A jararaca e o vagalume

 

Luiz Roberto Benatti

 

Para Maria Solange Benatti, para quem  as fábulas são mais verdadeiras que o Mundo Real

De acordo com a advertência do cineasta Stanley Kubrick, a jararaca deveria ter ficado com os olhos bem fechados, porque, a partir do instante em que ela, em noite escura, deu-se conta do sobrevôo do feérico vagalume, perdeu-se de si mesma. Depois dessa visão memorável, a jararaca nunca mais foi a mesma e  jamais se reencontrou em parte alguma : conseguiu, em pouco tempo, pôr abaixo os limites das muralhas internas, adoeceu, perdeu escamas, descoloriu-se e os olhinhos miúdos começaram a perder acuidade visual. A jararaca ficou grogue como um bêbado colina abaixo ou como carpa numa britadeira. No dia seguinte, e nos demais, e antes do próximo eclipse lunar, ela permaneceu no brejo, inapetente, abraçada aos fantasmas encenados pela mente transtornada, à espera do retorno do vagalume com sua luz extraordinária. O vagalume parecia-se com o ator alemão Klaus Kinski, no papel de Conde Drácula. É certo que a jararaca jamais estivera na Transilvânia, mas, como os vampiros, temia o mais mínimo fiapo de luz. A cobra ofuscava-se, sibilava. Atacada por forte cefalalgia, a cabeça inchou-se e ameaçou explodir.

O que o vagalume fazia de melhor era ser vagalume, quer dizer, rir-se como tonto de quase tudo, fosse a coisa vista a cimitarra da lua minguante ou a torre fletida da taboa, a voz rouca do sapo ou o perfume inebriante da murta de cheiro. “Não vim ao mundo para sofrer”, escreveu o vagalume, com luz estroboscópica, na lousa noturna do céu constelado de problemas.

Revelemos: um segredo adorado pelos dramaturgos da Rede Globo provocava na jararaca convulsões e faniquitos paranóides. Ela nunca soube ao certo se era, de fato, Bothrops asper ou uma B. insularis e essa ignorância acerca da ancestralidade aumentou-lhe ainda mais os estados depressivos da alma.O vagalume por certo tudo saberia a respeito dos vagalumes e por que emitiam luz elétrica. Que glória! “A cruel verdade”, refletiu a jararaca, “é que o meu veneno é terrível. Pico o vagalume, ele sofre apagão e vai-se daqui para o inferno em 30 segundos.Esse idiotazinho luminescente não sabe que o Brasil descobriu como fazer a síntese das proteínas do meu veneno para produzir o Capoten, inibidor da enzima conversora de angiotensina. Sou modesta e maravilhosa! Sou um fenômeno exponencial: levam-me de Itanhaém para Amsterdã, posso jejuar por 6 meses ou ser hermafrodita. Sexo para mim não é problema. Vou devorar o vagalume sem piedade.”

Dito isso, abocanhou a minúscula criatura, cujo fósforo apagou-se, acendeu-se, apagou-se e acendeu-se. Com voz sumida e quase desfalecido, o vagalume pronunciou o primeiro e último discurso de sua vida em causa própria: “Poderosa jararaca, jamais prejudiquei alguém. Ilumino com luz tênue os caminhos do cego. Sou silencioso como um velho monge zen-budista. Não tenho carne gordurosa nem corpo que alimente o menos faminto dos seres famintos e não nutro qualquer intenção de reinar sobre os seres da Criação. Não faço parte da sua cadeia alimentar. Poupe-me, belíssima jararaca! Experimente a gratidão ao menos uma vez na vida. A inveja leva ao ciúme e o ciúme  é  beberagem que destrói quem a destila.” A jararaca torceu a língua viperina e deglutiu o vagalume com o derradeiro lampejo. Nisso, a terra fendeu-se em muitos abismos, os céus escureceram e a jararaca, quase cega, não percebeu a aproximação da grande coruja que,  num movimento rápido e mortal, a devorou num demorado jantar de família, à luz de milhares de vagalumes fosforecentes. Que banquete!

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