Clube, fascismo & outro O clube dos italianos

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Luiz Roberto Benatti

Apesar de a Sociedade Italiana, da Rua Alagoas, chamar-se Gabriele D’Annunzio e D’Annunzio ter sido um histrião de truques e gestos estapafúrdios e discursos pré-fascistas (confira-se o episódio de Fiume) recheados de delírio, nem todos os italianos e seus descendentes, freqüentadores do clube por 80 anos, foram politicamente conservadores ou admiradores do segundo Mussolini, porque o primeiro foi socialista. O clube tem a idade do Município e os homens que o fundaram tinham algo em torno dos 40, na época -, portanto já se achavam preparados para escolher tanto os piores quanto os melhores caminhos de política e vida pessoal. O que pensavam Muscari, Vanalli, Gerosa, Florenzano, Ruta, Zaccaro, Spanazzi ou Senise? Liam O Avanti! Paulistano? Conheciam as proposições fundamentais da Internacional Socialista, ou Marx e Lênine?[Antonio Gramsci, o fundador do PCI, saudou nO Avanti! de Benito Mussolini a revolução russa de 1917.] Em que Língua? Tinham-se deixado seduzir por rompantes patrióticos acerca da guerra? Defendiam o ponto de vista de que a República deveria ser resguardada malgrado as proposições deletérias do bolchevismo? O Avanti!?Eram abonados para assiná-lo, ou muitos deles apertavam o orçamento de família para poder quitar a mensalidade do clube de socorro mútuo? Socorro mútuo, porque, como lembrou Lênine, decretada a greve, os operários teriam de comer e beber até que os braços, de novo, se descruzassem e os obreiros retornassem à fábrica. De 1902 a 1904 e, mais tarde, de 1914 a 1920, o jornal foi o órgão oficial do Partido Socialista Brasileiro, imprimia e distribuía 8000 exemplares, mas quem o assinava em CTV? O clube estreou em 22 de fevereiro de 1920, no mesmo ano em que Luiz Carlos Prestes graduou-se como tenente-engenheiro da Escola Militar do Realengo, no RJ, com Siqueira Campos e Eduardo Gomes. De certa forma, iríamos resgatar, com roupagens próprias, acertos e desacertos, o episódio Dreyfuss. O assalto ao Forte de Copacabana estava bem ali e, logo à frente, a Revolução de 30. O Brasil, como queria Euclides da Cunha, tinha de modernizar-se, pôr fim à miséria herdada da velha República, mas a consecução disso foi muito morosa e, talvez, nem se tenha completado. Para a Itália e os italianos, 1920 foi ano de grandes definições, agitações e greves operárias, ou, como escreveu Robert Paris, “o ano da guinada: revolução ou reação”. No jornal Il popolo d’Italia, de junho de 1919, Mussolini entregou a Fernando Collor de Melo a chave do seqüestro do capital circulante: “Queremos um grande imposto extraordinário de caráter progressivo sobre o capital, que represente uma autêntica expropriação parcial de todas as riquezas”. Collor foi moderno apenas na indumentária. 1919-1920 foi também o ano de lançamento ,na Alemanha, do panfleto Os protocolos dos sábios de Sião, originalmente escrito contra Napoleão III. Em poucos dias, venderam-se 300.000 exemplares. Repetida muitas vezes, a mentira transforma-se em verdade. Apesar de o País ter produzido, em 1915, 17 milhões de sacos de café ou 1 milhão de quilos, só em abril daquele ano o prefeito Francisco de Araújo Pinto mandou construir as duas primeiras pontes de madeira da cidade: na Rua Maranhão, sobre o Rio São Domingos, e na 15 de Novembro, sobre o Rio Cerradinho. Nossa aparência quase-rural na época comprova-se pela publicação do Dialeto caipira, de Amadeu Amaral, em SP, mas que se aplicava perfeitamente bem a nós na província. [continua]

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O clube dos italianos (2ª Parte)

