O secretário

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Luiz Roberto Benatti

I.A construção

O verdadeiro chefe estará sempre atrás dum biombo, invisível aos ricos, pobres e remediados. Invisível, mas não imprevisível. Por ser absolutamente indispensável, vez ou outra dou-lhe corda e ele desfila por aí, nu ou vestido, tanto faz, porque o menino da fábula era idiota. Os pobres apodrecem, os ricos são transformados em múmias e encerrados em sarcófagos de ouro e topázio. Os ricos são perfumados, os pobres fedem. Os ricos querem do administrador asfalto na estrada que liga a fortuna particular ao banco. O pobre quer agarrar pelo rabo o fim do mês e o fim do mês é o fim da linha. A voz do chefe é muito mais importante que seu corpo esplendoroso ou deformado. Desde que ele permaneça longe dos olhos do povo, o administrador poderá ser torto e feio. Eu sou torto e feio. Fui rejeitado por minha primeira professora, cuspiram em minha cara um cuspe verde e melado. A voz do chefe tem de ser estudada, modulada. Mussolini e Carlos Lacerda foram oradores poderosos e Hitler sabia como acender o coração da juventude alemã. A luta de Hitler é a luta de todos, agora e sempre. Hitler foi pobre e, como bom miserável, cobriu-se de piolhos. No entanto, ele chegou lá. Não é assim que se faz? Minoria e maioria são para ser atiradas no lixo. Temos de proteger o chefe como se ele fosse o condenado por trás da máscara de ferro. O meu chefe, há três anos, usa  máscara de ferro feita especialmente para ele por um serralheiro iraniano, em  quem, depois da gloriosa tarefa, mandei  aplicar o  chá da meia- noite.Ele  adaptou-se  à máscara: uma gaiola ajustada à face e ao tronco. Sujeitamo-nos a tudo para continuar vivos e bem alimentados. Por um buraco na gaiola, na altura da boca, um garçom cego, surdo e mudo introduz pão e leite, presunto e bife acebolado. O chefe tem de ser cuidado, ensaboado, lavado, enxugado. Ele tem o vício maldito de só pensar nos outros, sacrificar-se por todos. Se ele pudesse, abrigaria a nação no corpo imenso: 35 milhões nos pés, 22 milhões e 700 mil no fígado, 15 no pâncreas, os condenados nos testículos. Numa cabine indevassável, ele passará os anos de seu reinado. Sua identidade jamais poderá ser revelada ou, como dizem os místicos, desvelada. Quando mais desconhecido, tanto mais ele poderá figurar nas circunvoluções do cérebro nacional como criatura fora de série. Napoleão Bonaparte no topo do mundo. Se Hegel e Chateaubriand exaltaram o grande general até o delírio, por que não poderemos venerar o nosso chefe? Não é um general, é verdade, mas foi além de cabo ou sargento. Data vênia, tanto faz quanto fez, aqui, na Ilha de If ou em Nova York. A província é a periferia do mundo, mas o centro está em toda parte. Alimente pombas pestilentas na praça que logo aparecerão a babá com   seu inefável  bebê. Ela entretém a criança engordando as pombas. Na província, se não houver babá disponível, sempre iremos encontrar um velho gagá columbófilo. É tudo a mesma coisa. Precisamos reatualizar Nicolau Maquiavel: o novo príncipe é refratário à educação mais bem acabada. Ele veio de não sei onde e quando. Todas as identidades foram falsificadas. Depois das últimas chuvas, tudo se perdeu: casados ficaram solteiros, adolescentes ignoram suas origens. Chove muito nesta terra e as águas pestilentas já invadiram este prédio algumas vezes. Perdemos papéis, móveis e dinheiro. O dinheiro é o de menos, porque o povo malha de sol a sol e traz grana  para cá com a seriedade de quem cumpre mandamento religioso. Jânio teve infância? Quem sabia não ficou vivo para contar. Além disso, tudo o que enfiaram na cachola do nosso homem de máscara de ferro, desde a mais remota infância, certamente não valerá mais nada em nossos dias: a piedade, o desvelo com os pobres, o culto da amizade, voltar a face íntegra à mão pesada que estapeou o outro lado. Entre uma tentativa e outra  de ajustar-se à vida palaciana e ali