Camões, soneto XI

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Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

[No quase-exílio de Goa, Camões foi escrivão de mortos e ausentes, espécie de coveiro hamletiano. Seu soneto, lido e treslido por professores, é decorado por alunos por representar a quintessência do amor romântico. Diante das paixões contemporâneas conducentes ao homicídio e à desestruturação mental, poderíamos repensar as palavras-chave do bardo português: combustão, chagas, depressão, dor, antipatia, solidão, insatisfação, derrota, prisão voluntária, submissão e lealdade ao homicida, para concluir se Camões por trás das brumas do tempo não nos pisca com o único olho bom.

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