Luiz Roberto Benatti

Seja como for, fato observável é que, aos poucos, o emigrante assimila hábitos de língua ou visões de mundo do território de refúgio (por que não?), situação que lhe altera tanto a quantidade quanto a qualidade da memória anterior. Enfim, quem estava aqui não mais vivia na Europa. Estar aqui ou achar-se alhures? O aqui do imigrante (italiano, espanhol, árabe, alemão, japonês) é sempre um alhures, outra cena, mundo estranho. Expatriar-se é sinônimo de foragir-se, cujo particípio passado é foragido ou homiziado. De quem foge o imigrante? O foragido cava um buraco em si mesmo. Quanto mais terra ele retira do poço, tanto mais distantes estarão a água e o ouro de sua busca. Que poderia Mussolini fazer por eles, se a língua original se perdera no vasto mar oceânico entre Gênova e Santos? Benito Mussolini? Na estréia do século XX, em 1901, formou-se professor e, logo depois, sustentado pela mãe, professora primária, foi refugiar-se na Suíça, omisso ao serviço militar. A guerra já se desenhava ao longe emitindo brevíssimos fogos-fátuos. Foi agitador político e fervoroso ativista anticlerical. Mudou-se para Trento, fez-se jornalista e, em 1909, dirigiu o jornal L’avvenire del lavoratore, cujo título revela sua particular visão de mundo socialista. Em Forli, conduziu a federação socialista e o semanário La lotta di classe.No congresso socialista de Reggio Emilia, em julho de 1912 (na antevéspera da eclosão da guerra), impôs-se como líder da ala revolucionária e, em dezembro, nomearam-no diretor dO Avanti! Por fim, ele arrebentou a bússola, passou a defender o conflito bélico de escala mundial e a coletar gravetos para edificar o fascismo. No entanto, se estivermos nos referindo ao Integralismo criptonazifascista de Plínio Salgado, Miguel Reale, mas principalmente de Gustavo Barroso; ou de Ítalo Zaccaro (editor do jornal integralista A Marcha) e Antônio Mastrocolla (saudado por Reale como jovem promissor e servidor convicto da causa integralista), essa será, de fato, outra novela, com enredo novo, datas diversas e personagens bem mais complexas, ainda que muitas delas caricatas e quiçá histéricas. Ao assistir a filmes ou examinar fotografias de Hitler e Mussolini, por tempo prolongado, você se pergunta sobre quem foram essas duas criaturas ou se uma delas se distinguiu da obra, ou qual deles foi superior ao outro, serpentes encolhidas no fundo da Caixa de Pandora. A questão, assinalou Jacques Lacan, é esse outro/Outro: braço estendido, punho cerrado, voz tonitruante, o apelo retórico ao ajuntamento, seguido do ato de dissolução do indivíduo na massa. Falocratas. Como na gravura de Blake, com um compasso, eles traçaram os limites circunferentes do universo. Foram homens solares sacralizados pela multidão anônima embevecida. A cada um daqueles átomos efêmeros (eis o l’uomo qualumque) eles atribuíram nome, fala e geografia.

Ascensão e queda de Gabriele D’Annunzio

Luiz Roberto Benatti

D’Annunzio nasceu em Pescara, no Abbruzo, em 1863. Foi moço rico, filho de proprietário de terras, motivo pelo qual ele a família continuaram na Itália. Quando Gabriele tinha 20 anos, em 7 de novembro de 1883, Machado de Assis escreveu na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro: “Nascer rico é uma grande vantagem que nem todos sabem apreciar. Qual não será a de nascer rei? Essa é ainda mais preciosa, não só por ser mais rara, como porque não se pode chegar lá por esforço próprio, salvo alguns desses lances tão extraordinários, que a história toda se desloca. Sobe-se de carteiro a milionário;não se sobe de milionário a príncipe”. Meio aos trancos e barrancos, mas com o aprumo dum almofadinha ou patricinho, D’Annunzio fez o percurso, mas sua queda o deslocou com ímpeto e fúria. Em nome da sandice aviatória, cegou um olho e, quase às vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando já parecia não haver mais lugar para ousadias e excentricidades como as suas, Gabriele morreu distante de tudo e de todos, no Lago de Garda, em 1938. Se nos esquecermos do aparatoso cenário bélico, das patriotadas sem fim e aborrecidas, dos peitos enfunados pela voz de trovão, temos de admitir, sem ironia, que Ico Ceneviva e João Clemente foram dois filhos de D’Annunzio em CTV. Como a Guerra fria foi insidiosa e cultivava o apego às sombras, ambos não puderam contar com assistência engajada na guerra de campo. Loucos de pedra lá em cima, desligavam o motor do Cesna e, enquanto um deles pilotava, o parceiro saía da cabine para pendurar-se no nariz do avião e manobrar a hélice. Trapézio voador. Passavam sob ponte. Para viver sorridente e contar, à sua volta, mil admiradores, você tem de ser destro na arte de fazer o impossível como se possível fosse. As coisas eram assim naqueles dias. Em 1898, dias de breu e tifo no São Domingos do Cerradinho, Gabriele escreveu La città morta [A cidade morta], cujo título Monteiro Lobato assimilou. Gabriele foi buscá-lo em Dante: la città dolente é Dite ou o inferno. As guerras são infernais, mas sem elas os histriões não vivem. Gabriele sorveu desse absinto até a última gota. Depois de dissipar fortuna, gastar o que tinha e o que não tinha, acuado por credores nervosos, D’Annunzio fugiu para Paris, centro do mundo cultural, e trocou pela dançarina Eleonora Duse a mulher original. Com Claude Debussy escreveu O martírio de São Sebastião, o santo flechado dos homossexuais. Gabriele foi um Píer Paolo Pasolini à direita. Subiu em caixote e foi pregar em favor da guerra, ganhou uma multidão de fiéis como piloto de caça e os admiradores foram ao delírio. Toda multidão embevecida aperfeiçoa mecanismos fonéticos de delírio. Para negar a vida repetitiva e tediosa de todos os dias, inventamos truques, frases estapafúrdias e gestos mirabolantes. Em fevereiro de 1918, fez incursões aéreas no porto de Bukar, na Croácia, e isto bastou para levantar o ânimo dos italianos escarmentados pelo desastre de Caporetto. Subiu, uma vez mais, aos céus e panfletou do alto Viena. A seguir, tomou Fiume [hoje, Rijeka, na Croácia]: como general comandante de 2000 soldados, obrigou norte-americanos, britânicos e franceses a retirar-se. Foi a glória!Virou duce e declarou a independência de Fiume.Como a loucura em pequenas doses é bobagem, declarou também guerra à Itália. Quem dorme com um barulho desses! Em 1920 (ano de instalação do clube dos italianos de CTV), baixou o topete e rendeu-se, velho e fatigado. Não se envolveu de corpo e alma na política fascista, por não ter-se reconhecido no discípulo, mas foi, sem dúvida, o melhor figurino de Benito, Adolfo, Franco, Salazar, Perón, Vargas e tutti quanti.

