O Embornal

Aristides Klafke

1.

Não abro mão…

Se se trata poesia

Não abro não

Mesmo que feda

Mesmo que arda

Mesmo que fira

É meu vício

Minha pedra de vôo

dose diária de fel

Pluma em pleno vôo

Flecha no arco da mente

Abelha extraviada

Que faz de meu suor

Amargo mel

2.

Sim, disso sim, quero falar

Falar do último suspiro

Desta morte que é uma farsa

Abro mão da vantagem que levo

Desta mão que estendo agora

Quero fechar um pacto entre nós

Um verso furioso  de um lado

Você no meio e Eu do outro:

Pronto! Melhor romper então

O frágil armistício

Agora é só apontar

O poema  no ouvido

Puxar o gatilho, ouvir o estampido

3.

Cansado de discórdia

Concordo com o caos

E o progresso do absurdo

Chamo o certo e o errado

Para uma briga entre amigos

Dou em cada um   

Um puxão de orelha

E uma palmada no ombro

De despedida

4.

Sou parte dessa fábrica de significado

Que produz plasma para a arte da poesia

Mas a parte que me cabe

Joguei no lixo

E não me arrependo de ter jogado

5.

Quântica mal passada

Com Quasar ao alho e olho

É o que quero aqui na mesa

Quanta gulodice semântica

Para matar a minha fome!

 Meu quotidiano é  tão grotesco!

Meus gordos dias tão quixotescos

Minha pele chamuscada

Meu querubim depenado

Quiçá um poema quilombola

Um quilo de muamba da boa

Um segundo de silêncio talvez

Quem sabe dois minutos ou três

Ou quem sabe por uma hora

Numa catedral de papel

Homenagear a Quasímodo

E depois defecar cerimonioso

No quadro primoroso

Entitulado patologia da nação

6.

A feitiçaria tinha-me nas garras

Seguro, preso, domado

Eu não me movia

Simplesmente acatava

Mas minha sorte mudou

Agora a feitiçaria

Trovejando baixinho

Me tem solto, protegido

Como fumaça antes do fogo

Ansioso por combustão

7.

Este fumo que experimento extingue

O fogo que  tenho na mente

Apazigua a sede que me mata

E me ressuscita a cada tragada.

 Soluço como um recém nascido

Esta vida é uma ilha que me cerca

Por todos os lados,

 ( porous a porous )

Jogo meus dados no velho hábito

De só cultivar versos vazados

De zeros, xeque-mates e vertigens

8.

Hoje fui pescar

Nada mordeu a isca

Fiquei no barranco

Fisgando furtivos pensamentos

Voltei pra casa relaxado

Agora, com cuidado

Escamo a mim mesmo

9.

Sinto, Nonsense

Te amo Muito

Muito mais

Que a um santo

Muito mais, nonsense

Que a mim mesmo

10.

Nunca nao tente.

Tente, tente sempre.

Até o  fim da picada.

O inevitável

 Merece um afago

Um beijo não pode

Ser adiado.

E abraço nunca

É demasiado.

11.

Como cinza numa nuvem vermelha

Me derramo no branco de uma página amarela

Preta é a minha preferência derradeira

Verso nenhum me comove

Neste momento descolorir sentenças

É minha tarefa mais inequívoca

12.

Como uma nuvem cinzenta

Desenho-me em tua pele

Me salgo de reticências      

Em tuas retinas

De tua boca, amor

Desenterro meus óbvios

É isto é tudo que me resta

Deixa estar, deixa eu ficar

E tomar um porre de você

13.

Como uma nuvem preta

Passo em zigue-zague

Pelas lidas do dia

Por estas linhas indevidas

Só quero o fim do infinito

Quebrar a linhagem de brita

Vazar pela linguagem maldita

Desfazer o feito e fazer tudo de novo

Cruzar a luz do dia com a luz da noite

Chover na minha e em tua horta

Plantar sem demora erva daninha

No terreno minado da poesia

14.

Como uma nuvem negra

Crio imagens dissolventes

No copo roxo de vinho

Diviso uma cena que invoca

Meu gosto por tonterias

15.

 Metade homem

Metade cavalo

(Tenho  sonhado)

Somos dois em um

Ele, chucro

Eu, chucro dobrado

Centauro pra uns

Besta quadrada pra outros

Cavalgo em meu próprio dorso

Acordo dando coices

No lençol manchado de porra

Suado, dou graças a Deus

Pelo sonho sonhado

16.

Cortando mato com facão, com devoção

Metendo a enxada no barro pra construção

De uma outra estrada, onde eu possa dizer

aleluia, meu irmão, aleluia meu irmão.

Alheio às reciprocidades

cortando mato com facão

 Enxameado no barro abundante

Como um Adão desesperado

À véspera de perder a inocência

E aquele osso das costelas

Dizendo aleluia meu irmão, aleluia

17.

Exu xamba no claro de uma  noite de lua xeia

Xinga todo mundo que  não xamba com ele

Eu tomo nota e apago toda nota que tomo

18.

Água que move moinho

Também  move montanha

Vento que move montanha

Também move moinho

Pra voltar ao ninho o passarinho

move além das asas

O canto vibrante

E o biquinho

Eu movo o polegar

E dou um peteleco

Na mosca varejeira

Que acabo de matar

19.

Um busca pé aceso

Corre na memória

Em minha mão de menino

A caixa de fósforo

Fazendo festa

20.

Noticia: um martelo

Deixa de ser martelo

Por ter piedade

De toda cabeça

Que tem que bater

Martelo ter piedade

De cabeça de prego

É o fim da picada

Só em aforismo, ou na mente

De gente como eu, metade poeta

Metade demente

21.

Qdo o sol se pôr

Pôr-me-ei com ele

E qdo ele nascer

Nascer-me-ei com ele

Grudarei-me nele

Da cabeça aos pés

Plasma

Mente

Permanente

Mente

Até que um eclipse

Ou um solilóquio

Nos separe

22.

Um vagalume vagabundo

Virou estrela cadente

Agora é  brilho celeste no olho

De um vidente deslumbrado

23.

Abra o abacate

Que tens na cabeça

Depois abra o caroço

Do abacate no meio

De um pensamento

Para tua surpresa

Terás nas mãos

Um poemasomente

Semente

24.

A baba do caramujo

na pintura de Bacon

Me comove  enrabichado

Como um animal

Correndo em círculo

Ouroboramente

Mordendo a própria garganta

Aqui no Moma

como um animal

Na pintura de Bacon

Enrabichado como nunca

Pelo que não acho

25.

Todo conhecimento amealhado

Até aqui fica como sangue fora das veias

Melhor meter um sol nos canos

E ficar a ver navios

Na beira de um delírio que alimenta e que abriga

Que suscita no mínimo

encantamento pelo imperceptível

26.