permanecer como conselheiro do rei, Nicolau voltava à província à cata da velha sabedoria: o povo é o grande depositário da Verdade. Nas tardes mornas de San Casciano, ele se sentava com os homens rudes do lugar, estudava-lhes as feições, registrava-lhes as falas, observava-lhes os gestos espontâneos. Mais tarde, de volta à corte, ele trabalhava no monarca aprendiz essa rara sintaxe corporal que daria ao ator naturalidade tão espontânea, que o povo logo iria sentir no rei o jeito dum parente ou irmão. Ele é, de fato, um dos nossos! Ao contrário de Maquiavel, que não tinha cavalli, arme, drappi d’oro, presentearei o meu administrador com isso tudo – cavalos e elefantes, armas e computador, ternos de ouro e relógio de diamantes – e muito mais, quer dizer, o povo vai levar ricos presentes ao nosso monarca. Nada de piccolo volume, que eu não sou de escrever, como foi minha mãe,  mas de falar e falar aqui com os meus botões e maquinar e vigiar a máscara, dia após dia, para ela não enferrujar-se . Sou homem da intimidade do príncipe. Não vivo dentro duma máscara nem dou a cara a bater. A rigor, não me importo com o conteúdo da máscara. Kierkegaard disse que a falta de opção é uma opção. Bobagem. Ao chefe não cabe   fazer opção alguma. A massa cretina é que tem de optar: ou vai ou racha. O rei não escolhe caminhos, ele não vai a lugar algum. O rei não escolhe nada. É um cego diante duma página branca saturada de pontinhos em alto relevo. Ele toca A e lê A. A é A e está pronto e acabado. Quem sabe das coisas sou eu. Também não invoco céus e terra, mundos misteriosos. Abro o canivete bem amolado, corto um naco de cérebro e digo: É isto aí! O que fazer com um chefe com mania de recompensa? Você dirá que o pobre vive na pindura de segunda a domingo e que uns trocados a mais farão a alegria da mulher e os filhos. Eu lhe respondo: a recompensa não compensa, porque o miserável vai torrar em besteira. Mando cortar o ponto sem dó nem piedade. Exército de reserva, ensinou o barbudo da Jenny. Não estou nem aí. Não caio nessa. Se não ficar de olhos e ouvidos abertos, a administração vai à breca. Por que existe a administração?Para impor a sua vontade. O corpo social é um funil de base invertida: em cima, estão os que mereceram receber a atenção e a proteção dos deuses; embaixo  o rebotalho, a ralé coberta de fungos. Ela não ascenderá jamais. Seria o caos, com grande desconforto para os de cima, livres da dor e do sabor azedo da vida. Quem agüenta corpo suado de três dias, reclamação de estômago vazio? Ao contrário do que diz o teórico, há uma razão especial pela qual as borboletas-monarcas migram para as montanhas nos arredores da Cidade do México. Elas querem ser espetadas com alfinete no álbum do colecionador. Eu também gostaria de colecionar funcionários exemplares da administração. Só em meus álbuns eles alcançariam a eternidade. Poderia exibi-los em congressos municipais, estaduais e, quiçá, internacionais. Eu diria à platéia embevecida: este era o Zé Luís, o melhor de todos vós. Não perdeu dia de trabalho, trabalhou febril, venerou o chefe da manhã ao fim do dia. Comeu o pão que o diabo amassou sem nunca ter-se queixado. Esta era a Ana: adorava dançar na chuva, chapinhar em poça d’água na plataforma da estação, enquanto cantarolava It’s singing in the rain.Todavia, não me canso de repetir: no mais das vezes, o verdadeiro chefe, o administrador iluminado, deverá permanecer invisível a tudo, a todos e até a si mesmo.  O espelho nos ilude. A mim, provoca asco. Eu também permaneço invisível a mim mesmo. Estou completamente cego. (Retira o lençol vermelho que o cobre. Está sentado num trono de louça. Acima de sua cabeça, vêem-se caixa d’água e descarga de corrente. Ele está nu. Cego e nu como o pensador de Rodin. Um clarão muito forte ilumina o lugar. Há uma mesa. Um protótipo do Demoiselle ocupa grande parte da sala. Vêem-se fotografias ampliadas do XIV-bis e Santos Dumont, ou de peças cobertas de ferrugem.

