Na tumba de Ramsés

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Luiz Roberto Benatti

 

De vez em quando ele parecia acordar. Abria um olho, depois outro, afilava o bigode e  dizia algo lapidar como se fosse inscrição de túmulo. Naquele dia, ele afirmou: “Se nos pedem o cadáver, meu senhor, não podemos ficar com ele”. Estava bem acostumado com cadáveres e sabia distinguir um do outro pelo colorido quase imperceptível da pele do rosto, desde a época em que enfrentou piratas em alto mar. No dia referido em que brisa alguma pôs a língua de fora, apareceu uma mulher misteriosamente vestida de renda branca: não era bela nem feia e, caso fosse guerreira, nisso não acreditaríamos à primeira vista. Parecia vestida para casamento ou batizado. Aproximou-se do homem, herói cansado de antigas batalhas, há décadas aposentado, cujos discursos, intermináveis, iam do nascer do Sol à chegada da Lua. O ex-guerreiro estava derruído num trono de rodas e a mulher de renda branca o tomou pelos longos braços descarnados, como quem enlaçasse abóbora gigante. Não sabemos se queria ficar com o braço ou se o confundia com salame. Uma gralha sorriu lá fora dum jeito estranho como se quisesse conversar  sobre poesia com Edgar Allan Poe. Os presentes rápido voltaram-se para suas alcovas ausentes.

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