Piraste Pirei, que curtição!

Pouco faço pra inspirar-me

Despiratar o pirata

Que que há em mim

Não vai resolver a  questão

Do ser ou não ser

Poeta ou piloto de avião

Piração ė um modo de vida

Teatralizar a emoção não traz

Nenhum sentido ao insensato

Que prevalece em nossa falação

Uniformizada, a palavra porcaria

se despe de significado, vira poesia

E viraliza na internet. Pura curtição!

27.

Morcegos arrasando com seus dentes

Vagalumes candentes todos em festa

Grilos na frequência de seus ritos sinfônicos

Gritos de mãe chamando os filhos de putos

Barulho melodioso do rio rochoso

E eu e um cão silencioso

Escutando besa me mucho

Como se fuera esta noche

A última  que não uivo

28.

Ato atroz de cada dia nos dai hoje

frivolidade, animosidade, falsidade

Nesta terra repugnante onde

 vermes legislam

Vermes judiciam

Vermes executam

O poeta, com parca artilharia

Num tapete verde e amarelo 

come diligente a bandeira do progresso

Come como cupim a constituição

 joga às traças o decoro que está em voga

Como uma lâmina corta uma a uma

 Todas as regras de conduta das instituições

E manda às favas todo inerte

Que não acata a luz dos sinos

Dos pirilampos, dos relâmpagos

E dos túneis vocais

29.

Vou bater na mesma tecla Q

Tenho batido desde Q

Aprendi a encerrar um poema sem

Mesmo ter começado

Vou bater de novo de novo e de novo

Uma vez mais meus ais eu deixo pra traz

Pronto! Vou-me agora.

Por Q meu ponto já foi batido

30.

Prazer inusitado não se traduz

Ler Drummond em espanhol

Em dia chuvoso e frio,

é o que faço, para curar

A preguiça

O prazer é redobrado

Como chover

 seco no molhado

O prazer é redobrado

31.

Assentada

No ramo do cedro

Uma rolinha

Olha-me atenta

rola os olhinhos

E pisca-me com graça

Eu rio

E sigo meu rolê

Fora  da trilha

Cantando uma canção

Dos Rolling Stones

32.

Um Deus, que somente se manifesta

Em forma de fogo, bateu em mim.

A ele me apeguei.

Apaguei da memória as velhas crenças

E passei a ser a Sua  brasa

A Sua labareda violeta

E sua presença unipresente

Incendiária

Um presente primordial

Que me deflora e me consome

E nem bem sei

Como Ele se chama

33.

No corpo de um poema

Só o inexistente

Pode ser postergado

A palavra que fere

(que corta, degola, incinera)

Deixo ao porvir

34.

Um disse que disse

Sem fim meio ou começo.

Babelicamente reconheço

fumar um cachimbo com pólvora

Empinar papagaio sem vento

Evocar  encantos e  tormentos

São coisas que faço quando me canso

De limpar de par em par

A janela de um poema

Fechado em si mesmo

35.

Ando dando tempo ao tempo

O tempo gosta de ser dado

Mas eu gosto mesmo

É de jogar dado e dardo

Ao mesmo tempo tendo

Como alvo o branco

Que dá no pensamento

36.

Um caramujo

Uma lesma

Um vulto de vírus

Uma carcaça animal

Uma pena, um prego, um serrote

Uma garrafa vazia, um espelho, uma faca

Uma mesa de ferro, uma cadeira de palha

No museu de meu inconsciente

Um enigma, um anátema

Uma natureza morta –

E já se finda meu expediente

37.

Entre encantar uma pessoa (em silêncio)

Ou uma serpente (em silencio)

Encantar uma folha em branco (em silêncio)

E Guarda-la num cofre (em silêncio)

E deixar que o silêncio fale por si mesmo

38.

Na memória  de meus lábios

Uma flauta  sozinha toca quando venta.

Na memória de meus lábios

Orixás tocam tambor com os dentes

Na memória de meus lábios

Um Poeta murmura ladainhas homéricas para ninguém

Mas é a voz de uma pulga que fala mais alto

Na memória de meus lábios

A voz de uma pulga que brinca de pula pula

no canto de minha língua

39.

Tudo azul nas margens de meus olhos.

Nada amarela-me hoje.

Tô neutro,aclimatado.

Nem mesmo o arco íris nesta tarde me comove.

No horizonte saúdo o prenúncio de tempestade.

Tiro -como o saudoso poeta – ouro do nariz

E espirro versos ressequidos

Pra bastardos e camaradas

40.

Um corpo só osso

Sonha a minhoca

41.

 Na língua dos pássaros – assovio

Na língua dos répteis – boto fé

Na lingua dos insetos – viajo

Na dos peixes – nada faço

Na dos anjos –  mordisco

Na das múmias- belisco

Na dos antepassados: ladro

42.

Tempo: nem bom nem ruim

Tempo de amar a falta de tempo

Sem reclamar, com calma, com contentamento

Tempo de botar na rua o bloco da lama

E deixar o bloco rolar. Tempo de rebolar

Dar piruetas, salto mortais,  voltar ao ventre.

O tempo não é bom. O tempo não é ruim.

Não passa de uma palavra maltratada

E qdo passa, só aos Imbecis intimida

43.

O melhor de mim

Aqui ofereço.

 Tenha- me.

É o meu silêncio.

Abuse dele. É todo seu

Tenha-o. Está em  tuas  mãos

Por ele, provoque tempestades

Revolta em copo d’água

Arrepio em corpo frio

Dilúvio  em boca áspera

Depois silencie de novo.

Para passar o tempo

Dê murro em ponta de faca

Apronte, desobedeça

Ignore tudo que não subverta

44.

Às margens do rio Tietê

Dispersado me encontro

Como um vírus feliz por ser vírus.

Desenho no mapa da cidade minha presença.

Do outro lado do rio, uma criatura

Se alimenta de um despacho.

Contemplo a montanha de detritos

Que cresce ao meu lado.

Estou apertado, abro a braguilha, mijo.

Mário de Andrade chega de mansinho 

se aproxima de minha orelha

Murmura um verso em Armênio

E desaparece na neblina .

Qdo acordo, sou um outro, mais aliviado.

45

A sensatez dos sentimentos não sentidos

E os  sentidos que advém

Da falta de medida das coisas

Até que seria bom para a sua e a minha poesia

(mais-do-que-tudo) jubiloso

Um ato bem-vindo, um escândalo fugaz

46.

Toca-me o ombro

Uma mão invisível

Toque de carícia, leve

Acolho o arrepio

O afago me põe excitado

E masturbar fica inevitável

Animal dócil que sou

ponho-me a lamber

A  mão invisível

E a mão invisível passa

A escrever este poema

Que recusa a ser terminado.

