”  OU  EU   LI  OU  EU  OUVI  “

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Dalva Scheerer

 

           Quando alcançamos no Brasil, os cem anos da assinatura da lei Áurea, 13.05.1988, que abolia definitivamente a escravidão, pelas mãos da princesa Isabel, o Movimento Negro Organizado deu um salto deveras importante. Primeiro ponto: Livres coisa nenhuma, vocês podem sair enganando outros. Nem a Monarquia nem a República que estava batendo às portas tinham um plano ou projeto na gaveta, para integrar o turbilhão de seres humanos que depois de séculos de trabalhoforçado  não tinham para onde ir nem profissão nem renda. Foi uma espécie de sorta-os-crioulos…

             Há pouco material escrito, no nosso país, sobre os acontecimentos e fatos que explicam e ensinam a história da população afro-descendente, sem deixar os alunos envergonhados. Sim, começa no primário. Vide Saci pererê! É uma criança, meio adolescente, que fuma cachimbo, tem uma perna só e usa  gorro vermelho  tenebroso.  Nas festas de 7 de Setembro, na escola, meu maior medo era ser convocada para representar este nosso herói nacional.

               Uma doutora em Antropologia social da USP – Universidade de São Paulo – Lília Schwarcz, no  trabalho “ Retrato em Branco e Negro “, pesquisou notícias nos jornais do fim do século XIX e,dentre um bocado de horrores, por exemplo,relatou o caso de  um escravo fujão que, ao ser recapturado, enfiou  enorme facão no próprio ventre, falecendo instantaneamente.  E mais, cruel demais, um dos castigos que os senhores costumavam usar, principalmente aos cativos que tentavam fugir, era amputar uma de suas pernas. Ou mãos ou língua, orelhas… Isto era comum naquela época. Eu não quero ter vergonha. Quero deixar fluir a mágoa…  Quero ter orgulho dos meus ancestrais. Ouvir suas histórias, escrevê-las talvez. Não dá mais para concordar com que, quando tudo vai mal, a coisa aqui fica preta…

                 Li ou ouvi do professor Clóvis Moura que os negros são colocados como  contraponto dos brancos. Negro é feio, é ruim. Mas desde quando, professor Clóvis? Porque o senhor morreu antes de me esclarecer? Ou será que o senhor anotou em alguma agenda, ensaio, livro? Com este negócio de tradição oral, ou seja, os africanos idosos passando seus conhecimentos e cultura aos mais jovens, verbalmente, enterrou-se muito saber. E não era qualquer pessoa que podia fazer esse trabalho. Li ou ouvi que estes mestres, os “Griots”, eram formados para tal função.

                   Agora, esta eu ouvi. Estávamos num restaurantezinho modesto, perto de uma estação de metrô, em São Paulo, quando o  professor Clóvis Moura – ele não gostava muito que eu dissesse professor Clóvis Moura, queria que eu o chamasse Clóvis – contou-me: sou neto de um Rei da Prússia com uma escrava negra brasileira. Esperei uma história mas ele levantou-se, despediu-se e nem me deu tempo de dizer que não consegui terminar de ler sua obra  “Dialética Radical do Brasil Negro”.  E emprestei este livro não sei para quem, que nunca me devolveu…

 

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