Attílio Cardarelli Cypriano e Noel Rosa foram colegas de Medicina no RJ

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Luiz Roberto Benatti

 

Filho de marceneiro da velha Estrada de Ferro Paulista, o Dr. Attílio Cardarelli Cypriano vestia-se com a elegância dum filho de meridionais migrados da Itália para Campinas. Mais tarde, formado e, depois, casado, iniciou-se em Araras e, por fim, veio a atracar na Catanduva de meados dos anos 40s. Construiu sobrado na Rua Maranhão, 416, ao lado da Pensão Estrela, onde se abrigavam casa e consultório. Tanto os móveis da residência quanto os do consultório foram desenhados por Dona Altina, sua mulher e  ex-aluna de desenho do pai do professor Paul Edward Fort, no Colégio Culto à Ciência. À esquerda do arco árabe de entrada, na parede externa da sala de espera, havia uma placa: Dr. Attílio Cardarelli Cypriano, médico, operador, parteiro. Parteiro? Um mundo desaparecido. O consultório, como disse Paul Virilio, era o cômodo à parte (do mesmo modo que o médico separava/trazia à luz ou partejava  a criança), mero apêndice ou  um quarto a mais da moradia, cujas divisões ou contigüidades, ao isolar e proteger a  mulher e os  filhos do médico, protegiam  também suas identidades sem roubar-lhes, por isso,  o direito natural de se aproximar do paciente e seu acompanhante, saber de onde procediam etc. O médico era igual a nós e diferente de nós por seu saber sobre os nossos corpos com seus mistérios, ou sobre como soava a música pulmonar de  tango argentino do poema de Manuel Bandeira. Uma vez iniciadas, as relações com  o paciente e os colaterais poderiam prolongar-se por muitos anos. Quando o doente não podia pagar-lhe com moeda, no retorno trazia-lhe ovos, frutas, um quarto de leitoa. Nos anos 40s, ainda permanecíamos rurais! Como escreveu Franz Kafka em “Um médico rural”: “A mãe está em pé ao lado da cama e me atrai com um sinal; eu atendo e, enquanto um cavalo relincha forte para o teto, coloco a cabeça no peito do jovem, que se arrepia ao toque da minha barba úmida. Confirma-se o que sei: o rapaz está são, a circulação do sangue funciona um pouco mal, ele está encharcado de café dado pela mãe ansiosa, mas são: o melhor seria tirá-lo com um tranco da cama. Não sou reformador do mundo, por isso deixo-o deitado. Sou médico contratado pelo distrito e cumpro o meu dever até o limite, até o ponto em que isso quase se torna um excesso. Mal pago, sou no entanto generoso e solícito em relação aos pobres”. Nosso corpo era por ele limpo, curado, purgado de quase todos os males, refratário, porém, ao exílio asséptico no novo consultório/escritório/palacete, para onde o doente, em nossos dias,  se desloca de automóvel, ou é conduzido pela família que o vê como máquina disfuncional descartável. Por isso é que a nova classe média urbana foge ao nosocômio público, cuja proximidade compulsória de corpos, médicos, auxiliares e criaturas  precárias aumenta-lhe o  nível de hipocondria, bem como a certeza de que vivemos num vale de lágrimas. “O Brasil é um vasto hospital.” No novo ambiente, refrigerado e virtual, do escritório/consultório, a família camufla-se, evita derramar-se em dores e preocupações  e se protege de seu próprio doente, como ao morto recomenda-se ser velado longe do living, na fria e distante necrópole. Por força da desmemória marota ou das disjunções burocráticas, Attílio Cardarelli Cypriano anda meio  deslembrado, mas, sem ele, a FAMECA (9/2/1951)  talvez não tivesse se instalado no atual prédio do Colégio Catanduva, para depois transferir-se para o Hospital Emílio Carlos. O que fazer? Mao-Tsé Tung, na China, ou os norte-americanos, na Segunda guerra, em Paris,  mandaram  apagar das placas de rua  o nome dos desafetos, enquanto  nós nem ao menos mandamos inscrever nelas os melhores nomes. No nosso imaginário, apagar nomes e sumir-se com identidades equivalem a deletar (do verbo deleo, do Latim, equivalente a destruir) criaturas de carne e osso. Agimos um pouco como as crianças do videogame. O Dr. Attílio estudou no Rio de Janeiro com Noel Rosa, em 1931, no primeiro ano da atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, antiga Escola Médica da Praia Vermelha. Boêmia e cultura médica casavam-se com naturalidade noutros tempos. Noel também foi elegante como caía bem a um boêmio congenial, cujo cancioneiro de elevadíssima qualidade polarizou o morro com o asfalto, quando ambos puderam conhecer geografias pacíficas. Não havia balas perdidas, achadas ou desencontradas, mas, quando muito, talhe de navalha passível de sutura. O compositor foi garoto de classe média, estudou no Colégio São Bento e se abespinhava com a lesão do queixo resultante do uso de fórceps.

 

Vinco da calça

sapato engraxado

camisa abotoada

cabelo penteado

 

Ou em versão atualizada:

 

Calça jeans tijolada

tênis cambaio

camiseta dos Racionais

cabelo ensebado

 

No Bar São Pedro ou na antiga versão de A Cabana, o Dr. Attílio tomava guaraná, mas, como amigo de Noel, mariscava a Língua portuguesa com limão, sal e destravado bom gosto. Caprichava nos trocadilhos. Quando a medicina social de Getúlio Vargas propagou-se por força da demanda dos cem mil excluídos, ele alfinetou o INPS dizendo: Isto Não Pode Ser!

 

Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou? Fagueiro, meu paletó virou estopa.

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