  • O administrador senta-se a um canto, recoberto pela máscara. Assusta-se com novo clarão seguido de forte estrondo. Diz um engrolado de coisas ininteligíveis. Executa movimentos lentos com a cabeça. ) O verdadeiro chefe confunde-se com a máscara. Um será a outra, a outra é um. O nosso resultou duma combinação de níquel com cromo. Leonardo Di Caprio ou Douglas Fairbanks. Por isso, ficou resistente aos ácidos corrosivos da velha burocracia ou ao ataque dos agentes da atmosfera – o povo miserável e cada vez mais alastrado pelo País e o mundo. Foi estafante confeccionar a máscara. Transportei de MG para cá 200 quilos de rocha para produzir a máscara de 10 quilos. Hematita de superior qualidade com 70% de ferro. Na intimidade, chamo o magnânimo de Fe2O3. Embora tivesse ficado o tempo todo numa galeria (Jamais leve  o chefe para dirigir-se ao povo a céu aberto, porque o  que vale para Cuba não valerá para nós. Lembre do que ocorreu no
  • Paraná com o general Figueiredo.), como todo ferro, a máscara oxida-se pelo oxigênio do ar, na presença da água amaldiçoada das chuvas. A doença insidiosa da máscara é a ferrugem. Ela destruirá o mundo livre. Será o fim da cultura, o triunfo da barbárie, com o povo no poder. O povo tem propriedades magnéticas, é gosmento, gruda-se em qualquer superfície, e o ferro da máscara deixa-se atrair por ele. Desgraça. Por quatro anos, com o ferreiro ou serralheiro iraniano, fiquei ao lado do alto-forno. O calor infernal secou meus olhos, devastou minha íris, desidratou minhas lágrimas. Por isso, apesar de estar cego, eu sou mais eu!
  • (Bate no peito nu três vezes, ereto. A luz escurece lentamente.
  • A demolição
  • Käfer. Meu tio-bisavô da parte de meu pai chamava-se Thomas Käfer. Coriscos e trovões, além das famosas chuvas bíblicas, o amendrontavam. Nunca comi do pão que Käfer aprendeu a amassar com o diabo, mas afirmo que as chuvas que se aproximam são como as de meu parente alemão. Acabaram de gritar lá fora que o dia virou noite. Querem saber a história de meu tio-bisavô? Foi criado de Alberto Santos Dumont, em Deauville, na França, local de refúgio praiano de miliardários. Alberto foi um tampinha congenial de 1,52 m, meu tio-bisavô era baixinho e eu cheguei a metro e pouco, mas bem abaixo dos varapaus sarados que se perdem fácil por ínvios caminhos. O mundo está perdido. Tamanho não é documento e os documentos podem ser falsificados. Nunca precisei alcançar o armário de cima, ali atrás. Tudo ficou sempre ao alcance da mão e do rigor de lei. O que é do homem o diabo só não come se não tiver apetite. Apesar de não alimentar o gosto por inventos, Käfer protegeu com unhas e dentes tudo o que pertencia a  Alberto ou qualquer coisa que fosse do interesse do inventor. Quem me deu esta fotografia (aproxima-se do lugar da foto e a toca com a certeza de que ela está ali) foi meu avô, genro de Käfer. Alberto foi acusado pelo governo  francês de espionar para a Alemanha e Käfer ficou tão magoado, que jamais se recompôs do susto. Nada como um bom alemão para temer outro alemão. Ele entendeu que a preciosa amizade havia alimentado o imaginário ou o mal-entendido das autoridades desatinadas e completamente perversas. Mata Hari terminou seus dias de nudez diante dum pelotão de fuzilamento
