O velho professor

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 Wislawa Szymborska

 

Perguntei-lhe pelos velhos tempos
quando ainda éramos tão novos,
ingénuos, impetuosos, tolos, verdes.

Algo ainda resta disso, salvo a juventude
– respondeu.

Perguntei-lhe se ainda sabia ao certo
o que era bom e mau para a humanidade.

O mais mortífero de tudo, as ilusões
– respondeu.

Perguntei-lhe pelo futuro
se continuava a vê-lo claramente.

Li demasiados livros de história
– respondeu.

Perguntei-lhe por uma fotografia,
emoldurada, em cima da secretária.

Existiram, partiram. Irmão, primo, cunhada,
a minha mulher com a filhinha ao colo,
e o gato nas mãos da filhinha,
e a cerejeira em flor e, sobre a cerejeira,
um pássaro não identificado a voar
– respondeu.

Perguntei-lhe se às vezes era feliz.

Trabalho
– respondeu.

Perguntei-lhe pelos amigos, se ainda os tinha.

Alguns dos meus ex-assistentes,
que também já têm ex-assistentes,
a senhora Ludmila que governa a casa,
uma pessoa muito chegada, mas no estrangeiro,
as duas senhoras da biblioteca, sorridentes,
o pequeno Grześ do prédio da frente e o Marco Aurélio
– respondeu.

Perguntei-lhe pela saúde e disposição.

Estou proibido de beber café e vodca, de fumar,
de carregar com recordações pesadas e objetos.
Tenho de fingir que sou surdo
– respondeu.

 

 

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