CTV: 1920-1923, época de correção de rumos na cidade, desconhecidos nos dias que correm

Luiz Roberto Benatti

À esquerda, no pé da imagem, vê-se refletido na poça d’água o alto do poste de luz. No fundo, à direita, o prédio do Primeiro grupo da Rua Pará com a Paraíba. A multidão está ali para ver as águas espraiadas do Rio São Domingos, antigo Japurá, resultantes da enchente. O rio foi nosso primeiro grande problema e, como se vê pela concretagem, será o último. Entopem-se de cimento as margens do rio e fecham-se assim as torneirinhas da natureza por onde fluem os fios d’água das encostas. O zóio tem o tamanho do borço e o borço é saco sem fundo. Nesses três anos, a cidade foi administrada pelo médico Francisco de Araújo Pinto, de quem estamos deslembrados. Ele sabia o que fazer e como fazê-lo. Em 1919, tinha estado  no magote dos revoltosos que queimaram até o chão a primeira versão do prédio baixo da Railroad & co. No período, o prefeito trocava o assento do gabinete pela rua e as maquinações pela reconstrução social, sanitária ou política. Araújo administrou a cidade de 16 de fevereiro de 1920 a 15 de janeiro de 1923, a seguir substituído por Ernesto Ramalho que voltaria para o segundo mandato. Logo nos primeiros dias, o prefeito iniciou as duras tarefas de levar a cabo o aterro da várzea do Rio São Domingos, cujas águas estendiam-se, com largueza, da curva dos bombeiros até os fundos da atual rodoviária. Providenciou também a construção das pontes de madeira das ruas Maranhão e XV de Novembro sobre o córrego Cerradinho ou Fundo. Pela lei no. 55, de 30 de julho de 1920, denominou as ruas Ceará, Belo Horizonte, Minas Gerais, Cuiabá, Recife e Belém. Os batismos comprovam que a cidade fez-se de modo planejado 60 anos antes que Lúcio Costa desse a Brasília moderna quadriculação: pudéssemos transplantar Catanduva para Paris ou vice-versa, como sugeriu Allysson Mascaro, teríamos sido presenteados com versão miniaturizada da Ilha da cidade, em meio ao rio, na Rua  Paraíba, no antigo leito, mas na direção da 24 de Fevereiro, e de lá para cá, até a rua Amazonas. Paris não se mudou para cá. Pelo leito natural, incorretamente desviado, o rio corria até bem próximo da Rua Rio de Janeiro. Misto de clínico geral com formação de  sanitarista, Araújo, pela lei no. 60, de 31 de janeiro de 1921, encomendou estudo aprofundado dos serviços de água e esgoto, problema que se tornou dramático porque, além de cobrar taxa de esgoto em áreas da cidade não servidas por rede de transporte de dejetos, a atual administração multa de modo pesado quem  construiu fossa séptica há 25 ou 30 anos com a alegação de que elas se desatualizaram. Os prefeitos antigos faziam, os novos desmancham o que se fez, além de dormir, não em travesseiros perfumados de alecrim, mas em  pesadelos que cheiram a enxofre. 1920 foi o ano também de início da construção do Cineteatro República. Os dias da semana eram de muita faina e os finais eram de diversão que hoje seria talvez ridicularizada: nos Finados, o maestro Ruta tocava música fúnebre diante dos túmulos do cemitério por taxa módica, e nos fins de semana o catanduvense ia esperar o trem da Railroad procedente da Capital e, logo depois, assistia a um filme no Cine Central, ao lado do café da Marina.No dia 5 de setembro de 1921, o corpo de Domingos Borges da Costa, o Minguta, foi velado no prediozinho da prefeitura na Rua Alagoas. O poeta Martins Fontes, por esses dias, pronunciou palestra sobre a Dança. Onde ficavam a cidade proibida ou as filiais de Sodoma e Gomorra? Na Rua Pernambuco com a Amazonas, onde estava  o cabaré de madame Mariquita, mulher de grande beleza, alta, cabelos negros até os ombros e que fumava em público. Num cavalo branco, aos domingos depois da missa, ela passeava pela cidade e as senhoras distintas roíam os dedos de inveja e ódio. Uma pena que a nossa historiografia não se lembre de trazer para a análise de nossos fatos alguns acontecimentos internacionais, como foi a Guerra do Rife, no Marrocos, entre 1920 e 1926, em que  a Espanha apanhou feio dos berberes. Convido o leitor a assistir ao belíssimo filme O tempo entre costuras sobre a guerra marroquina, no qual, dentre outras coisas, poderemos nos dar conta de como as mulheres da classe alta dedicaram-se à costura do fardamento dos que iam morrer em nome do colonialismo quase que tardio. A Guerra do Rife talvez explique porque, no censo demográfico realizado por Araújo Pinto, o número de espanhóis na cidade (2060) era superior ao de italianos (1775). Melhor zarpar do que virar bucha de canhão.  

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