  • francês. (Raios e trovões, barulho de chuva. O grande chefe mascarado está aflito. ) Não adianta espernear, frágil criatura! Uma voz misteriosa me diz que choverá muito e que alguma desgraça vai ocorrer. As desgraças sempre ocorrem. Chuva e lama e nenhuma pomba pestilenta que retorne com graveto no bico para anunciar que as águas baixaram. Vento e fogo. Käfer, Kaffee. O destino inscreveu-se em nosso nome. Alberto viveu em Paris e fez o que fez graças à fortuna acumulada pelo pai com o café. País pobre, de gente pobre e patrões poderosamente ricos. Käfer tinha pesadelos medonhos, nos quais figurava-se como mendigo em Berlim e Paris. Bettler ou clochard, tanto fez quanto faz, qual a diferença? A indigência nos tira do sério em qualquer lugar do mundo. Herr Doktor, dizia meu tio a ASD. Sehr geehrt her: prezado senhor, meu patrão, senhor dos ares. Apagaram-se as luzes do corredor. Percebo a luz como o fósforo dum palito prestes a esvair-se. Os pafuncionários correm dum lado para outro. Os telefones se desligaram. Ave, technica, morituri te salutant. Minha mãe, Elza Román, abriu meus olhos para as imagens contraditórias da vida, mas fracassou no amaciamento de meu coração empedernido. Morreu há pouco, sexagenária, roída até o último osso por doença insidiosa. Foi psicanalista competente e escrevia num estilo claro e, ao mesmo tempo, vigoroso. Numa caixa de madeira, guardei-lhe um documento precioso que li, reli e tresli até ficar cego. Conheço-o de cor e salteado. (Abre a gaveta e retira da caixa o documento.) Vou ficar com ele à mão como se ainda pudesse lê-lo com os olhos e a  ênfase de outros dias. Minha mãe adotou o nome espanhol da   mãe de seu avô e as lembranças recriadas no documento foram-lhe contadas por parentes espanhóis. O resto é pura fantasia de escritora. Diz:

Diálogos impossíveis
No dia 2 de janeiro de 1902, a convite do príncipe Alberto I, Santos Dumont deslocou-se para Mônaco, onde o regente mandara construir um hangar de testes exclusivos para o protótipo número 6, antecessor do XIV-bis. Por sua excepcionalidade, o inventor freqüentava a fina flor da classe dominante do mundo todo. Oito meses mais tarde, nasceu em Bogajo, na Espanha, de família empobrecida, Manoel Román Arroyo. Circunstâncias de classe social diversificadas, além de outras  mil coisas imponderáveis e os ressentimentos  de vida dos humilhados,  não propiciaram a  Román e Alberto  ocasião de  se conhecer na Europa: o mineiro de Cabangu tinha 27 anos mais do que o futuro enfermeiro psiquiátrico. Em 1932, mergulhado em profunda crise depressiva, Alberto enforcou-se no Guarujá com duas gravatas. Dias depois, em 21 de dezembro de 1933, Román, que adorava  gravatas, ingressou no corpo clínico do Sanatório Pinel, onde permaneceu até 1944, quando se transferiu para o Instituto Prof. Pacheco e Silva, em SP. Casado, veio para Catanduva. Foi residir no Higienópolis, o burgo dos espanhóis.  Ao sair da Espanha, aos 18 anos, com a  irmã caçula, Arroyo  migrou para  Cuba a fim de  participar da guerra hispano-americana, ao lado das tropas norte-americanas.Um  homem de luta. Não houve tempo nem ocasião para que Alberto fosse internado pelos Villares em Pirituba e, ali, distenso,  pudesse passar as tardes preguiçosas  de domingo jogando damas ou xadrez com Manoel Román Arroyo ou Luiz Carlos Prestes, em visita ao irmão internado. Prestes pareceu arrogante a Román, mas quem sabe o primeiro pudesse  ter construído um arco teórico  capaz de  ligar a infância européia do enfermeiro com a adolescência  brasileira do inventor, já que gosto por reflexão jamais faltou aos três. Como teriam sido, enfim, os diálogos de Santos Dumont com Prestes e Arroyo? Na verdade, Santos Dumont, Prestes e Román dificilmente poderiam ter mantido