Um livro feito de asas

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Luiz Roberto Benatti

 

A palavra leitura tem muitos sentidos. O moço da companhia de luz, por exemplo, faz a leitura do relógio de força, do mesmo modo que lemos ou deciframos gráficos ou placas de trânsito. Ler, deduzimos, não é apenas decodificar letras ou palavras, mas também identificar e reconhecer números e símbolos. Lemos também as horas no relógio. Por extensão, poderemos ler a natureza – rio, árvore, nuvem -, coisas que o satélite, como extensão de nosso olho, executa há algum tempo. O médico lê no rosto do paciente sinais do mal que o acomete, como o juiz lê no rosto do réu a palidez do fratricida. Os cegos lêem com a ponta dos dedos. Os sentidos de leitura diferentes da capacitação para a busca e o reconhecimento de palavras altera a noção corrente de analfabetismo, a qual, pelo modo pouco usual de ver as coisas, seria bem menos assustadora que os dados tabulados pelo IBGE. Ônibus dum grande centro urbano podem ser lidos pelas faixas de cor indicativas de procedência, trajeto e término do percurso. Advirtamos o leitor, todavia, que a presente matéria não prega a volta às décadas dos anos  30s e 40s, durante os quais 80% da população brasileira era analfabeta. Nosso intuito é resgatar sentidos esquecidos de leitura. Um desses sentidos confina com liteira, veículo que transporta, ao mesmo tempo que embala quem nela viaje. Assim, o ato de ler em profundidade deveria remeter-nos a outros espaços – físicos ou mentais – nos quais ficássemos por um tempo distantes da bulha do mundo em que estamos; e que isso se fizesse de tal modo, que pudéssemos nos sentir numa cadeira de balanço, cujo vaivém abrisse para nós comportas de sonho. Outro sentido de leitura remete-nos a leito, local de repouso ou espaço em que jazem a criança, o velho, o doente ou o moribundo. Deduzimos desse sentido que ler pode e deve ser consolo para a alma fatigada, ou estímulo para a mente em formação da criança. Um terceiro sentido de ler conduz-nos ao ato de coleta ou colheita que, dentre outras noções, revela o interesse em ajuntar idéias ao optarmos por esse e não por aquele livro, cuja leitura – uma vez concluída – resulta em messe farta, futuro pão para o espírito. Em alemão, Beeren lesen (do verbo ler) significa “colher amoras”, acepção que nos remete ao prazer físico ou gustativo da leitura. Ao intuir esse sentido, Castro Alves falou no homem bendito que semeia livros. Concluímos, assim, que o amplo entendimento do ato de ler não implica necessariamente na visão dum ser passivo ou estático, e quase sempre sentado à mesa, mas na percepção duma lépida criatura orientada pelo vir-a-ser. Ler é abrir-se para o futuro.

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