Antanho é o velho, estranho é o novo. E o novo é belo

César Bond

[Em 10 de agosto de 1979, César Bond publicou no jornal O Estado do Paraná  crítica de meu livro Paisagem oclusiva.O trabalho é tão percuciente, que, na época, ele ajudou-me a me dar conta, de modo pleno, do sentido de alguns poemas.  Era poeta e morreu muito jovem, em 2004, aos 48 anos.]

Ao poeta cabe estabelecer um parentesco entre as coisas. Porque é neste parentesco que as coisas se explicam. Por exemplo: é fácil perceber o parentesco entre uma mesa e uma cadeira, e porque estes dois objetos existem como individualidade e, ao mesmo tempo, como objetos que se buscam. Que se justificam em outro.

Não é fácil, porém, dizer com a mesma segurança o parentesco entre uma gilete e um suspiro, a chuva e o gosto de limão, a naftalina e o sapólio. É difícil compreender como essas coisas, aparentemente tão independentes, podem existir, carinhosamente ou na porrada, numa mesma paisagem.

O livro Paisagem oclusiva, de Luiz Roberto Benatti, se aproxima muito disso. Desta troca constante de significados e objetos, que se justificam entre si e, principalmente, nesta coisa original e estranha que é o homem nesta paisagem. Uma espécie de ponto entre os objetos concretos e a possibilidade desta realidade ser outra. Ser revolucionada.

Este livro de poemas tem, dentre outras, a virtude de ser uma paisagem completa, uma paisagem gorda, cuidada com muito carinho. Já na segunda página, é dada a chave para que se entre neste livro, ou quadro. E a chave é uma citação de Fernando Pessoa, que começa da seguinte forma: “Todo o estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem”.

Dialeticamente

O livro é dividido em três partes (Dia, Noite e Claro-escuro) e à medida em que vai sendo lido, ou que vai se derramando à frente do leitor, é como se passasse um rio. Um rio que embora passando permanece sempre presente. E a Paisagem oclusiva mostrada por Luiz Roberto Benatti é uma paisagem completa em sua liquidez, suas contradições (Dia e Noite) e em seus parentescos que se aproximam como uma ponte (Claro-escuro).

E Claro-escuro entenda-se não como a união perfeita dos dois, mas uma união em que ambos ao mesmo tempo em que se atraem também se repelem, formando um tom que não é o Dia nem a Noite, mas a possibilidade de algo totalmente novo. Uma possível realidade criada pelo poeta, ou pelo político, que conseguiu estabelecer o parentesco entre estes opostos.

Passando aqui

Esta paisagem nova, estranha e no entanto familiar, é feita com muito rigor por Benatti.Nela, todos os objetos, as idéias, os pequenos remorsos, buscas e utopias são concretizados em um “existir passando”. Um bom exemplo do perfeito aproveitamento rítmico e sonoro desta paisagem nova é o poema “Nyx”.

A noite: cantá-la? Deixá-la que venha

à palma? Erguê-la com seus travos, passos,

vozes presas nos cardos, desfeitos os laços?

São tantos os sons. Entre quais escolher

os que levam ao corpo a certeza de ponte?

Os do galo? Os do grilo? Os do impulso

acuado pela magia da oferta?

Os do medo de ser sob a força do medo,

Ou os de quando dele liberto, sem nele pensar?

Cravo meus olhos contra a pele da noite.

O que sei sobre o dia que está a nascer?

É belo, e terrível, o som que faz esta noite que passa em palavras como travos, passos, vozes-presas-nos-cardos, certeza-de-ponte, galo, grilo, acuado, magia-oferta, liberto, cravo, olhos, pele, sei. É belo porque, ao contrário da mesa e da cadeira, não é fácil perceber o parentesco que há entre estas palavras que fazem ser tão doída esta noite que passa, mas está presente.

E esta limpeza e rigidez da forma não dificultam em nada a expressão do conteúdo poético, ou político. Ao contrário, é pela maneira justa e impiedosa de construir o poema que o conteúdo passa a ter um sentido bastante amplo, e que permite tantas leituras quantas desejadas. Além disso, é nesta rigidez de forma e conteúdo que a unidade se constrói, dialeticamente viva.

Um exemplo disso é o poema “Contracena”:

Lentamente as armadilhas se desarmaram

e da presa restou apenas certo cansaço

no vento, na armadilha, no caçador.

Antanho

Benatti, ao contrário de muitos maus poetas que entulham as estantes, utiliza-se, sem qualquer pudor, e sem qualquer grandiloqüência, de palavras prosaicas e poéticas (se é que existem realmente prosaicas e palavras poéticas) fazendo-as aparecer não para ser imediatamente reconhecidas, mas para ser descobertas em suas inúmeras facetas, em seus inúmeros parentescos.

E isso não de maneira gratuita, como no tempo de antanho, mas para mostrar que o que há de oclusivo na realidade é exatamente a possibilidade de ela vir a ser radicalmente nova. Para mostrar o que há de possivelmente novo na realidade é, felizmente, o homem.

Amanhã

Não li o primeiro livro de Luiz Roberto Benatti, escrito em 1967, quando ele estava “compreensivelmente impressionado com os Nerudas nacionais e os Yevtushenkos nativos em pregação poética pelo Noroeste paulista”, como diz Frederico Pessoa de Barros, na apresentação de Paisagem oclusiva.

Mas não importa. Importa sim esperar pelo que virá a partir de agora, desde que hoje se mostra um poeta profundo e seguro. Agora que nos canta, em “Arrazoado” que

Le petit câncer &

outros males

prenderam as palavras nos leitos

que mais comprimidos

mais e tanto

fizeram-se num peso

em si mesmo

           morto.

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