diálogos calmos e confluentes. Ao contrário, teriam sido cálidos e refluentes. Dumont era um dândi cheio de idéias e sonhos mecânicos, posto entre Oscar Wilde, Ford e Duchamp; Prestes cortejou como pôde Stálin e aprendeu a prolongar a vida como um monge trapista, numa cela de mínimos recursos materiais; Román adaptou-se à vida regrada e minimalista dum hospital de alienados. Qual deles terá sido mais recluso? No período em que viveram, firmaram-se o conceito e a prática das instituições totais, nomenclatura que Erving Goffman aplicou a manicômios, prisões e conventos. Goffman anotou: “Uma disposição básica da sociedade moderna é que o indivíduo tende a dormir, brincar e trabalhar em diferentes lugares (Cabangu ou Paris, Moscou ou Rio de Janeiro, Havana ou Catanduva), com diferentes co-participantes, sob diferentes autoridades e sem um plano racional geral. O aspecto central das instituições totais pode ser descrito com a ruptura das barreiras que comumente separam essas três esferas da vida. Em primeiro lugar, todos os aspectos da vida são realizados no mesmo local e sob uma única autoridade. Em segundo lugar, cada fase da atividade diária do participante é realizada na companhia imediata de um grupo relativamente grande de outras pessoas, todas elas tratadas da mesma forma e obrigadas a fazer as mesmas coisas em conjunto. Em terceiro lugar, todas as atividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horários, pois uma atividade leva, em tempo predeterminado, à seguinte, e toda a seqüência de atividades é imposta de cima, por um sistema de regras formais explícitas e um grupo de funcionários. Finalmente, as várias atividades obrigatórias são reunidas num plano racional único, supostamente planejado para atender aos objetivos oficiais da instituição”. Em 27 de abril de 1968, alguns dias depois do assassínio de Martin Luther King, nos EUA, e às vésperas da invasão da Checoslováquia por tropas do pacto de Varsóvia, fundou-se em CTV o Hospital Psiquiátrico Espírita Mahatma Gandhi. 1968 foi um dos anos mais vigorosos no enfrentamento da ditadura militar de 64: 100.000 manifestantes saíram às ruas do RJ em protesto contra a morte de estudante pela polícia e 20.000 operários cruzaram os braços em Osasco e Contagem.Em 1º. de outubro, denunciou-se na Câmara Federal o caso PARA-SAR: soldados da Aeronáutica seqüestrariam e lançariam no mar, a 40 quilômetros da costa, líderes estudantis, políticos de oposição e “cassados irrecuperáveis”. Checoslováquia, Mahatma Gandhi e aviões da Aeronáutica: temas substanciosos   para os diálogos de Dumont, Prestes e Román. Para Alberto, o avião era projeção sublimada da mãe – Demoiselle. Para Prestes, a Revolução constituiu-se em desejo e ameaça travestidos em Olga Benário. Román deixou mãe e Língua em Bogajo e cruzou o mar oceânico para resgatá-las em Cuba, na guerra hispano-americana. Se os diálogos entre essas três criaturas congeniais jamais puderam  ocorrer, teriam sido possíveis com a presença de Ludwig Wittgenstein? Wittgenstein foi miliardário   e  praticou experimentos no campo da aviação, cultivou a idéia de suicídio,  entregou-se ao homoerotismo e dele fugiu inúmeras vezes,como Dumont;  questionou não só as crenças como tentou reduzir a nada até mesmo o verbo crer, sem o qual Prestes não teria se encantado com o stalinismo, e a Román (Wittgenstein trabalhou como porteiro do Guy’s Hospital até 1943), como no fecho das Investigações filosóficas, teria dito que a psicologia inclina-se para a confusão conceitual.

