A gramática dos gestos e a questão da mentira no espaço público

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Luiz Roberto Benatti

 

Num certo sentido, o mundo das figurações ou representações é feito de mentiras: mente o ator ao emprestar à personagem corpo e alma, mas também o cândido espectador que se emociona diante da fraude como se fora verdade suprema. Mentimos ao dizer que tudo vai muito bem, quando, de fato,  estamos preocupados, ou quando dizemos amar a pessoa a quem devotamos desprezo. Todavia, se esse mundo representacional é puro embuste, o político, travestido ou não de administrador,  não poderia mentir ao combinar com seus pares ação farsesca que só irá cumprir-se em detrimento da comunidade. Vê-se, portanto, que a Política deve revestir-se de Ética. A um de meus professores da Mackenzie disse certa manhã que o mundinho brasileiro havia mudado, ao que ele me perguntou em que  a coisa já não era mais a mesma. Respondi-lhe que, nos dias que correm, o bandido quer ser visto como mocinho, quando, no tempo da zagaia, se você chamasse de mocinho o bandido, ele lhe daria um tiro na cara. O bandido janta ao nosso lado no restaurante, toma champanhe francês e sorri com cara lambida para a bela filhota adolescente. No caso do prefeito, ele não pode esquecer-se de que recebeu dos cidadãos mandato para defender na tribuna os direitos da maioria, nos quais se incluem o de seu pai, mulher e filhos. O tempo e o espaço do vereador e o prefeito pertencem ao conjunto dos cidadãos. Essas criaturas  deverão  estar atentas às novas informações tecnológicas que dobram de volume a cada 2 anos, mas também à grandeza ética do papel que lhes foi atribuído. Para isso, eles se obrigam a dominar a parte formal da linguagem e também a gramática das emoções ou das microexpressões faciais, fabuloso domínio que lhes dará a certeza de que o colega mente ou fala a verdade. A criatura humana tem cérebro e um corpo em que se colam apêndices sintáticos incapazes de mentir quando o dono deles mente: olhos, nariz, orelha, boca, dedo. Se o leitor der-se ao trabalho de, através do Google, digitar no ngrams.com a palavra lie/mentira, verá que ela esteve na crista da onda no século XIX, por volta de 1810-20, triunfo da burguesia, européia ou nacional, incumbida, graças ao  acúmulo do Capital, de mandar e obrigar ao trabalho estafante, sem paga. Mentiram escravos e patrões. No seriado norte-americano, The Lightman Group vai à caça da pseudolalia ou da mentira patológica sem descanso, atento às expressões físicas de nojo, ódio, medo, tristeza, contentamento, desdém. Aprenda com Lightman a observar o movimento do supercílio, pálpebra, lábio ou zigoma, se o queixo se eleva, se o lábio torce-se à esquerda ou à direita, se a língua é posta para fora, quando o pescoço se dobra etc. Todos mentem. Iago mentiu a Otelo sobre Desdêmona, Cássio mentiu no leito, Desdêmona mentiu para Otelo sobre o lenço e Cássio e Otelo mentiram, em Veneza, ao dizer que eram estrangeiros. O leitor também tem o direito de mentir, mas não o de ser ingênuo ou desinformado. O leitor/eleitor tem de olhar para o olho do administrador,ainda que só o veja estampado numa fotografia, e devassar esse rosto, desvelá-lo retirando-lhe o véu que o recobre. Temos,enfim, de invadir cabeça e coração de nossos homens públicos para lembrá-los de que o erário público não tem,como o porquinho doméstico, buraquinho nas costas, por uma razão bem simples: o porquinho é nosso e o erário público pertence à comunidade.Existe a Igreja dos santos dos últimos dias, mas não, autorizada por Lei, a folia dos reis dos últimos dias.

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