Na mala do denunciante, havia muitas jararacas, mas só uma delas tinha peçonha suficiente para melar as eleições

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Luiz Roberto Benatti

Estará equivocado quem disser que estamos protegidos de nós mesmos, na rua, no bar ou na barra do tribunal. Quando a caça às víboras predadoras do erário público começou a girar na mão suada  as contas , depois do natural arrepio  na barriga, erguemos aos céus nossos guarda-chuvas. Houve até mesmo quem atirasse para longe o guarda-chuva para beber da água benfazeja. Era um pouco como se estivéssemos em Nuremberg, atentos, bem ao lado de Hannah Arendt, com quem nos raros intervalos pudéssemos reaprender que o Mal, por força de infinitas repetições, torna-se banal.Com a grana do erário banalidade não há porque o tutu é transcendental, constrói o céu sobre nuvens coloridas. Spencer Tracy, meio carrancudo como sempre, seguia as palavras sem perder substantivo ou adjetivo. Os generais poderosos mantinham-se eretos e certos de que  tudo tinham feito por obediência ao comando superior. Longe do patíbulo, perto do coração. Aqueles homens sisudos juravam pela cruz gamada que o mal não era o Mal e que este nunca existiu, porque tudo se fizera pela remoção de judeus ricos e pervertidos. Mas por que o fizeram? Cumprimos ordens. O chefe porém não tinha braço tão longo que fosse de Dachau a Auschwitz. Ainda que às vezes o chefe pareça dispensar o prestimoso auxílio de braços associados, eles aparecerão para o churrasquinho de fim de semana. A turma estava reunida no Planalto: Zé Dirceu, montado no pódio dum banco giratório, olhava para a fotografia de Cohen Bendit para ver quem fora mais charmoso; Palocci esfregava o indicador num bótão em que se lia I love Ribeirão. O quê fazer? O chefe sabia de cor e salteado que o mapa da mina era verde-escarlate, mas o Como fazer foi gestado na cabeça do moço de Ribeirão. Assim, são as coisas: o bando poderá ser maior do que você acredita de acordo com sua vã filosofia, ou menor, se você alinhar o pensamento pelas lições jurídicas que tudo sabem, tudo vêem e tudo ouvem o que mais  lhes convêm. Moro é fã de carteirinha de Eliot Ness, mas, como nunca esteve em Nurenberg, não liga para Rudolf Hess. E, assim bem pautado, tira de cena o Diabão para manter na boca de lobo da urna o novo Diabo, adorado pelo inocente pessoal da mineração, incomodados  porque os índios não querem mais apito, mas sim caminhonete potente; pelos sócios da indústria da bala que vêem na cidade e no campo alvos resistentes ao sol e à chuva, e pelos santos  pastores, em cujos campos verdejantes ergue-se em 3D a efígie de George Washington. A classe operária perdeu o bonde para o Paraíso.

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