Antonio Cardarelli, o lendário occhio clinico

Luiz Roberto Benatti

Cocanha era o reino ideal, onde as pessoas nasciam, cresciam e viviam felizes o resto de seus anos. Não havia abalos sísmicos ou vulcões, fome também não havia; ninguém queria roubar ou matar. Caso alguém caísse doente, criatura dotada de elevados poderes de cura logo restabelecia a saúde do enfermo. No livro de Matilde Serao, Il paese della cuccagna, o médico Amato Amati era a representação literária de Antonio Cardarelli: “ Tutta la gente lo chiamava, invocava, gli tendeva la mani, chiedendo aiuto, assediando il portone, le scale, la sua porta … con la pazienza e la rassegnazione di chi aspetta un salvatore ” [Todo mundo o chamava, implorava, estendia-lhe as mãos, pedindo-lhe ajuda ou assediando-lhe o portão, a escada, a porta … com a paciência e a resignação de quem aguarda por um salvador.]. Nascido em 1831 em Civitanova del Sannio/Nápoles, Antonio Cardarelli foi tio-avô do Dr. Attílio Cardarelli Cypriano. Era dotado de infalível occhio clinico, do qual a moderna Medicina, feita por gráficos e bits fotoeletrônicos, acha-se distante inúmeros anos-luz. É como se o doente não fosse mais dotado de fácies, e se, no consultório, por acaso apresentar-se com  um rosto à antiga, servirá apenas para ele exibir-se com certa porção de culpa pelo mal nele instalado. No universo realista de nossos dias, cada um de nós responde pela origem da própria doença física ou social. Quase todos nós somos exorcistas. Pela leitura atenta do boletim médico do Papa Leão XIII, Cardarelli diagnosticou no pontífice a incômoda presença dum câncer de pleura. O papa veio a falecer porque naqueles dias, como nos dias atuais, a inveja corrói as melhores intenções e os bons projetos de mudança. Benedeto Croce, Giuseppe Verdi, Giuseppe Garibaldi, Vittorio Emmanuele II e Umberto I foram pacientes do Professor Cardarelli.Morreu aos 96 anos. Aos 92, impedido por lei de continuar lecionando na Faculdade de Medicina de Nápoles, foi conduzido em coche aberto sem cavalos por alunos, professores da universidade e médicos à sua residência. À passagem do fabuloso cortejo, a multidão aplaudia e atirava flores. Antonio descobriu o sinal patopneugnômico batizado com seu nome e que permite ao clínico diagnosticar a presença dum aneurisma aórtico fazendo o paciente pronunciar a vogal a. Certa ocasião, colegas matreiros, para enredá-lo em situação ridícula, o conduziram a um colega que se fingia de doente. Para grande espanto dos invejosos, Cardarelli diagnosticou nefrite crônica no “ falso doente ” , cujo mal levou o moço inevitavelmente à morte sete anos mais tarde. Dois dos irmãos do Dr. Attílio – Amleto e Orlando – estudaram Medicina, bem como os filhos Attílio e Ayrton. Formado no RJ, Ayrton retornou a Campinas, onde mantém serviço de clínica vascular periférica e profunda. Em CTV, Attílio, pós- graduado no RJ, leciona Ginecologia e Obstetrícia na antiga FAMECA, atual FIPA. Ao espalhar- se pelo mundo, tangidas ou não pela seca e a má distribuição do dinheiro e seus malefícios, as pessoas dispõem-se como peças dum quebra-cabeças de difícil montagem.Siamo tutti oriundi.

 

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