47.

O poeta parou no meio do poema porque sentiu

Que gerava um texto imbecil pentelho e boçal

Um empecilho…Para o bom implemento

Da imagem que cultiva,  a de pária marginal.

Nada de gênio de segunda ordem

Quer ser sem igual, obstinado

Quer o pronome que cria caso

Para justificar a crença que tem

No poder radiante que advém

Dos quartetos e das redondilhas

Que comete fora de hora

Que comete incendiando  instantes

Que comete caçando rimas

Que comete comendo sílabas

Que comete matando víboras

Que comete mostrando o pau

48.

Aperto minha mão e digo

 Irmao,  deixe de ser assustado

Pense nos benefícios  da solidariedade

Entre anjos  demônios e outras entidades

Busque uma comunidade

Que te reconheça

Como um expatriado

49.

 Nuvens navegam nas veias

O universo pulsando entre aspas

Os cotovelos batucam nas estrelas

Debaixo das unhas a terra é um tesouro

E a poesia, meu amigo

É uma injeção de pólvora nos olhos

A estupidez humana sai de graça

O sonho do verso livre, meu amigo, um pesadelo feroz

O trem pra passargada já não sai

E suspirar,  já não me deixa ser preciso[1] 

50.

Posso até perder tudo que tenho amealhado até aqui

Até os versos que me glorificaram no passado

Só não quero perder é esse  jeito grave que tenho

De acolher de braços abertos

Onomatopeias,  dicotomias… e nem ficar corado.

51.

Minha  poesia

estremecida, prematura, esmaecida

Acaba de pousar

No campo florido de uma pintura sem figura

Nascida das mãos de um desconhecido

Que a pinta sem pé nem cabeça

Poesia só tronco

Sem nenhuma raiz

Recém nascida,

Dolorosa e abstrata

52.

Quero morder tua língua

Vou fazê-lo agora

Estique-a pra fora

Estatele os olhos

Diga Ah! E deixe

Que o significado de minha mordida

Amplifique a nossa fala

E jorre como lava

No céu de tua boca

53.

Espatifado com Amália

me vem um fado no radio

E me apunhala por dentro

De onde um poema sangrando

Nasce prematuro de repente

O qual chamarei saudade

54.

Canto no alto mar

  • seria de Sereia?
  • Que encanto! Que encontro!
  • Um desalinho…um descaminho de vento
  • No alto mar de dentro
  • Onde Inevitavelmente  termino
  • o que nem bem começei

55.

Pólvora nas artérias abertas de um livro abstrato

Um quadrado inadequado que vira a poesia

De bruço e a deixa de lado

Um volumoso vomito ocorre

na mais perfeita desordem que

a periferia que me circunscrita admite

Agora vem o Canto do galo

Estou me  lixando pra alvorada

Das barbaridades que invento

Só espero que algumas amanheçam

Repletas de nuances e predicados

56.

Não basta dar pontapé na semântica

Violar a gramática

Fazer gato e sapato da ortografia

Enaltecer a febre poética da pornografia

Não, um poema não fica bem de ponta cabeça

Pra satisfazer os desejos libidinosos do poeta

Que tem a garganta entalada de versos canônicos

E ri de quem dele pede compostura

O poeta do qual falo não quer contrair os lábios

Para não mostrar os calos

Que lhe crescem na língua

57.

No meu meio

Pra dizer a verdade

É preciso perder a razão.

 Mas no meu meio ninguém

Quer perder a razão

Todos estão satisfeitos

Com o dito pelo não dito

58.

Brinquedo do poeta

Que não brinca em serviço:

Pegar uma pedra

E lançá-la na água

Para que resvale

Repique varias vezes

Antes de ir pro fundo do lago

E ficar lá para sempre

Virada poesia, descaminhada e feliz

59.

Bebo leite num chifre de touro

Bebo inteira a via láctea

Num transe poético

Fico bebado de estrelas

E completamente nu

 mamo-me todo.

60.

O poeta malabarista

Dá um rodopio e joga aleatoriamente

Algumas palavras no ar que outro poeta recolhe

E põe num  livro que não existe

Depois pega um fiapo de vassoura

E palita os dentes dizendo que nada

Tem a dizer sobre isso, nada, simplesmente

61.

Na biblioteca, esta tardinha

Esbarrei-me com o Poeta Stephen Crane

Disse-me que num deserto

viu uma criatura

Nua, bestial…ali no chão

Segurando na mão

O próprio coração…

o qual comia, Devagarinho.

“Isto é bom de comer, amigo?”

“É amargo, bastante amargo…

Mas gosto disto…isto é o meu coração

É amargo mas é

O único que tenho”

Como um porco acossado

 Torci o focinho.

62.

A alvorada avançando lentamente

E letalmente a poesia vai me  avacalhando

Momento a momento, no valha meu Deus

No nossa Senhora, no virgem Maria

Começo o dia mediando demências

 Valha-me Deus, nossa Senhora, virgem Maria

Valha- me a luz que vem do firmamento

O brilho que um dia pus dentro de uma birola

Acabo de dar cabo à um antigo lamento

Que me cobria de saudade

Da cabeça aos pés

Como no manto que agora decoro

Num guardanapo manchado de ketchup

Num pub de Manhattan

63.

Prazer corporal, paz mental

Contar e nomear estrelas

Meu Lazer predileto

64.

canto de pássaro

E canto de anjo

Ensimesma-me na alegria

Que cada canto revela

Faço cálculo de quanto

canto ouço todo dia

E Cada cálculo que faço

Cancela a dívida que tenho

Com a palavra harmonia

65.

Asas, uma branca

Outra preta, batem

no meu peito

Num ritmo candente

Inflado, Eu bato palmas

E altivo alço vôo

O vôo não pode

Ser interrompido

Pausar ou posar

Não vai ser possível

A bateçāo que continue batendo

66.

Sonho que a cidade se incendeia

Acordo… A cidade continua queimando

Ardendo, eu durmo de novo

A cidade, incandescente

Se ilumina em meu sonho

Eu finjo que durmo

67.

 As palavras estão vindo, revoltosas

Chegarão a qualquer momento

Estão vindo e trazem no bojo

Lâminas explosivas, cacos de vidro.

Revoltosas, as palavras-sementes

Prontas pra semear significado

No campo minado destetexto desleixado

 Estão vindo lentamente. Psicografadas

Chegarão a qualquer momento.

 Mas paciência , é um longo caminho[2] 

68.

Num canto do restaurante

O poeta trabalha seu poema

Trabalha bebendo o momento

Enquanto come omelete com cebola

 Emocionado, um tanto contente

Escala Everestes, cruza Saaras

Muda a linha do horizonte

No final da noite

Recolhe seus arrotos

E vai embora declamar

Seus poemas etílicos

Pras  paredes de sua casa

sempre atentas ao que ouvem

69.

