1972, um ano que mal começou

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Luiz Roberto Benatti

 

No dia 30 de junho de 1972,  o prefeito João Righini assinou a lei no. 1290 que propunha a criação dum fundo de bolsas de estudo da FAFICA destinado a “alunos carentes de recursos econômicos e que possuem bom rendimento escolar no período de isenção”.Carentes, porém inteligentes!Para que tal fundo fosse capaz de administrar  de fato a questão premente da concessão de bolsas, a lei previa que parte dos recursos viria da doação de particulares e empresas.Nunca  tive  qualquer informação de que alguém fosse procurar empresários ou particulares em nome da faculdade para que o numerário repassado quitasse a dívida dos alunos pobres. Há 40 anos, inventamos o pró-uni de forma estapafúrdia.  Num dia desses, talvez no próximo ano, a Secretaria da cultura deveria encomendar aos futuros alunos de História pesquisa remunerada de leis que, anunciadas com pompa, fogos e circunstância, não saíram do fundo da gaveta, ou então que, depois dum primeiro ensaio tímido, não puseram mais a cara fora de casa.Tarefa de Álgebra para a Câmara Vista d’olhos de CTV: 1972+28+13= 2013 ou 28+13=41. Nunca vi tal grau de desinteresse pelos estudos universitários. O Facebook, como se fora o Jornal do Poste, do velho Paschoal Artese, recebe posts e mais posts do crítico ocioso e descabelado, cuja memória perdeu-se no canavial da Fafica, incapaz de admitir que o atual prefeito soprou oxigênio no coração da faculdade cansada de guerra. Irônica, a Cãmara pede vistas de projeto de isenção para alunos necessitados e, como a opinião pública, no mais das vezes, é constituída por grupos enfezados da classe ociosa, o administrador é mal interpretado.  Quarenta anos depois, o aluno remediado disposto a candidatar-se a um dos cursos da instituição e que, por falta de recursos não pôde fazê-lo em sua época, virou  aposentado da previdência  descrente de livros e o conhecimento do mundo.Os livros que se danem e, assim danados, exilaram a FAFICA para o ermo do matagal da Washington Luís. O que do cinema  diria esse idoso , cujas salas, na época, eram 4 além do cineclube? Três meses e meio depois da bolsa vazia da faculdade, estreou em Nova York, em 14 de outubro de 1972, O último tango de Paris que, na ácida declaração do diretor Bernardo Bertolucci, fez de Marlon Brando “a gang and a pimp”, quer dizer, “gângster e cafetão”. Cafetão da atriz Maria Schneider que contracenou com o grande ator norte-americano e que, depois do filme, perdeu  rumo e  juízo.  Os  personagens  Jeanne e Paul topam-se, por acaso, num apartamento de aluguel. Deprimido pela morte da mulher suicida, Paul/Marlon Brando propõe que cada um deles deveria continuar ignorando tudo sobre o outro, até mesmo o nome. É possível que esse anonimato inaugurasse  um modo de ser e viver em que os enfarados do mundo quisessem  fugir do espelho e de suas identidades persecutórias.Kael escreveu: “The necessity for isolation from the world is, of course,his, not hers. He demands total subservience to his sexual wishes”, quer dizer, “A necessidade de isolamento do mundo é, de fato, dele e não dela. Ele exige subserviência total para seus desejos sexuais.” Brando lhe propõe até mesmo que vomite como prova de amor por ele. Ela o faz de bom grado, porque o amor, muitas vezes, é porco. Quem está aí, perguntou o gigante Polifeno  a Ulisses na caverna, ao que o navegador respondeu “ninguém” para continuar ileso. Apesar disso, Jeanne e Paul machucaram-se bastante com a sequência do estupro sodomizado. Schneider declarou que Marlon Brando a sodomizara de fato com a manteiga usada como lubrificante anal. Nunca mais os fãs olharam com os mesmos olhos para um pote de margarina.O BBB da Globo encena e reencena O último tango sob edredons e no chuveiro. Se é verdade que a televisão nacional faz de tudo para que os brasileiros regridam aos tempos da caverna, o cinema de outros tempos nos ensinava a ver com clareza os fatos do presente a fim de nos preparar para o futuro.Nós sodomizamos crianças.Subintelectuais charmosos praticam a pederastia sem a elegância de Andrè Gide.  Na visão da grande crítica de cinema Pauline Kael, O último tango mudou tanto a nossa concepção de sexo quanto o modo como os cineastas tratam as questões de alcova. Kael redigiu 3645 palavras sobre o filme para a revista New Yorker.  No dia seguinte ao da estréia de O último tango, o Diário oficial do Estado publicou documento de criação do Lar Betânia (Rua Santa Catarina, 655)  para “dar assistência às pessoas desamparadas sem distinção de raça, cor ou credo religioso, angariar recursos para a fundação e a manutenção de abrigo para a velhice, cuidar de famílias e menores desamparados”. Como se vê, as ações particulares mimetizam desatinos  oficiais e ambos terminam na vala comum dos projetos abortados. O número de desamparados cresce a cada dia. A diretora belga de cinema Agnès Varda colaborou com o roteiro do filme de Bertolucci cuja dramaticidade disse ela ter sido inspirada na morte de Jim Morrison. Música,cinema, teatro, dança,escultura, pintura são expressões de Cultura e a Cultura serve à reeducação do olhar. CTV tateia no escuro sem Braille e bengala. A atriz Rita Guedes nasceu em janeiro de 1972 e, nos dois anos seguintes, 1973 e 1974, Onílson Pátero jurou de pés juntos que fora abduzido por condutores de disco voador na região. Se foi a Marte, não soubemos. Os discos são velozes e caminham acima das nuvens.  Sempre fomos nefelibatas porque as nuvens estão altas e mudam de configuração o tempo todo. Nossos edis são nefelibatas:seu reino não é deste mundo.

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