O homem da cabeça de papelão

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Luiz Roberto Benatti

 

De família de migrantes italianos, viveu na zona rural e, a duras penas, aceitou o  trabalho de lida com a terra e os animais. Viajava 6 quilômetros em lombo de burro até a cidade para estudar. Escola primária, ginásio, colégio, faculdade de Administração. O pai lhe dizia que o melhor emprego é o de vendedor de qualquer coisa, preferentemente do que comemos ou bebemos. Fábrica de bolachas, torrefação de café, salame; depois, consórcio de carros, casas. Começava ele a trabalhars,  mas não ia adiante, não superava as metas nem sequer delas se aproximava.Tornou-se alvo de chacota: Cara, você precisaria se benzer. Você deve ser um pessimista crônico. Arrumou noiva, casou-se, pôs filhos no mundo, os filhos cresceram e ele na corda bamba. A mulher tanto repetiu que as coisas iam mal em casa porque a cabeça dele não funcionava direito e que era melhor trocá-la por outra, ,que os filhos fizeram coro com a mãe e, ao voltar para casa no fim dum dia de novo insucesso, ele se trancava no  quarto, amuado. “É a sua cabeça, irmão!” Certo dia, depois de ter quebrado as costas morro acima sem ter vendido coisa alguma na vila, e a caminho do ponto da jardineira, de repente, olhou para cima e leu: “Conserta-se qualquer coisa a preço módico. Garantia assegurada”. Entrou cheio de timidez, a loja  na penumbra, atrás do balcão estava um velho míope. Ficou  em frente do velho, até que ele lhe perguntou: “O que deseja o moço?” Respondeu ao velho que entrara motivado pelos dizeres da placa e insistiu com o velho se o TUDO da placa incluía também cabeças precárias ou disfuncionais. O velho assegurou-lhe que dominava o conhecimento da mecânica cerebral e que poderia deixar no balcão a cabeça e voltar dentro de 6 meses. O velho entregou-lhe um recibo com menção do objeto a ser consertado, preço do serviço e data de entrega. Ao entregar ao velho a cabeça original, o vendedor preparou-se para deixar a loja sem cabeça, ao que o velho lhe disse: Não saia por aí sem cabeça, meu filho. Coloque no lugar da sua esta de papelão meio empoeirada modelada por meu pai. A cabeça de papelão foi ajustada no tronco  do vendedor mal sucedido e ele saiu à rua. Tão logo pôs os pés na calçada, notou que as luzes tinham novo brilho, o ônibus não lhe pareceu sacolejante, mulher e filhos o receberam com redobrada alegria. Acordou cedo, disposto a transformar a soma dos  dias no mais glorioso de todos os anos de ex-vendedor azarado. E assim foi, e no dia seguinte, por meses e anos. A nova cabeça, diziam gerentes e colegas sem se dar conta de que era de papelão, era invejável e lembrava a de Alberto Einstein. O vendedor enricou, mudaram-se para um apartamento de luxo, circulava por aí em carro importado, os filhos foram frequentar escolas de classe média alta. Ele não se lembrou mais da cabeça original, até o dia em que, por acaso, retornou à antiga vila, agora bem mudada. Por curiosidade, cortou caminho para ver se a loja do velho ainda estava ali. Custou para encontrá-la, até que localizou o número.Entrou, tudo estava mudado, luzes, espelhos, armários de aço e atrás do balcão havia um jovem. Ele quis fazer meia volta, mas o moço perguntou-lhe se desejava algo e ele, meio a contragosto, talvez, referiu-se à visita, ao velho, à cabeça estragada. O moço respondeu que aquele senhor era seu velho pai que havia aberto a cabeça e esmiuçado todas as circunvoluções para constatar que nunca antes havia visto cabeça tão boa quanto aquela, razão por que não cobraria nenhum centavo do proprietário. Pôs a cabeça na prateleira e uma vez por semana a espanava com carinho. O velho morreu. O moço depositou a cabeça no balcão e disse ao vendedor que ele poderia trocá-la pela de papelão. Rasgou o recibo. O vendedor examinou de modo minucioso sua velha cabeça, afastou-a com delicadeza, pegou a pasta e preparou-se para sair. O rapaz perguntou-lhe se não iria levar a cabeça original de superior qualidade, ao que o vendedor retrucou que a de papelão tinha sido responsável por grande mudança em sua vida e que deixaria desse modo as coisas já  que, assim,  a vida estaria no melhor dos mundos não reprováveis.

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