Diário da velhice

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Luiz Roberto Benatti

 

Naqueles dias hoje bem amargos à lembrança

freqüentávamos o mesmo colégio

e de cada um conhecíamos manias & sonhos

No fim da semana íamos ver o footing na praça

Depois que as garotas seriíssimas se recolhiam

tomávamos chope num bar de mesa de tampo de mármore, falávamos de Sartre,  Camus

e Victor Mature, até a saída do primeiro pão da madrugada

Depois voltávamos para a casa da infância

onde nossos pais começavam a envelhecer

Muito tempo depois fomos para a Capital

&  nossos caminhos não voltaram a recruzar-se

Vieram  a universidade, a fábrica, o escritório, o exterior, a igreja, os rebentos, o apartamento, os netos

& o retorno à província espichou-se, primeiro  até o Natal, a seguir  por dois anos, cinco anos

Agora os velhos amigos tinham vergonha de ver

que a casa era feia,  que  os pais não sabiam mastigar com elegância e que  limpavam os lábios engordurados na francha da toalha de linho bordada pela mãe:

a maldita esclerose impedia aqueles velhos  de se lembrar em que lugar da nuca haviam depositado os óculos embaçados.

 

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