Só quero ser um poeta acrobata

Um domador de feras

Um engolidor de fogo

Ou simplesmente um palhaço.

Neste circo em que vivemos

Não da pé ser espectador

70.

Para manter o coelho correndo

Peço mais um conhaque

Para seguir nesta estrada sem nome

Que dá na boca do Lôbo

71.

Acamado. Acalmado.

 Acometido pela picada

Da poesia concreta

 Venero o veneno

Que não me mata mas fortalece o gosto

De beber Coca-Cola

E comer hotdog com quiabo

72.

Desde que nasci

Só quero mesmo

Nascer de novo

73.

Volta Seca avolumado no speaker.

Um cangaceiro a todo vapor

Cantando no Time Square

Como pode uma coisa dessa?

É o sertão virando mar

No coração de New York ?

74.

Abril não é cruel não, poeta

Cruel é você que abre pedra

No mês de abril, uma a uma

Pra ver se encontra

Dentro de alguma

O seu caminho

75.

Eu como exílio

Eu vomito exílio

Eu exumo-me todo dia

Eu bebo de meu próprio sangue

Eu sei que um dia eu vou ter um troço

E qdo tiver, o troço vai ser

De pura exaltação

De fumo sexo e poesia

76.

Nem contra

Nem a favor

Da corrente

De ar.

Corro

Sem ter onde

Chegar.

E corro

Pra ficar no mesmo

Lugar.

Por um segundo

Sem respirar.

Sem piscar.

Levitar é um vício

Um tanto virulento.

77.

Acabo de dar cabo

À velha treva

Que me cobria

Da cabeça aos pés

Melancolia, melancolia

Aquelas asas, minhas preciosas asas

Retorne-me-as, elas ainda são minhas

Estou Precisando muito delas

Voar é preciso… sobretudo

#se o chão é pequenininho#

Vivo dizendo-te,  melancolia

Mais uma vez, mais uma vez

Tudo o que não preciso dizer-te

78.

 O diabo é que gozo

Com os poemas dela.

Me lambe as orelhas

Me lambe as virilhas

Me lambe esse desejo

De viver a minha realidade

Como se fosse um soneto

De Hilda Hilst

79.

Metade de meu coração surfa

A outra metade rema

No fundo, eu só contemplo

80.

Todo osso tem cara.

Caroço de fruta tem cara.

Pedra, soluço, semente.

Poema tem cara de gente.

Quando o sol nasce no poente

Eu viro a cara pra nascente

Conto até sessenta e seis

E  como um demente

Volto a encarar o sol

81.

Com asco

Vi um cagado

Engolir uma enguia

Com gula

Vi a enguia

(Ao ser engolida)

Engolir meu poema

Daí que resolvi

Escrever outro poema

Contando o que vi

82.

Tenho dito redito e maldito

Que tenho tido medo de ser

O que Eu não tenho sido

Oh, meu Deus!

Esse medo acaba de acabar.

Digo então o que há muito

Queria dizer: conheça-te a tí mesmo

como a mim mesmo

conheça-te por inteiro (abuse do espelho)

E cuide melhor dos cotovelos

83.

Cama, colchão, lençol, travesseiro

E um corpo formando camadas de sombras

Que se cristalizam a cada sonho que sonho

84.

O pinto mal sai da casca

Cacareja

A galinha não acredita no que vê

Regozija-se orgulhosa

E cacareja também

85.

Entre flores e espinhos me vejo

Um grilo canta pra outro grilo que canta pra outro

Criando um sistema onde uma abelha furiosa

Me pica a orelha e me deixa surdo

Como um Beethoven

86.

Já vem raiando o dia

Raiaremos com o dia

Tudo na mais perfeita algaravia

Entre os fatores das alegorias

Raiaremos, raiaremos

E numa sombrinha metafísica

Descansaremos nossos membros

Em Nossos olhos

só brilho, só vendo.

87.

Do espelho que me olha

Erradicada foi a fuligem

Ficou claro o enigma

Do fogo na mão e da pólvora

Que acumulo na pele

Mudo o espelho de lugar

E me comovo ao lembrar

Que um dia de copo cheio

Salvei uma mosca de afogar

88.

Tenho tido tanto desencanto

Com o universo da poesia

Que nem quero falar disso

Desencanto de ordem estratosférica  

A maioria tocante ao excesso

De simetria nos versos e antiversos

Entretanto me encanta

Cantar versos que só encantam

Ouvidos que não estão me ouvindo

89.

Como d’antes sempre tergiversante

Em círculo espiralando sobre as vísceras

De um poema de Cabral.

Estou com sede de seca

Sede do que é Visceral.

O meu nome não me foi revelado

O que uso é provisório

Severino soa melhor que Aristides

Sobretudo quando um rio

é o que se ouve

Eu como um urubu – ainda cru

No café da manhã

E da asa pego uma pena longa

Pra adornar a aba larga

De meu chapéu de palhaço 

90.

Todo dia falo que não vou bater

E acabo batendo.

Bato boca com o vizinho

Bato prego no teto e no assoalho

Bato perna à tarde toda

Bato no peito como um primata

Bato pinel em nome da paz universal

Bato pandeiro pra por lenha na fogueira

E bato punheta quando poeto

91.

Verdadeira bruxaria

Língua de vaca bago de touro

Chifre de bode pé de coelho

Joelho de porco rabo de macaco

Olho de arraia crista de galo

Perna de sapo leite de moça

Um banquete com um poeta animal

Pra comemorar o encontro casual

Com outro  poeta animal

Depois da ceia o beijo de bruxo

nas patas do anfitrião

Que soletrou num sussurro o

que restou do encontro: ossosossos

92.

A pedra e a pedreira vieram me visitar

Servi água gelada falamos da família depois

Jogamos xadrez sem trocar uma palavra um olhar

Saíram tarde como chegaram em silêncio

Aqui onde moro só o tédio não é bem vindo

93.

Cartões de Natal recebido:

Num, um elefante salta um riacho

Noutro um gato voa no abstrato

Alguém mandou um sapo de fraque

Outro um macaco vestido de palhaco

Outro um dragão mordendo o próprio rabo

Também recebi uma  coruja

De três olhos

E uma pomba carregando um ovo no bico

 Retribuí a todos com um desenho próprio

Uma mulher sorridente

Debaixo de  uma macieira

Amamentando uma[3] cobra

94.

Ruminando urino num formigueiro hipotético

Num campo magnético planto pleonasmos

E rasgo a fenomenologia que me desorienta

E me desconcerta nesta tarde chuvosa

As Formigas me amam de qualquer jeito

Às vezes até me ajudam trazendo letrinhas

Que enfileiro uma a uma para desenhar um poema

95.