(O secretário continua a monologar)
“A clareza das essências comprova a existência.” O que teria Descartes pretendido dizer com isso? A chuva é essência? Ou se trata da luz? E a ferrugem? Não fosse a técnica, não haveria construção, o império, a Lei, não haveria existência. Não fosse a técnica, eu e vocês não estaríamos aqui.Não fosse o gosto refinado de minha mãe pela redação, eu não saberia merda alguma. No Discurso do método, Descartes falou da cólera como a aversão  manifestada por cada de nós contra os que praticaram algum mal. A chuva é o mal e o responsável por ele é a arraia miúda que só sabe desovar filho no mundo: abre a torneirinha oxidável e despeja o jato gosmento na concha duma garota iludida. Alberto e meu tio não puseram filhos no mundo. Viveram um para o outro. Mulher de pobre passa dez anos prenhe como pipa de carvalho. Filhos a dar com pau. Outra de Descartes é a ingratidão. Quem é grato a quem?Não vem não, violão! Você dá um dedo, o desgraçado quer a mão. Estenda-lhe a mão e você ficará sem braço. Você quer que o bem aconteça à criatura próxima de você? Falso. O que você mais deseja é que o outro se escangalhe. Desde Jean-Paul Sartre é assim. Ele é o inferno, você o paraíso. Porrete foi feito para arrebentar cabeças. O velho Al Capone tinha a sabedoria dos meridionais: de segunda a domingo, todos os dias deveriam destinar-se à comemoração de São Valentim, o santo dos crânios arrebentados. O júbilo ressurge no momento em que você se obriga a ajudar o idiota a conduzir a pedra que lhe caberia transportar. Ele que se arrume. Quanto mais pesada melhor. Pelo menos uma vez por ano peço a um porcalhão que releie para mim As paixões da alma.Admito que Descartes sacrificou-se por uma rainha estúpida que tudo fez para matá-lo de frio naquele ermo de mundo enregelado. (Raios e trovões, ruídos ensurdecedores. Abre-se um buraco no teto e a chuva despeja-se pelo buraco aos baldes. O administrador está histérico e completamente ensopado.) A carta de minha mãe ficou encharcada. A lei dos homens move o mundo? O que move o mundo é a lei natural .(O secretário diz isso aos berros.) “Edificarás um altar para o Senhor teu Deus, um altar de pedras não trabalhadas com o ferro”, Deuteronômio, 27,5. Trabalhei o ferro. Contraí culpa em cartório. Comi cavalo, lebre e coelho. Bíblia à mão, ele diz de cor: “Durante 40 dias o dilúvio se abateu sobre a terra. As águas cresceram e ergueram a arca, que se elevou acima da terra. As águas se tornaram violentas e aumentaram muito sobre a terra de modo que a a arca começou a flutuar na superfície das águas. As águas cresceram tanto sobre a terra, que cobriram as montanhas mais altas que estão debaixo do céu. As águas subiram sete metros e meio acima das montanhas. Pereceram todas as criaturas que se moviam na terra, tanto aves, como animais domésticos, como animais selvagens, enfim todos os seres que fervilham sobre a terra, e todos os homens. Tudo que respirava pelo nariz e vivia em terra firme, morreu. Assim o Senhor exterminou todos os seres que havia na face da terra. Tanto homens, como animais, répteis e aves do céu foram exterminados da terra. Restaram apenas Noé e os que estavam com ele na arca. As águas dominaram sobre a terra durante 150 dias.” (O secretário fecha a Bíblia, grita, anda dum lado para outro, tromba com a mesa, derruba o protótipo do Demoiselle, escorrega, cai molhado dos pés à cabeça.) Se Käfer estivesse aqui, chamaria o rio de Lüge, mentira em Alemão. Os índios sabiam disso, por isso o chamaram de Japurá. O rio mentiu hoje e mentirá sempre. (Tomba a cabeça como se estivesse morto. Completamente ensopado, o chefe tenta arrancar a máscara:”Ferrugem, ferrugem!”, ele vocifera. “Onde está o povo? Disseram-me que existe e que nos socorre nos piores momentos.” (Gritos, ruídos de passos, sirene. O palco escurece aos poucos.)

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