Deus e o Diabo na Terra do Sol

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Luiz Roberto Benatti

Sentado na Praça da Matriz, padre Albino não participou da manifestação da moçada local contra Jair Bolsonaro: suas pernas, cansadas, têm o peso do bronze nos olhos  em que ainda se imprimem as lembranças do exílio africano depois que a monarquia lusa o expulsou de Portugal. Padre Albino era ultraconservador e fugia do comunismo com sotaina e bengala apressadas, mas devia distinguir muito bem Deus do Diabo. Quem é mais feio que o Diabo? O Pintam? Por que? Porque o Diabo não é tão feio quanto o pintam. A famosa classe média, ora bolsonarizada, pendurou num poste a efígie do Lula, seu demônio mais execrável. Como a classe média brasileira é santa canonizada por si mesma, ela não aceita nem jamais aceitará fazer de Sérgio Cabral e Eduardo Cunha diabos a ela assemelhados. Muitos desses diabos padre Albino levou para o púlpito e com eles conversou em voz quase inaudível sobre uns trocos para construir asilo e dar sopa aos pobres sob pena de ele ter de bater um papinho com a distinta senhora sobre as andanças do marido pelos ínvios caminhos. Cabral tem charme, come e dança em Paris; padre Albino era amigo do peito de Minguta, o homem dos pés descalços, sem mulher bonita e jóias. Cunha dançou no Congresso o último tango coreografado pela classe média. Cada um de nós escolhe heróis e vilões segundo seu catecismo interno. Bolsonaro não é escolha politica, mas lacrimosa, porque só ele poderá salvar de si mesma a classe média coberta de pecados. A classe média não tem a noção mais mínima do que possa ser o demônio, e isso é bom porque a ignorância nos ajuda a mentir sem perdermos a língua. Escolher a estrada real seria ato de racionalidade ou algo parecido com penso, logo insisto. Do francês, a classe média só leu excertos de As paixões da alma, leitura que a conduzirá a cair num imenso buraco. A classe média recusa-se a comer um bocadinho da rapadura feita de macaxeira, de que padre Albino não recusaria quando tomava refeições  na Pensão Estrela. Estrela?

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