O músico e o poeta fizeram uma aposta

Quem piar primeiro paga o pato

O tempo acabou, nem um nem outro piou

O pato ficou no fiado

O músico foi soprar sua flauta

O poeta foi tratar o seu gado com sal

Eu testemunhei o fato e nada falei

96.

Atrás do criado mudo um espelho

Num lado do espelho um coração de veludo

No outro lado um martelo e um cutelo

Atrás do espelho e na porta do criado mudo

Uma bandeira verde e outra amarela

Eu congelo a cena e mudo de ambiente

97.

Papo peludo entre dois poetas do milênio

pulgas pulando soltas na linguagem secreta

percevejos pululando pelos entornos da fala

Um cofia o queixo outro coça os pentelhos

Eu faço de conta que sou uma sereia

e canto o meu canto quieto no meu canto

Quem não quiser me ouvir

Que tape as orelhas

98.

As pedras não me amolam

Não me molestam.

Não me atrapalham.

Servem-me de caminho

Quando dou uma de Cristo

Caminhando sobre as águas

Que inundam meu sonho de rimas

E sargaços milhionarios

99.

Orvalho: nada assemelha-te-a-ti

A ti Nada se compara

Em ti nado de braçada

Vou de vento em popa em tuas gotas

nado em teu brilho como se nadasse

No infinito lago do nada

100.

Pronto pra ser mordido

Mastigado, engolido, digerido

 vomitado, cuspido, defecado

Meu coração de couro curtido

Artefato raro de grosso calibre

Pode ser encontrado (em liquidação )

Em qualquer supermercado

Meu coração fresco, bem engodado

101.

A poesia cannabis

 fetiche da tribo canibal

Trivialidade magistral

Tocha bruta que ilumina

E desata nó astral

De quem se habilita

A declamá-la carnal

102.

Minha fome é de guerrilheiro

Entrincheirado

À espera do inimigo.

Fome de combate, de combustão.

Fome de servir de bucha de canhão

Minha fome é de soltar rojão

Cair de boca, comer do pão

Que o diabo comeu .

No fundo minha fome é de ser

somente

uma semente

por exemplo

de maracujá.

Mas tenho sido pouco, muito pouco de mim.

Tenho estado em mim, é verdade

Mas só brevemente

como um guerrilheiro entrincheirado

Com saudade do inimigo

103.

Ratos ratos ratos

Como eliminar os ratos

De meu sonho recorrente?

Como viver numa casa infestada de ilusão?

Rôo as unhas

O sol se põe.

Chego à conclusão que

Roer um osso ou roer um poema

Dá no mesmo.

A madrugada chega

e acabo rindo de meu riso

104.

Existe em mim um endereço duplo.

Nele vive um menino cujo olhar é de arrepiar

Tem cabelo de porco espinho, orelha de ovelha

Aves de rapina fazem ninhos em seu olhar

Siameses, gorjeamos um pro outro

Eu e o menino em mim…

moleque travesso

Que não para de me imitar

105.

Vacilo

Perco

O acento.

Não sento

Qdo outro

Quer sentar.

Fico de pé

Não canso

Descanso.

Obediente

Acato

O acaso

Que me cabe.

E assim

Displicente

e nada palavroso

ofereço primeiro

O meu alento

106.

Dignidade que um dia significou divindade

significa hoje indignação … mas, e depois?

Depois… é chamar de Integridade um cão

E de aberracão quem se considera dono dele

107.

Choveu hoje em minha horta

Centenas de cantos de Pound

Caíram de algum céu distante

Adubando meus canteiros

Versos antenados, abastecidos de esterço

começaram a brotar

e não pararam de brotar

Como numa fábula de Dante

108.

O galho a que me refiro não provém de tronco  nenhum

É um galho que vem com o vento e com o vento desaparece 

Só pode ser quebrado quando entra no campo da poesia

109.

Saudade do não vivido

Da marmelada com malagueta

E do uso da telepatia

110.

Abundância de brevidade.

Redundância de silêncios.

Barulho que conforta não enlouquece

Aplauso ao não da negação do fim

Próximo ato :  Suicídio do sim

Sem sombra de dúvida

Palavras que servem de rodapé

De um poema não falado nem escrito

111.

A primeira palavra que  anotei  foi carvão.

Sonhei com fogo alimentando fogo. 

Carvão cumprindo seu papel de carvão.

Acendendo fogo no meu coração

coração de chocolate

 recheado de aguardente

O único  coração que tenho

112.

Levava vida de vira lata

Levava,  na vida primeva, sem coleira

vida de bastardo sem carteira

Fuçava poesia nos becos

Revirava os cantos mais remotos da cidade

Em busca de alguma beleza.

A vida de vira lata Pouco mudou

Hoje fuço poesia nas bibliotecas

Reviro os lixos digitais do planeta

O anonimato me redime e me alimenta

Me viro como posso para me manter no Spotlight

Alugo um vagalume pra fazer as minhas vezes

113.

 Gata preta com dente de leite

Na foto usando colar de contas africanas

Tem Macunaíma e o Grande Sertão Veredas como cama

Uma lâmpada de Aladim na cabeceira

Pilha de papéis,  desenhos a carvão

 fita do senhor do Bonfim,  caixa de fósforo de Paraty

Pinça de cirurgião, marimba, baganas

Mas sobretudo é do olhar fulminante da gata preta

Que queria falar…ressaltar a alminha

Sempre palpitando nas unhas

114.

A tua boca é um templo sagrado

Tua língua um dragão faminto

E o teu nome, amor, ainda travado

Em minha garganta.

Quimera… te engulo sem hesitar.

O que pensar do teu jeito de ser?

Quisera  ter a tua estatura.

Tem razão quem te chama de vida louca

Eu que  adoro ver o teu nariz

Sempre empinado contra o meu

115.

Uma voz vibra alta, aguda

Vem do peito, inflamada

Mordida § suspeita

Estupenda vibração nos ouvidos

Então, abrupto, nas orelhas, irrompe

Um silêncio

Que dura uma eternidade

Acima de tudo

Um ventríloquo

Louco para entrar

Em cena

Apresenta num ato seu truque

Agradece

E como um cometa desaparece

Atrás de mais um truque

O público fica a ver navios

No epílogo, um náufrago aparece

Voando no palco

116.

O sol sozinho não faz um verão.

Uma andorinha, sim, e o faz como ninguém.

Pronto, revelei um segredo.

117.

A lua – para ser sincero- precisa

Ser imprecisa. Precisa se elevar

Acima da própria esfera.

Nela medito. Ela, recíproca, levita-me

E, maga, numa frase, comenta, hipnotismo

É o que tenho de sobra

Só os imbecis se impressionam

Com minhas fases

118.

