A memória das coisas: o Machione de 2005-2008 não fazia a lição de casa, III

 

Luiz Roberto Benatti

Fosse eu recomendar ao  ex-aluno,  que acabou de concluir o tempo de seu segundo mandato como prefeito, livro de leitura diária, não hesitaria em dizer-lhe que mergulhasse de coração e cabeça nas páginas de  A genealogia da moral, de Frederico Nietzsche, em cuja obra o filósofo alemão rastreou a história e a psicologia do ressentimento, e a decadência do Ocidente, antes de Spengler. Nietzsche vai ajudá-lo nos restantes de seus dias. Diria mais: que não se preocupasse com a dita decadência, todavia que lançasse sobre o ressentimento olhar carinhoso e autocomplacente.  O húmus do ressentimento é o ódio parelho da inveja e da ira: algo que se partiu na mais remota infância partido estará para sempre sem que para a ruptura alguém encontre cola que o remende. Nietzsche foi leitura obrigatória de  Freud.  A criança é pai do homem e o homem Afonso não removerá do peito a criança ressentida. Ele não soube ser bonachão como Borelli nem construtor ousado como Warley Agudo Romão, sem cujo ímpeto não teríamos prédios modernos como o da prefeitura, a câmara, o fórum e o teatro. Ele foi reformador inveterado, mas, no caso do ARE, nem isso ao menos. É o posto médico mais anti-higiênico da cidade.  Não foi visionário como Stocco, homem inteligente o bastante para se dar conta de que a Catanduva provinciana daqueles dias tinha de dar grande salto para atualizar-se, e foi o que se viu.  Nem urbanista ventilado como Sylvio Salles. Afonso assemelhou-se aos demais. Se a cidade ainda se lembrar dele dentro de 20 anos, dirá que ele foi o homem das pracinhas & das rotatórias. Outros, mais sentimentais ou piegas, dirão que com ele o centrão da cidade ficou mais bonito. Os bolos de casamento também se enfeitam para comemorar relações efêmeras: admiradores? Ninguém gosta de pobre: fedem, tomam cachaça, cospem na calçada, são desdentados.  Ele encontrou nos trinques a Saúde e a Educação, às quais os Sahão, por força de Lei (Obrigado, Ulysses Guimarães!), tinham dado o disparo social, mas Afonso não soube como dar às duas áreas amplidão ou visão larga, numa cidade cravejada por  escola médica e consultórios: a terceirização da Saúde deu à secretária função de tesoureira, a par de ter posto a escanteio os irmãos, assim como o brilhante Aulo.  Ao contrário dos escolares do Norte e Nordeste, aqui, a Matemática e o Português não levaram nenhum de nossos adolescentes ao Soletrando ou às olimpíadas de Matemática. O nosso Português é dialetal: dizemos “um chopeS e dois pastEL” ou nos atrapalhamos com a divisão de 27 por 3. Quanto ao aspecto social, da torre de vigia da prefeitura o binóculo afonsino alcança o caminho para Novais, logo depois do cemitério. Mozart, trinta vezes congenial, escreveu O empresário, cuja ária tem lá umas palavras que poderiam ter sido endereçadas ao prefeito. No peito do administrador, empresário e prefeito brigaram 12 vezes por dia, porque ambos são excludentes um do outro, de tal modo que onde se encontrar um deles aí não haverá lugar para o outro. Nervoso e extemporaneamente autoritário, ele mandou lacrar farmácia, templo evangélico e emissora de rádio. Dessas três atividades, ele só não pratica a de pastor. Permitiu que caiassem o cocuruto do pe. da Matriz e removeu da praça a banca do Vicente, quando no restante do mundo civilizado jornais e revistas são comprados na calçada. Ele sabe disso porque foi ao Canadá e à Itália 870 vezes. Ensaboou-se no FEBOM, mandou plantar e erradicar palmeiras imperiais ao longo da calçadinha da Brasil, semeou em frente da prefeitura um paliteiro de luminárias que deixam na penumbra a pracinha, de onde ele mandou remover para nenhures o busto de Borelli substituído pelo do fascista Chico Matarazzo. Com qual dos Mussolini ele sonha? O primeiro foi socialista, enquanto que o segundo não passou duma bela roba.  