Io ho bevuto troppo caffè

Luiz Roberto Benatti

Há 287 anos, em 1727, o oficial português Francisco de Mello Palheta trouxe para o Brasil  as primeiras mudas de café das Guianas. Passados 150 anos, entre 1881 e 1890, entraram no País, pelo porto de Santos, 530.000 emigrantes destinados aos cafezais paulistas. No Estado de São Paulo, instalaram-se 41 novos municípios. Em números redondos, para cada 100.000 habitantes, 10 municípios. O Velho mundo inseminou o Novo mundo. O significado disso é que a migração de mineiros para cá mimetiza a dos europeus para o Brasil, em razão da grande seca do período cujos resultados foram a escassez de víveres e o desemprego. Catanduva começou a desenhar-se nesse período. Nesses 10 anos, o Brasil exportou 75 milhões de sacas de café que renderam aos barões da rubiácea 4 milhões e 700 mil contos de réis. Até 1910, ano da inauguração da rede ferroviária de CTV, o total de emigrantes chegou a 2.800.000. Por empreita consignada em contrato, os irmãos Sivelli obrigaram-se a plantar, num ano, na fazenda de Dona Veridiana Prado, em Ribeirão Preto, 200.000 pés de café. Bóia para o pessoal da lavoura por conta dos Sivelli. A paga? 300.000 contos de réis em 4 anos! O Capital não tem pátria, o trabalho não alcança preço digno  e o dinheiro migra dum bolso para outro.

Nós, os meridionais

Na América onde chegamos/não vimos palha ou feno./Dormimos no chão, ao relento,/e, como animais, repousamos./Com o senso dos italianos/mais a luta dos patrícios/no lapso de curtos anos/erguemos burgos e edifícios.

Numa tradução mais ou menos livre, a velha canção italiana do intenso período migratório é um poema de trabalho com pitadas de amargura e desencanto, porque, afinal de contas, onde haviam escondido a árvore de sonho que dava salame à luz plena do dia? O Paraíso não ficava na Mérica? Vênetos, lombardos, piemonteses, sicilianos -, o sonho se desfez como nuvem desarrumada pelo vento. E por que iríamos ficar calados se havíamos aprendido a lamentar-se de tudo e de todos, sempre que a situação fosse inteiramente desfavorável? O sentido do poema  lembra o  jazz sem a remissão para o Paraíso, quer dizer, apesar de o nosso mundo ser um vale de lágrimas, no céu, com Deus, viveríamos felizes. Os italianos, assim como os espanhóis, árabes, portugueses, japoneses, poloneses e alemães, queriam a terra e o fruto do trabalho. Nós, os italianos, queríamos trabalhar, amar, mandar os filhos para a escola e divertir-nos. E a Itália distante? Como ela havia-se tornado madrasta cruel para a grande massa de humilhados e ofendidos, com amor e ódio, ao embarcar para o Brasil, os italianos cantavam: Noi, italiani lavoratori,/allegri andiamo nel Brasile/ e voi d’Italia signori/lavoratelo il vostro badile/se volete mangiare! (“Nós, italianos trabalhadores,/alegres partimos para o Brasil./E vós que ficais, ó donos da Itália,/trabalhai empunhando a enxada/se quereis almoçar!”)

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