Acendo uma vela comprida

E a ponho frente ao espelho

Sem piscar me espreito

 Assim me caço

119.

Verbo doce: ornar

Verbo amargo: amar

Verbo  salgado: desatinar

Paladar, se verbo fosse

Azedo seria

120.

Dizem que paraiso não tem preço

Palavra sem preço, sempre de graça

Paraíso é Palavra voraz, etílica e tirânica

Um troço sem equivalência

Um quebranto, um quadro que pinto

Emolduro e penduro na parede

Uma paisagem que abrange

De ponta a ponta

O que nem a imaginação alcança

121.

0 0lho que como hoje

Tem gosto de polvo

Tem gosto de olho de abelha

Lembra olho de louva-deus

Olho ao alho e óleo

Com brócolis e sarcasmo

122.

Sonho Um ser escamoso, imenso e sebento.

Toma posse de meu corpo, se apodera de mim

 Não  ofereço resistência.

Mas arquiteto uma fuga

Uma escapada do ser tenebroso

Quando, num templo de ossos

Deparo com a alma ( inclemente)

Saindo-me pela boca

Mas acordo à tempo

De retê-la, etéria, intacta

na memória do sonho ardiloso

123.

Para escrever um poema da pesada

Arroto,  peido,  vomito, urino, defeco, escarro.

É preciso estar leve, suave, maneiro, aliviado…

Para folhear o Anjo Augusto, e meditar no Eu.

124.

Foram anos frutíferos, repletos de lampejos raros

Com as portas e janelas escancaradas para o infinito

As portas e as janelas do corpo

Sem trancas, tramelas, visores

Compilando uma artilharia de poemas anônimos

Para abolir a noção do tempo

125.

Com meias velhas o menino faz uma bola

Com meias palavras  também eu faço uma bola

Depois, saltitantes, brincamos, eu e ele, de fazer gol

  • no grávido terreno da memória

126.

Há uma história doce, deliciosa de se ouvir

Mas não acho palavras pra contá-la

É a mentira que a vontade conta pra saudade

Dizendo que o desamor verdadeiro

É o amor veemente que se tem

Pelas aparências de um beijo roubado

127.

Qdo te vejo vejo felino

Se vejo um gato é você quem vejo

Esse meu modo de ver

(Direto, lânguido, profano)

Tem a ver com o tesão por você

O gato pra você é tudo

Também é tudo pra mim

Somos dois gatunos no gramado

em cima do muro, no telhado

 amantes inveterados

No cio celeste e…em qualquer lua

No urro de prazer

128.

Passarinho passeio pela manhã

Abrindo o bico freneticamente

Piando poeminhas pirilampos

E comendo formiguinhas diligentes

A tarde chega, traz a penumbra

Carregada de relâmpagos

E volto pro ninho

Um pouco molhado

Ninho onde choco pensamentos

Um tanto primevos

E cultivo a noite fria

Como se não houvesse

Nem hoje nem amanhã

De fantasias fantásticas

Tão comuns nesta hora

meus fantasmas e eu

Estamos fartos de ocupar

129.

Cão caos e quicar são

As palavras que me vieram qdo acordei hoje

De um sonho cheio de violência e titubeios

Com cão fiz um acordo: ser parceiro nas caçadas

Com caos acordei: ser sinônimo um do outro

Com quicar evoquei acordos não cumpridos

E comecei um dia novo

Livre da inocente mania

De favorecer as relações incongruentes

130.

Passo dado ao largo do dia

Não é passo dado em vão.

Cada passo, no vago, é uma dicção

Uma forma de abismo, um fonema.

Exemplo disso é o passo dado

Em direção contrária – ao ocupado

Pela imaginação. O paço. O poço.  

Quando a indagação leva

Ao ponto de origem.

 Onde a poesia se vê redonda 

em sua redondez mais

Cativante – em sua hora de ser cupido

E mais adiante ser um anjo

131.

Um desagregador de significados

Um eunuco de enciclopédias

Um investigador de línguas esquecidas.    

Um ser de sabedoria desperdiçada

                  (Cheio de selvageria)

Um condenado à morte que acredita

Na absolvição – que um poema

O salvaria na hora da execução

Um vidente vidrado em si mesmo

Um crente que não crê em querubins

um mercador de fantasias e despachos

Não seria o poeta aquele  sujeito

Que chamamos de o louco do quarteirão?

132.

Nada

        Das pedras

                  Em minha volta

                                      Espero

Sobretudo Nada espero

Das que nunca deitam

E rolam

           comigo

133.

O sopro secreto dos ventríloquos

Deve ser decifrado agora não depois

Levar em conta o tempo que zune veloz no peito

E acrescentar a falta de ar que existe no planeta

O infinito sopro dos ventríloquos não

Começa nem termina num poema

Bom se dar conta disso

antes

e não depois

134.

E agora José?

Vc q viveu correndo atrás de rabo-de-saia

Vai agora José correr atrás de quê?

De rabo de foguete? Do próprio rabo?

Vai se curvar para ser Cruscificado

Pela falta de fé nos próprios  poemas?

135.

Primeiro me pergunto

O que não tenho feito

Que deveria ter feito

Depois me pergunto o que tenho feito

Que não deveria ter feito

Eu não tenho cavoucado nenhum chão

Semeado com os pés alguma semente

Arrancado pelas raizes as ervas que me danificam

Não tenho arremessado poemas pela janela

Nem caminhado à beira de  precipícios

Tenho no fundo dormido no ponto eu sei

Daí que no fumo e na pimenta tenho exagerado

Numa firme resistência a vermes vírus e versos impertinentes

Cagado e andado pra prêmios patentes e  reconhecimentos

Só quero inaugurar um novo dia botando reticências

Numa nota breve que me apresente grandioso

Como um suicida negligente

Produto do povo, pavoroso

Como um ovo só gema

Como uma gema sem ovo

136.

Sonho com Kafka

Estamos estampados num pôster

Ele pede meu chapéu emprestado

Mas não tenho chapéu pra emprestar

Empresto-lhe então minha cabeça

Ele promete devolver-me

Assim que sonhe comigo

137.

Caminho por uma rua do Brooklyn

( parada, onde moro)

Quando uma figura imponente

Pede-me fogo

  • reconheço-o… é Batman em pessoa!  
  • Passo-lhe o fósforo
  •  ele acende seu bat-baseado
  • Diz thanks
  •  dá-me um bat-tapa nas costas –
  • e já chapado
  • voa de volta pra Manhattan

138.

O osso da poesia é buco – duro de roer

Não é mole não – o ofício da poesia

Foi o que disse – na sua lânguida língua

Um cão apetitoso, amigo tinhoso

Disse e voltou a lamber o pau com gosto

Pau duro e delicioso – disse de novo

Como um osso buco

Como um poema porra

Pingando pingando

139.