Ele (mas não   os idosos) odeia bancos com encosto, os segundos por razões óbvias e ele porque a Dra. Kliass não tolera encosto. Numa reforma que durou 2 ou 3 anos, ergueu lona de ferro sobre o terminal que o deixou tal e qual era na véspera. Não moveu uma palha para dar às oficinas de cultura prensa de gravura ou torno de marcenaria. Ele despreza liceus de artes e ofícios. Não racionalizou os desvairados itinerários de ônibus urbanos, mas deixou o usuário à chuva e ao sol. Mandou instalar na Rua Ceará a mais eficiente e perversa indústria de multa de veículos, com a façanha de ter mandado multar motorista de carro sem capacete. Inaugurou mas não pôs em funcionamento a cozinha piloto. Não mandou cultivar a horta dos Coqueiros que deveria ter fornecido frutas, legumes e hortaliças para a refeição escolar. Comprou equipamento de Israel, mas não pôs de pé a cidade digital sonhada pelo competente Iglezias. Moderno? Onde está o wifi para a moçada? Não promoveu as feiras do doce, salgado, música ou de trocas do Warley. Conservou o MIS fechado por 4 anos e não disse uma vírgula sobre o roubo dos fuzis do 32. Eram belgas e hoje estão no mocó do colecionador. Não removeu a biblioteca da Rua Maranhão que nenhum condado norte-americano de 700 almas teria coragem de exibir, e o que é pior: continuou a pagar aluguel escorchante a um miliardário da cidade. Disse palavrões fora e dentro do gabinete e deixou (?) o PSDB pelo vão estreito da porta depois de ter sido içado do núcleo duro dos malufistas. Não fez o sucessor que até hoje a cidade ignora quem fosse de fato, e sobre o vice disse na roda dos seletos que tinha de tolerá-lo. Não se pronunciou sobre atos de pedofilia no Alpino que, de modo vergonhoso para a comunidade, circularam pela mídia nacional. Mazelas sociais provocam arrepios em Afonso. Fez do posto de arrecadação de tributos local moderno gerido por funcionários eficientes e amedrontados que trabalham sob o olhar eletrônico do big boss one. Mandou encimar o muro do cemitério de rolos de arame farpado, em vez de assentar mais 6 fieiras de tijolos. Borelli negociou com Jânio e Carvalho Pinto, Stocco com Adhemar de Barros e Warley com Laudo Natel. Afonso amarrou a cara para o governador Alckmin, embora tivesse sido intermediado por Vignolli.  A fenda geológica do entroncamento do Minguta com o São Domingos continua lá, boca aberta para tragar apressados motoqueiros. Deixou que a Fafica do Borelli se internasse na UTI e não concedeu aos estudantes as bolsas do João Righini. Mandou trocar todos os hidrômetros da cidade, faturou-lhes o custo e levou de graça os antigos. Como ele se vê como um portento, em sua modestíssima visão pessoal das coisas, deixa dívida astronômica para os prefeitos próximos e remotos. Carnaval, desengano/deixei a dor em casa me esperando/e brinquei e gritei e fui vestido de rei/quarta-feira sempre desce o pano. E o pano desceu.  Distensa, a cidade pode voltar para casa sem medo de cara feia: autoridade? O termo é velho pra boné, Afonso. Boa leitura de Frederico Nietzsche. [Este artigo foi publicado no final do 2º. mandato do prefeito. Apesar dos atos de desgoverno aqui relatados, ele voltou nos ombros do eleitor cativo que viu nele, além de grande empreendedor, um sujeito absolutamente ético. A tudo isso aqui mencionado como falta, acrescentem-se outras do 3º. Mandato, que não se concluiu porque ele foi cassado.]

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