Pesadas eram as batidas à porta

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Luiz Roberto Benatti

tão pesadas eram as batidas à porta

que o cão amedrontado mordeu o próprio rabo

e mesmo assim não soube contá-las

quem batia e eram vários cheirava a naftalina

saibro podre restos de carne

por fim um garoto de rosto azulado

entreabriu a porta os homens invadiram o

minúsculo local e foram até a mesinha semi-iluninada

o velho prendera à testa sua tiara de luz

e pelo monóculo vasculhava o interior do relógio

que pertencera ao imperador qual deles não sabemos

porque todos eles agora estavam pendurados na pinacoteca

o homem mais carnudo e carrancudo do grupo

perguntou com voz raivosa se o velho era Fulano

Sicrano ou Altrano primo de Trajano

e onde ele guardava minutos e segundos perdidos

depois do conserto ou se o Tempo escoado era

banhado em ouro ao que o velhinho respondeu

que o Tempo tanto quanto oEspaço nunca existiram

como algo palpável e continuou nesse passo

até que o inquisidor o levou para uma feroz acareação na delegacia local, tomada das digitais

exame da concha auditiva e perscrutação das narinas

o garoto de face azulada esperou pacientemente pelo

retorno do velhinho que tanto tempo demorou

para voltar que o garoto ficou de cabelos grisalhos

e voz balbuciante

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