Duas palavras que não me deixam em paz

Eureka + Zero

Eureka me bate com vara

Zero me abate com zelo

A elas declaro guerra!

Até que uma ame a outra

140.

Olhe uma flor

Toque nela de leve

Diga baixinho

Clorofila, clorofila.

Deixe a flor

Como a encontrou

Diga a si mesmo

Que acaba de ter

Uma epifania

141.

Largo mão da mania de contenção

deixo o medo no banho maria

o sol que entre potente

Em minhas veias

Irrigando de luz a pele

Exposta ao esplendor

Com uma só mão

Meu coração aplaude

Na palma da outra mão

Vejo um mar ansiando

Em cada linha

Por maremotos

142.

Hora de derramar o leite

O leite precisa ser derramado.

Hora de rodar a bahiana

Ela precisa ser rodada.

Hora de desautorizar a autoridade

O diabo precisa ser gozado.

Hora de acatar a magia da geometria

E acender o estopim da simetria

Sim, o estopim da simetria…

E de apreciar a demolição

143.

Com paciência repouso minha cabeça

Num forno de lenha que acendo bem cedo.

O fole é ativado a fornalha é perfeita.

Minha cabeça amolece sem demora.

Mole mesma a ponho numa bigorna

E com uma marreta fina a forjo de leve.

Moldo-a com a destreza que me é nata

De modo que  volte a vociferar as indecências

Que me falham na memória.

144.

 Ouço que uma pitada de voodoo

Não faz mal a poema nenhum

Nem a ninguém munido de fé

Posto que todo mundo tem medo do além

Uma pitada de voodoo serve para temperar

Os prazeres da leitura ( suave, suave)

E dar gosto ao mais insosso dos livros

Vou tentar, depois conto no que deu

145.

O cão que vive em mim

Exige seriedade, cobra atenção redobrada

Atira longe uma palavra-graveto

Para que eu a pegue ainda no ar

Mas mordo a língua

E deixo que caia onde cair

O cão  passa horas assim

Jogando palavras-gravetos pra mim

E eu passo horas assim

mordendo a língua com jeito

Sem intenção de parar de morder

146.

A primeira palavra

não foi mama, não foi papa

foi, se não me falha a cachola, dada.

A segunda foi ísmo

A terceira, porra, me esqueci.

Sei que insistir

Nas primeiras palavras ditas

vai ser em vão.

Fico então por aqui

Com uma derradeira:

Ilusão

147.

Nascer não foi bolinho

Foi um inferno  chegar à luz

Um pega pra capar

Um desapego.

Faltou água

Faltou luz

Mal aplicados foram os fórceps

Meu pai, o cirurgião, não conseguiu

Arrancar-me do útero

(Estava enlaçado)

A parteira foi chamada

E o parto consagrado.

Conservo no pescoço

A marca do cordão enredado

E na memória o choro incontido

Roxinho roxinho, que durou horas

148.

Acato uma dolorosa missão

Uma carga que carrego desde o ventre

Encaro a velocidade da vida

Com um certo desdém

É um rio seco que passa por dentro

Cheio de coragem eu amo a batalha que travo

contra o vício do sonhar acordado

Um prazer inocente de seguir

Remando contra a corrente

149.

Na boca do poeta

Até bosta de inseto vira poema

Palha vira fumaça antes de virar fogo

inferno vira matéria de ternura

saliva  vira lava

Como se na língua dormisse um vulcão

 O poeta faz de sua vida                Vadia vadia

um teatro de sombra

Por fim vira amante dos desencontros

Sempre mantendo firme

Os pés no campo minado

Dos sentimentos mundanos

150.

Fora de fuso 

Fora de hora

Fora de foco

Num mar de rosas

Não em vão

Afogo minhas mágoas

Depois afago as mãos

Arregaço as mangas

E parto para a luta

Armado até os dentes

Com a palavra

Abraço

151.

É entre montanhas que o imemoriável se revela

É no meio do rio que pedras desembocam em meus passos

Perfeitamente costurado está o espírito das árvores

Impecável o discurso inflamado do vento

E não é tarde para plissar o tecido que a tarde me oferece

 Posso ver o infinito dentro da caverna que me acolhe

Estalactite numa redoma, assim me encontro agora

Pingam de meus dedos letras de um idioma que desconheço

É aqui que a porca torce o rabo e o porco mete bronca

Com tanta amoreira, tanta jabuticabeira, tanta carambola

Eu mato o tempo alimentando  pássaros

Que morrem por um  espelho.

Algo primevo me enleva.

Sob um sol que se põe vermelho

Feliz,  sugo pedras de gelo

152.

Fórceps e forquilhas

Formas que me bifurcam

E me justificam ligado

Na calada de uma língua anfíbia

Língua Que falo grosso

Sobretudo

Quando silencio

153.

Porra etérea ! Efêmera!

Porra eletrônica, Eterna, Perene!

Porra de poema que não pode ser parido

Nem pode ficar remoendo por dentro

Passada a vibração, o poema relaxa

E  gasosa, gostosa

É a expressão

154.

Vida cachorra essa

Viralateando na ida

Na volta e nas paralelas.

Nuvem de sombra manchada na mirada

Nódoas à vista, pétalas nas retinas

Cacos de vidro na planta dos pés

E, sob os cílios, toneladas de palavras

A serem jogadas no lixo

155.

Embrenhado na mata e chove para o encanto dos cipós

Eu faço o meu inventário do que restou da queimada

Castanhas-do-pará, jeriva bacaba. Carvalhos-do-brasil.

Branco território de Mallarmé. Cheiro de vagina.

Café do mato. Bambu mirim. Ingá macaco.

Canela e sassafrás. Pau jacaré e pariparoba.

Arariba e cacau. Açaí, jacarandá, bananeira e molungú.

Embrenhado na mata e chove para o encanto dos cipós

Eu faço o meu inventário do que restou da queimada

Bucolicamente canibal, e um pouco alcoolizado

156.

Palavra de pássaro se cai na boca do povo

Vira sinfonia

Palavra de passista

Vira enredo de escola de samba

Palavra de político vira sabão

Já palavra de poeta

não vira nem desvira nada

Só arrima a dicção

157.

O escritor,  criado comendo miúdos

Cresceu comendo tripas, rim, fígado, coração.

Daí ter as vísceras comidas

Como matéria prima de sua criação

158.

Vive em mim um poeta morto.

Minha obrigação é  ressuscita-lo

 recompor o vate na íntegra.

Ardoroso, laborioso, tento, tento, tento

E não consigo. O Lázaro não se levanta.

Morto, então, que viva em mim.

E que viva como um fantasma

Só,  viajando no meu silêncio

159.

