Anotações para um capítulo sobre o raciocínio pela música

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Luiz Roberto Benatti

Foram inúmeras as oportunidades em que a Filosofia lançou redes de captação do fluxo de pensamento [stream of consciousness] ou de construção de esquemas mentais de ação. Todavia, poucos foram os momentos em que ela pôde certificar-se de que suas proposições tinham sido boas ou firmes. Algo quase sempre nos escapa diante da volatilidade do pensamento. Não se trata apenas de saber como ou por que?, mas em poder distinguir o que é do eu e o que é não-eu, quer dizer, separar dos inúmeros raciocínios ou elucubrações o que lhes acrescentamos, como se isto ou aquilo deles fizessem parte. Até mesmo Sherlock Holmes ou Maigret poderão delirar, mas a música talvez nos ajude. Em “Ronda”, Paulo Vanzolini registrou instante magistral, no qual o eu do poeta, ao figurar-se como mulher, deu-se conta duma presença/ausência, como nO belo indiferente de Jean Cocteau.Cocteau dedicou a Piaf, sua amiga, o belo monólogo que destripa o amor sublime para reduzi-lo à espera humilhante que, se não se cumpre jamais, parece completar-se nos sucessivos instantes de sadomasoquismo feitos de falso chamado telefônico ou delirante  batida à porta.  É o tema da espera que nunca se preenche, o vazio sem eco, Narciso congelado, porque o filho, ou a filha pródiga, não retorna à casa, ao quarto de pensão, ao mocó, à cafua, ao ninho de amor, ao lugar de abrigo. A casa está em você ou não estará em lugar algum e, nesse caso, quem volta volta só. Volto para casa abatida/ desencantada da vida/ o sonho alegria me traz/ nele você está. Sonho?: câmara cifrada do fluxo mental, caixa de fotografia que registra o que não estava lá.  Trouxeste a chave? O amado (o belo indiferente) não se configurou nos bares, mas enfurnou-se no sonho, a casa muito engraçada de Vinícius de Morais. O eu, disse Fichte, busca a causalidade: o porquê de o amado não estar aqui; e, como não o localizo neste lugar ou noutro, estaria ele alhures? O eu, portanto, não controla os movimentos alucinatórios ou de causalidade. O eu é cartesiano, a ausência é volátil ou metafórica. Veloz, rodopia como cavalinho de madeira no parque. A causalidade dispara como linha solta dum carretel em terreno inclinado. A causalidade é o odradek de Franz Kafka. Projeção da mãe interdita.O eu, de fato, não tem nem poderá ter a causalidade, embora desenvolva grandes esforços para provar o contrário.O eu delira, inventa, diz que tudo sabe, por isso mente como se dissesse a verdade.  Releia “Tabacaria” de Álvaro de Campos. Assim, as respostas do eu para a ausência do amado são preenchidas pelo não-eu. Quem não tem cão caça com gato ou rato, ou então paga o pato. Enfim, eu e não-eu mobilizam-se para um duro combate, cujo desfecho consiste em alcançar o equilíbrio entre ambos, ainda que tal equilíbrio possa não ser encontrado.Como é que determinado pensamento poderá ser positivo se não nos damos conta de como funcionam seus mecanismos de produção? O Sr. Paulo Coelho juraria em cruz que eu estou equivocado, já que, ao contrário dele, não conseguirei fazer chuva por força do pensamento. O eu quer ser preenchido pela infinitude (o êxtase amoroso, o sublime  de Abelardo e Heloísa ou Romeu e Julieta), ao mesmo tempo em que reflete sobre si mesmo, situação que só poderemos avaliar no lugar da finitude ou no chão do concreto: amor é ferida que dói e não se sente, porque não se trata da quantidade de dor, mas da geografia da dor ou do lugar doloroso. Aquela a quem procuramos sem sucesso evade-se nos  esquemas lúdicos ou inações a fim de evitar a produção de sentido no mundo precário ou utilitarista, no mais das vezes carregado de exigências materiais ou carências que não podem ser postas de lado.  Pense na dependência química como passagem para o país dos sonhos multicoloridos. Porém com perfeita paciência/ volto a lhe buscar/ hei de encontrar/bebendo com outras mulheres/ rolando dadinho/ jogando bilhar.O mundo lúdico é o microcosmo paralelo. Nesse ponto, o eu ejeta o ação recíproca consigo mesmo. O impulso ( entrincheirado no sujeito) lança o eu para mais além (o plus ultra de Nietzsche), enquanto a ação resultante da reflexão detém o eu: vou, não vou/ posso, não posso/tenho, não tenho/ sou, não sou/ gosto, não gosto e outras simulações ou dissimulações do eu. Resta ao eu fatigado ( releia “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade) e ao impulso excitado unificar-se, de cujo enlace resulta a coação de um não-poder. Caso isso não ocorra, as ações do eu escorregarão para o imprevisível: agressões físicas ou verbais, lapsos, mentira, esquecimento, manifestações histéricas, homicídio enamoram-se do imprevisível. E nesse dia então vai dar em Primeira Edição/cena de sangue num bar/ da avenida São João. A exteriozação do não-poder no eu, anotou Fichte, chama-se sentimento. “Livre pensar”, escreveu Millôr Fernandes, ”é só pensar”, todavia a razão para as respostas certas ou incorretas do sujeito sobre o objeto sempre irão localizar-se no sujeito, enquanto o objeto permanecer como esfinge.O melhor da Poesia contemporânea disseca o sujeito à medida que interroga o objeto sobre ser ele ou não mero  arremedo do Real.

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