(In)tolerantes, querelas e tagarelas

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Luiz Roberto Benatti

 

Quem nasceu logo depois da ditadura de 64 ou um pouco mais tarde e ande pelos 25 ou 30 anos lembra um  pouco a cabeça desprovida de  corpo ou vice-versa. O Brasil não foi redescoberto depois de 1985. Memória é memória e até mesmo os gatos sabem disso. Entre o agosto de 54, com o suiparricídio de Getúlio Vargas, e o março de 64, passaram-se tão-somente 10 anos, a metade dos quais foi gasta com a releitura e tresleitura da carta-testamento e, a partir disso, com discussões e mais discussões, toneladas de teorias sobre Política e poder: Arrais, Francisco Julião, Fernando Henrique Cardoso, Ianni, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Correio da Manhã, Otto Maria Carpeaux, Paulo Francis, O pasquim, Oduvaldo Viana Filho, Brecht, Teatro de Arena, Plínio Marcos, Ênio Silveira e a editora Civilização brasileira, marxistas, trotskistas, anarquistas, comunistas: quase todo mundo botou na massa uma pitada de sal. Jango? Quando a direita cansou-se até a náusea de julgá-lo idiota, e coincidentemente com a visita que ele fizera à China, iscou a furibunda TFP para morder-lhe o calcanhar. O que é que tem a direita para dizer da China nos dias que correm? Teria a direita projeto de Política, economia e administração pública diversa da dos figurantes do álbum dos fascistas: Perón, Salazar, Franco, Stálin, Hitler? A direita não tem projeto de governo, a não que você entenda que botar goela abaixo do adversário colher de olho de rícino seja projeto político. A direita gosta de querelas. Assim: isto é de deus, aquilo é do diabo, eu sou de deus, você é do diabo, meu pai é de deus, o seu do diabo. A direita é kitsch, o leão fascista da TFP é kistch. A direita fala pelos cotovelos, porque sua boca está costurada e cercada de arame farpado. A direita é intolerante: não tolera o seu clube esportivo, o livro que você lê, o seu partido, o sorvete que você toma, os seus amigos. A direita é monótona. Como lidar  com a direita? Enfrentando-a com a mesma bazuca: a intolerância. Eis o paradoxo de Popper: se devemos ser tolerantes, e se somos intolerantes com os intolerantes, seríamos também intolerantes?

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