Para fixar as cores  da paisagem paulistana, Roberto Piva dissolve o mordaz no mordente

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Luiz Roberto Benatti

 

Piazza I

Uma tarde
é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
uma tarde de inverno
sobre um grave pátio
onde garòfani    milk-shake & Claude
obcecado com anjos
ou vastos motores que giram com
uma graça seráfica
tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado     provado    sonhado
& longos viveiros municipais
sem procurar compreender
imaginar
a medula sem olhos
ou pássaros virgens
aconteceu que eu revi
a simples torre mortal do Sonho
não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
Swift Jarry com barulho
de sinos nas minhas noites de bárbaro
os carros de fogo
os trapézios de mercúrio
suas mãos escrevendo & pescando
ninfas escatológicas
pequenos canhões do sangue & os grandes olhos abertos
para algum milagre da Sorte

 

Um poema curto como Piazza I faz da paisagem paulistana uma geografia estranhamente desconhecida. Depois de a fotografar e revelá-la em câmara escura, Piva comprova que o que pensávamos ter nela  re/conhecido era tão-somente um convite para palmilhar, sem se distrair, a cidade que Mário de Andrade nos deixou com o melhor que se fez mais tarde. Ele não é um amante traído dessa geografia nem um desvairado que pense traí-la mas antes um refinado leitor de enciclopédias que conosco senta-se à mesa do Paribar para nos dizer que ao lado de sua cidade há inúmera outras, invisíveis. Um dos truques do poeta consiste em dar à metáfora uma torção hiper-realista de modo que ela irá montar-se no espaço das coisas de cultura da paisagem urbana, ou então com o que ele tirou dAs tentações de Santo Antão do MASP, como Bosch as configurou. Claro, diria RP, se eu sou um pecador, devo extrair de meu dramatículo o colorido de meus gritos inaudíveis, mas como quem dissesse: leia sobre os contornos de meus descaminhos mas não perca de vista que eu vivo numa cidade que de mim fez o que sou. Olhe e veja. O garófano com o colorido de milk-shake Piva o viu no Viveiro Manequinho Lopes, cujo apodo nursery remete à mãe como a bela flor e também às peônias que ali se vêem. A cidade se oferece como lugar de metamorfose para quem queira ambular. Não mencionada, mais à frente está a Diana de Lélio Collucini aninhada no dorso do cervo, antes o caçador Acteão que depois de ver a deusa nua no banho perdeu sua carga de assanhamento para se transformar num animal pacífico. O fogo camoniano espalha-se pelos rincões do mundo.Os trapézios de mercúrio remetem talvez a Mallarmé, sob cuja luminosidade o poeta refletia, talvez, sobre a  medula sem ossos e no síndrome de Guillain-Barré e na dificuldade de movimentar os olhos. O poeta tem gosto pela terminologia médico-hospitalar como é o caso de canhão de sangue usado nas coletas.Piva foi um poeta de cultura gigantesca cujos livros não o deixaram doido nem o fizeram investir contra moinhos reais de braços irreais.

 

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