Antes do jantar com Mugabe

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Luiz Roberto Benatti

 Meu nome? Como é que  o ignoram ?Voltem a Shakespeare para certificar-se do doce perfume que exala de cada nome ou apelido.  Como é possível que não saibam  meu nome de batismo, o nome que meus pais me deram? Mugabe, mas podem me chamar de Ebagum ou Gamube, talvez eu atenda ao chamado de Gabemu ou então Mubega.MGB, letras nobres como Garamond ou Bodoni, Geórgia.  Fale, filhote de coisa nenhuma. Nobre senhor, eu me chamo Zinzunzin. O senhor gosta? Como vou gostar dum nome que não quer dizer nada?Isto é onomatopéia para mosquito. Melhor não ter nome.  Eu tenho uma pluralidade de nomes, tantos quantas são  as gravatas que troco ao longo do dia, enquanto  vocês, os deserdados do planeta errante,  só têm um único nome miserável e alguns de vocês nem nome têm.Além de ser reverenciado meu nome será eternizado. Ajoelhem-se aos meus pés aqui perto do sofá. Eu falo,vocês escutam, vocês escutam e eu falo, porque assim o nosso território será democrático e pacífico. Tudo o que eu disser será Lei, porque tudo o que eu digo é soprado pelo vento dos antepassados.Vocês não são antepassados, mas mal passados.  Falo por mim e por todos: os outros, os de outros tempos, os próximos, os remotos,  nascidos e não nascidos. Vamos criar uma nova ordem, tudo será diferente até mesmo o modo de ser diferente ou indiferente. Se você até agora segurou garfo e faca dum jeito convencional conforme as lições de Marcelino de Carvalho, irão segurá-los de outro modo. Com isso a comida deslizará goela abaixo sem formar nós no gogó. Temos de desatar os nós.Nós somos os nós, mas os nós não poderão ser nossos nós.  Nós iremos desatar os nós. Temos de refletir sobre tudo e todos. Por exemplo: a capital da Bolívia chama-se La paz e La paz quer dizer “A paz”. Pergunto aos convidados: existe a paz?Não, nosso nobre senhor! Não existe nem poderá existir. Portanto, o amigo de nariz rubro que me olha atentamente fica convidado a pensar noutro nome para a capital da Bolívia. Sugiro-lhe dois nomes: Golden Scarab ou Blue Salamander.  Um minuto de atenção! Antes de nos sentarmos à mesa, anotem: de hoje  em diante não precisarão preocupar-se com coisa alguma, porque eu pensarei por vocês, até mesmo quanto à melhor hora para ocupar  o w.c.A questão seriíssima do w.c. é que ali não deverá faltar a revista Vogue.

Entreato: O palanquim

 

Daqui até a mesa, bem contados, são 700 passos. Os condutores do palácio irão me transportar  à cabeceira da mesa, de palanquim. Se entornarem o palanquim, mando cortar o sujeito, em duas partes, da cabeça aos pés. O palanquim é como um táxi dos tempos imperiais em que os reis eram esplendorosos. Japoneses e chineses, com elevado sentido imperial, usavam palanquins e, no Brasil, os homens da corte. Lá de cima, você avista o mundo de cima. Contre-plongée, o poderoso Kane via, de cima, o nanico e os fracos dobravam-se ao  chicote verbal.

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Não se esqueçam de comer com garfo e faca, seus animais!

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