CTV: 1920-1921, tempos difíceis, homens sem artifícios

Luiz Roberto Benatti

Confrontados com os atuais administradores, os primeiros prefeitos sabiam  com clareza absoluta o que fazer e como fazê-lo. Ínfimos eram os orçamentos, porque a comunidade era pobre, todavia o senso de uso do dinheiro público era feito com rigor e bem visível foi o modo como o prefeito Adalberto Bueno Neto fez questão de registrar para a posteridade o custo exato duma obra como o prédio do Primeiro grupo escolar da Rua Paraíba com a Pará – 30 contos de réis. É esse um sentido das coisas que se perderam ao longo do processo de desorganização econômico-social do País. Em nossos dias quase todos os prefeitos perderam a sombra, a alma dos cristãos, em cujo lugar conduzem por aí uns cacos de espelho opaco pendurado nas costas. Os prefeitos serviam à comunidade, enquanto que hoje nós servimos o prefeito. É como se os atuais prefeitos, ao fazer-se de retireiros, não distinguissem vaca de leite de dromedário ou nuvem de chuva de mata-burro. Havia também identidade  entre o administrador e a comunidade que de longa data conhecia o indicado ao cargo. Enfim, sob o chapéu do prefeito, encontrava-se uma criatura ética e capaz. Os tempos eram tão árduos, que o codinome de Tabapuã era Cerradinho dos Maus Costumes, onde vivia o padre salesiano Gasparino Duarte, com quem padre Albino esteve. Estávamos próximos dos tempos bíblicos, mas longe dos vícios dos fariseus. O prédio do grupo escolar custou a elevada soma de pouco menos que um terço do orçamento público e recebeu 403 crianças, dentre as quais 200 meninos e 203 meninas. Adalberto Bueno administrou de 1º. de janeiro de 1919 a 15 de fevereiro de 1920, porque os mandatos eram muito curtos. Em junho, inciou-se a construção da igreja matriz de São Domingos, cujas pedras foram transportadas em vagão da Railroad & co. de Taquaritinga. As tarefas assentavam-se sobre materialidade física: sangue, suor, lágrimas, competência e equilíbrio.

O incêndio de 1919 da Railroad & co./EFA

 A  desmemória que recobre a cidade com peles de  ferida e lacunas  históricas responde por gerações perdidas pelas  ruas como se fossem zumbis.Perderam-se de si mesmas e não se reencontraram. Perde-se o pai do filho e o filho do próprio filho. Não se vê no corpo da cidade  o nome de Ernesto Ramalho, nosso prefeito inaugural, dado a um bairro, beco, rua ou praça. Recomendei ao ex-prefeito que desse à simpática curva do São Domingos, na altura dos bombeiros, o nome de Remanso Ernesto Ramalho e li em seu rosto, como resposta, a ruga do espanto. Ernesto nos convidou para visitar outra cidade, nós fomos mas não encontramos ninguém. Prova de revezamento sem bastão. O incêndio da velha estação da Railroad & co.(11 de setembro de 1919) foi ousado e se marcou pelo colorido de época, período que jaz adormecido num livro de páginas amarelas ressecadas.Quem o reencontrar que dele resgate o que fomos. O espírito de 1914-1918 nos movia.  O pai do historiador Brasil Procópio de Oliveira, Aristides Procópio de Oliveira, chefiou um grupo de rapazes, dentre os quais o jovem telegrafista Carlos Machado, além de Ramalho,  que desceu a Rua 3, atual Rua Brasil, e  dirigiu-se ao prediozinho baixo disposto a dinamitar a estação.Luxo que se perdeu na cartilha  da velha escola, eles cantavam A marselhesa em Francês.  A banana de dinamite não detonou e os moços atearam fogo no prédio, cujas chamas tudo consumiram. Logo a seguir, puseram fogo  também  no velho pontilhão de madeira da Rua 7 de Setembro. Assim, num único dia, queimamos a República mal nascente (Rua Rio de Janeiro) e o monumento  dos laços rompidos com a corte portuguesa ( o pontilhão da 7 de Setembro). Os moços foram presos, acareados e levados a julgamento, em SP,  no qual Ruy Barbosa defendeu a companhia ferroviária.Ruy era devoto tanto do Socialismo utópico quanto do Capital emergente. Como adoramos cultivar o sublime, para nós Ruy foi aquele sujeito que falou na grande vergonha de ser brasileiro, quando, de fato, foi advogado e possivelmente lobista da Southern Brazil Lumbert & colonization co. inc., riquíssima empresa madeireira pertencente ao grupo de Percival Farquhar, dono também da Railroad & co.  Ainda em nossos dias, Ruy seria um tipo bem atualizado: dizia proteger os pobres contra os exploradores, enquanto bebia champanhe com os miliardários. Os moços aguerridos foram anistiados, mas não Ruy que, na Catanduva daqueles dias, levou de capota na eleição presidencial. Votamos em Epitácio Pessoa. A vingança é prato que se come frio. A rapaziada tomou as dores dos fazendeiros produtores de café, cujas sacas acumulavam-se nos armazéns da estação, com prejuízo para uma economia incipiente que dependia do café, em cuja Fazenda Moreira Giuseppe Sartori plantou 60 mil pés.Sartori tinha sido capataz de uma das inúmeras propriedades  de Henrique Dumont,  o pai do aviador.  A Fazenda Moreira fez da Rua São Paulo nossa Rua Santa Ifigênia. Patriotismo e Socialismo, além da frustração por não termos ido para as trincheiras européias da Primeira grande guerra, alimentaram os moços naqueles dias tão distantes como se habitassem galáxia inacessível. Hoje, com voz desafinada, ao arrombar agência bancária, a moçada cantaria “The house of the rising sun”.

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