamos fantasma e que se esgueira pelos cantos de nossas casas. Andróides e assemelhados são nossos estúdios cinematográficos portáteis, dos quais somos diretor e ator. Nem todos os enquadramentos podem ser levados a cabo, mas isso é entrave de menor importãncia. O P.A.(?) ou plano geral fechado, bem como o ângulo visual aberto são impensáveis: o outro só nos interessa (interessa?) se estiver na platéia. Não interessa às promotoras da selfie o P.D. ou plano dos detalhes: o beicinho só será um chamariz estético se aparecer em close-up e, ainda assim, fugaz. Mas qualquer garota adolescente sabe/não sabe da importância do beicinho.É provável que Jean-Paul Sartre não ficasse amuado se disséssemos que a Selfie é um fenômeno, tanto é verdade que ela se firma entre ser e parecer (devo ser o da selfie, mas com quem me pareço?), antinomia que às beldades não interessa pôr em questão. Se se parece comigo não será algo que se desdobrou do Eu como consciência, na condição de duplo, já que a semelhança é outra coisa que não a coisa mesmo. Todo fenômeno é inapreensível: onde estarão a essência da Selfie e sua dissimulação? Aguarde o próximo retrato e depois outro e outro mais.Ao finalizar, poderíamos parodiar Susan Sontag e dizer que fotografar-se  constitui ato de auto-violação, na tentativa de me ver como nunca me vi antes, transformando-me num tirano  sedutor da plateia embevecida, como se a figurante da Selfie e suas espectadoras fossem tomadas pelo espírito de potência, num gesto que há de repetir-se até a morte já que o celular entra nesse delírio cinematográfico como um revólver.Trata-se dum assassínio subliminar, brando, porém apropriado para um instante de susto e tristeza, seguido de angústia.

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