Mestres do velho Barão, I

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Luiz Roberto Benatti

Geraldo Correia era a cara do ator norte-americano David Niven: fleugma, bigodinho, econômico nas palavras, boêmio incorrigível, ironia e bom humor, desde que não estivesse azedo. Ria-se de si mesmo e dos outros, como fez questão de registrar no livro Minhas piadas dos outros. Como jornalista, improvisava a partir dum recorte de realidade. Nas 6as.-feiras à noite, último professor a deixar a escola por volta das 23 horas, contava ele que,num dia,  assim que chegou ao primeiro lance da escada do prédio, recebeu os primeiros pingos de chuva. Pôs o jaleco branco na cabeça e correu para abrigar-se na marquise do cemitério. Ficou ali até que a chuva amainasse e, quando se preparou para atravessar a Praça Roosevelt, ouviu voz cavernosa  vinda do alto do muro que lhe dizia: “Não disfarce não. Pode voltar”. Geraldo era magro como um palito e o que o coveiro sugeria é que ele, de fato, fosse  um morto saído da tumba.

Paschoal Roberto Turatto alugou uma casinha modesta na Rua Ribeirão Preto, na zona do meretrício e, quando chegou a Catanduva, Expedito Avany de Andrade Freire foi morar com ele. Tudo o que Paschoal fazia era meio disparatado e o Expedito contou que era frequente acordar às 3 da manhã com o ronco da motocicleta em cima da mesa da sala e o Paschoal, ferramenta na mão, ocupado em consertá-la.

Mauro de Oliveira tinha a tez amorenada como Mário de Andrade e cultura excepcional. Bom orador. Eloy Rosa, o bedel, era seu confidente e amigo. Quando dava na veneta do professor Mauro e seu Eloy ia à diretoria para comunicar que o mestre tal faltara, o diretor Mauro, às vezes, respondia ao bedel que voltasse  para anunciar que iria até a classe. Ele entrava de paletó e gravata, elegante, e perguntava a um dos alunos em que ponto da matéria estava o professor ausente. E era desse ponto que ele partia para dar uma aula de extrema finura. Ficávamos boquiabertos.

Rosa Nassar de Oliveira, sem exagero, era tão bonita que se parecia com Greta Garbo. Prumo, rigor, cultura exsudativa. No primeiro dia do primeiro ano do Clássico, ela entrou na classe, botou a bolsa na mesa, dirigiu-se ao quadro negro e anotou títulos e autores de 30 livros de Literatura. Lá do fundo, Affonso Celso Alexandrino perguntou-lhe: “É para o ano todo?”, ao que dona Rosa respondeu:”Para o primeiro semestre”. Uma colega ousou questioná-la: “E se eu não ler?”Resposta pesada: “Experimente!”

José Pinheiro Monteiro era sem tirar nem pôr o Cantinflas e, nas aulas de trabalhos manuais, exigia tanta coisa, que tínhamos de levá-las numa carriola. Era, de fato, um ator entre o cômico e o dramático. Iniciou a chamada: “Número 1?” “Presente, seu Zé””Diga apenas presente.” “Número 2?” “Presente, seu Zé.” “Vou mandar o apagador.” “Número 3?” “Presente, seu Zé.”, e ele mandou o apagador.  

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