De ponta cabeça, mas com a cabeça bem recheada

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Luiz Roberto Benatti

  

Fotografada por Wayne Miller, a garotinha lê. Lê de ponta cabeça e recheia a cabeça por dentro. Quando é que a criança deverá começar a ler? Assim que puder sentar-se na tina de banho, ou mesmo antes, com o livro pendurado no teto do berço. Não importa que  criança não saiba como decodificar letras nem muito menos compor sílabas. Ela estará lendo porque seus olhos recortarão as figuras que saltarão da página para um nicho privilegiado do córtex. Ofereça-lhe narrativas extraídas da mitologia grega. Até hoje nenhuma criatura ou povo algum viajou para tão longe quanto os gregos. Eles foram e voltaram muitas vezes. Com Hesíodo foram até o Caos e, no caminho de volta, à luz de lamparina, do enorme vazio, retiraram Gaia, nossa mãe. Sábia e grandiosa, e sem contar com a intermediação masculina (onde houver um penduricalho ali haverá uma concha), Gaia pariu Urano que, a seguir, a fertilizou. Os gregos não se detiveram no ponto em que o torniquete da  moral cristã disse “Não vá à frente, não avance sobre o abismo, não invoque Satã”. Os gregos não temiam o imaginário, mas sustentaram que o imaginário poderia ir além do imaginário sem deixar de ser imaginário. Quando você degusta a batata,  saboreia o sumo da terra entranhada em Gaia, você se senta com Van Gogh para comer batatas, você cruza por dentro o cofre do banco e sai do outro lado da Vida. Dos encontros e reencontros, nasceram os Titãs, Oceano, Ceos, Crio, Hiperião, Jápeto, Teia, Reia, Mnemosine, Febe, Tétis, Cronos, depois os Ciclopes. Cronos, o tempo que nos devora, o tempo que nos constrói, o tempo com o qual nos deitamos nus e famintos, armou-se de foice, desentranhada do corpo da mãe, e castrou o pai. Os gregos não foram ao luto para chorar e cobrir-se de cinzas, os gregos continuavam a tecer o imaginário com fios de ouro e prata do Real, porque a realidade não nos basta.Ao atirar ao mar os genitais de Urano, Cronos libertou os irmãos prisioneiros. O sangue da ferida deu ao mar sua cor vermelha – o mar vermelho, a travessia, a espuma em que sobrenadava o esperma, Afrodite, as Ninfas, as Erínias, os Gigantes. Repovoe cérebro e alma da criança e deixe-a mergulhar-se bem fundo no Adriático.

 

 

 

 

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