Vida e peripécias de Ne & Pos, escorpiões  xifópagos

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Luiz Roberto Benatti

Ne & Pos, gêmeos xifópagos, nasceram num fim de tarde, início de noite, e colados pelas costas, como se prefigurassem o futuro destino de adestrados cavalgadores do lombo caloso da mãe.
”Mãe é mãe”, mandaram tatuar no ventre, mais tarde. Muitos anos  depois, divertiram-se ao constatar que se haviam antecipado ao slogan da Coca-cola – “Coca-cola é isso aí”. O segredo é não dizer coisa com coisa , mas como se falasse   com elevado grau de sapiência.  O médico de plantão anotou com letra quase ilegível que o primeiro (ou teria sido o segundo?) dos irmãos nascera, de fato, às 17 h e 8 min e o segundo (ou teria sido o primeiro?) deu-se à luz às 18 h. Era janeiro, chovia muito e a luz coruscante dos raios pintava zês, dáblius e ipsilones na janela alta da santa casa de misericórdia. Dizem que a estátua  de gesso de Santa Gertrudes arrebentou-se em mil caquinhos ao ser atingida por faísca elétrica. Ne mordeu ou picou ou ferroou (quem poderia ter testemunhado, como nas novelas policiais de Agatha Christie, já não está mais  neste mundo) a velhíssima enfermeira italiana Giuliana Ferri, e Pos cuspiu uma espécie de baba escura e venenosa no pescoço do ginecologista, o renomado professor Anleto Frias Caparelli, que o deixou hirto e esbugalhado por tanto tempo, que Pos, por pouco, não faleceu vítima de anóxia. Pos jurou vingança . Dona Giuliana  bateu com as dez no dia seguinte, entre 11 e 11 h e 30 min, de acordo com o boletim policial redigido pelo investigador Setembrino Último. Sobre o destino de Giuliana, jamais saberemos dizer ao certo o que é menos ruim: ter morrido como solteirona crônica ou ter vivido com um traste três quartos duma vida cinzenta? Setembrino honrou o nome de família: morreu no terceiro dia depois de ter sido atacado pelos irmãos desvairados. As terríveis criaturas locomoviam-se como pedaços de pau de madeira apodrecida e rangiam como rangem as tábuas do assoalho dos velhos castelos ingleses habitados por fantasmas autênticos.”Passamos o ano vestidos para o Carnaval”, diziam em tom de troça. Cética, a imprensa não manifestou interesse imediato pelo caso. O Dr. Caparelli morreu completamente roxo no final da primeira semana de internação dos irmãos Ne & Pos decretada pelo juiz a bem da segurança pública. A lembrança dos escorpiões fez os freqüentadores da Petisqueira sussurrar e olhar por baixo da mesa ao mencionar os nomes amaldiçoados. Ninguém quis sentar-se de costas para as floreiras com medo das ferroadas assassinas. Ao crescer, os xifópagos cultivaram o hábito de andar daqui para lá empoleirados nas costas da mãe, balzaquiana muito feia e de espinhela caída. Eles liquidaram a mãe, sem dó nem piedade numa Sexta-feira santa: mãe é mãe. A vizinhança jurava em nome da cruz que ela tinha rabo comprido com ferrão terminal na forma de lança cravejada de rubis. Ao fim de 6 meses, fez-se a cerimônia de batismo no templo do pastor DPL (para os íntimos) ou Dilermando Petrolina Lamborghini para os 1237 fiéis da igreja. Petrolina fracassou ao tentar, na escola dominical, iniciar os demoniozinhos na leitura regular da Bíblia. Rejeitavam quase tudo, menos episódios como o fratricídio de Abel por Caim, a fenestração de Susana no banho pelo velhote, Judite e Holofernes e, claro, o livro do Apocalipse. A cada nova praga, tão logo soavam as trombetas, os irmãos agitavam-se como doidos varridos. Foram à escola, onde envenenaram professores e diretor. Pelos 18 anos, depois do serviço militar, ingressaram, por concurso público, no quadro administrativo do município. Tornaram-se funcionários de carreira. Diziam: onde estiver Ne aí estará Pos. Se perguntavam por ambos na secretaria x ou y, tinham ido ao banco ou ao podólogo para ajustar a prótese do ferrão. Acumularam tantas licenças-prêmio, que logo se aposentaram. Ganharam bolo de morango e guaraná na festa de despedida. Com o desligamento de ambos, mais encorajada, a câmara dos vereadores montou  CEI para devassar a vida pública dos xifópagos. É indescritível o que não realizaram e o  pouco que, de fato, fizeram. Quanto a Petrolina, está velho e gagá, mas, entre um pigarro e outro, afirma que a luta contra o nepotismo foi sua batalha das cruzadas contra os infiéis muçulmanos. Reconheçamos: Petrolina foi o nosso indefectível Brancaleone.olofernes Ele já tem pronta a inscrição para a lápide do túmulo: “Aqui jaz DPL, que nunca foi nudista, cartógrafo ou nepotista”.olo

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