Espelho meu

Eu parto de ti para me ver por dentro

E quando me vejo

No fundo

Só quero parti-lo

(com murros, ganchos,  jabs)

Deixá-lo em pedacinhos

Como um peso pesado

No primeiro round

Nocauteado

160.

Avacalhar o verbo viver

Em todas as suas conjugações

Em todas as suas conotações

A vaca já foi pro brejo

O burro já deu n’agua

O papagaio  que soletre o próprio nome

Só a poesia passada move moinhos

Só a poesia futura move montanhas

Só a poesia presente move o medo

de erradicar da voz do poeta

Toda formartelidade

Que não seja obscena

161.

Como ando me perguntam com frequência

Canoando respondo toda vez e acrescento:

nada de remo, nada de vela, nada de corrente

…ou mesmo de água…

Ando simplesmente canoando neste chão lixento

 flutuando no fluxo de gente (circunfusa) que navega

Sem rumo no centro da cidade

162.

O nome dele: Paz

O olho que tem: de mico leão

Tem rabo de arraia

Tem dente de lobo

Patas de sereia

Orelha de pirata

E é mudo, nunca late.

Às vezes murmura

E quando murmura

Diz um segredo

Como um anjo moribundo

Com nariz de cão

É duro na queda, um monumento

Feito de pêlo crespo e imaginação

163.

Sou de outro tempo. Do tempo do onça.

Do tempo do pente e espelhinho na algibeira

Ter bicho no pé era prova de fé na vida.

Na escola palmada nas mãos e

Joelhos nos grãos era a punição para a falta de atenção.

Do tempo do “ou faz direito ou leva uma tunda”

Eu tinha tudo sob controle naquele tempo

Inclusive de minha sombra, e tinha,  como ainda tenho hoje

Um olho na poesia, e outro, na falta dela.

164.

Não pode ser um sonho

É realidade,  não fantasia.

Ter um amor secreto por labirintos

Ter Deus meio Santo meio Diabo

Estar num perpétuo rendez -vous

Com o monólogo de Hamlet

E no fim do dia  decidir ser

O que sempre foi

E ficar com a  meia verdade

Na ponta da língua.

165.

Depois de seis décadas

De dúvidas rugas e abluções

Me sinto finalmente preparado

Para ser um grão de sal

no mar morto

166.

Na manha esta manhã minha mão pediu-me uma luva

Para cumprir o seu papel diário de escrever o fato mais relevante do dia.

Concedi.

De luva vestida, minha mão escreveu:

fria, entramos numa fria!

Em seguida rasurou o que tinha  escrito

167.

Um xequexê é um chocalho cheio

De contas, contos e cantos

Feito de cabaça

Ou crânio de gente

Provoca arrepio na alma de quem o toca

168.

Finalmente

A fuligem

Erradicada

Do espelho

Serviu para clarear

O pensamento

Que omitia o obscuro

Como matéria prima

Da lucidez.

Não fui eu quem o disse

Um estranho disse pra si mesmo.

Por acaso, escutei.

169.

E o vento me levou ao cinema

Houve rasteira, tiros, facadas.

A prova do crime não foi encontrada

E o amor prevaleceu entre nós

(Personagens e expectadores)

E no final da película, sem pânico

O beijo foi roubado

170.

Rebimboca da parafuseta

Parábola da falha mecânica

Que o veiculo apresenta

No meio do nada.

Fala arejada entre entendidos

E paladinos de palimpsestos

Com a cumplicidade do poeta

A conversa foi rasurada

171.

Chove cânticos

Chove cânticos a cântaros

E vejo Pound repousando num ramo

 enumerando seus cantos…

É bonito de se ver, é bonito de se ouvir

 Encharcado por inteiro, esperando

que pare de chover

Ao lado de uma esfera transparente

Que move a redoma que é minha casa

E move-me com ela,

e move-me em círculos

cantando cânticos de Pound

Quando uma musica nasce

com o som da água entrando

Em minha cabeça

Com  pássaros sendo pássaros

E com Pound

Repousando num ramo, enumerando seus cantos

172.

Quanto à luz

Não ligo não

Pode ser luz de sol

De vela gerador ou fogueira

Pode ser de lanterna ou de archote

De usina ou Lampião

Pode ser da mente em ponto de bala.

De qualquer intensidade ou cor.

Só ligo quando a luz vem te teus olhos

Somente quando a Luz de teus olhos

Clareia os passos que dou em tua direção

Meu amor, Eu presto atenção

173.

Inicio a manhã escrevendo um sonho

No sonho perdi a noção de negação do não

E sua função de oposição ao sim

Meio dia e ainda estou aqui escrevendo

Este relato que não passa de uma nota

Que me lembre dos dias em que

Nada tinha a fazer com meus sonhos

A não ser poesia onírica e onanistica

Dos dias dedicados às farras e esporros

174.

Por mais que busco não consigo me alcançar.

Não sou como Pessoa  o que sou.

Fragmento de um ser extraviado

Nascido em prantos, asfixiado pelo próprio cordão

(Três voltas no pescoço)

Cresci apegado a dragão e moinho de vento

Hoje vivo aqui no centro de uma cidade lixenta  

E aqui na boca do fluxo de boca em boca

Recolho palavras ocas ditas nos bares e becos

Palavras gastas pra encher o tempo

Palavras vazias que .reuso

Para compôr textos herméticos, concretos y kriptos

(Como este que segue via telepatia)

E nisso me dou conta do calo imenso

Que existe entre meus dedos

Que seguram um lápis amarelo

marca universal – Série UNV24264 – Número 2

175.

Abro o bico

Quando um pássaro

Perde uma pena

A vida pede-me um tempo

Pra escrever um poema que cante

a liberdade de se tornar

Uma borboleta, uma ave, um Ícaro

o que se bem quiser… uma môsca talvez

É o que estou fazendo…

dando um tempo…

E a poesia, pouca e salobre

 Ameaçada de extinção

 Alçando vôo, sem direção [4] 

176.

No uso que faço do cérebro

Equiparo o sol nascente ao sol poente.

Entre um e outro

Usufruo de cada momento.

Nada ganho nada perco

Entretenho-me no meio.

Mas os anos me batem de frente

Carcomido mas íntegro e inteiro

Os encaro com mãos  pés e dentes

E deixo meu coração ser estrangeiro

177.

Minha vida é uma revanche

É como uma luta de boxe

Às vezes pulo nas cordas

Às vezes visito a lona

Mas sempre sou salvo

pelo gongo da providência [5] 

178.

Omulu, rodopiando, retrocedeu.

Deu a volta por cima

E voltou ao breu de seu hemisfério.

Nao disse adeus, não disse amém.

E eu, me vendo vendado, voltei a encarar a treva do dia.

Omulu, antes de ir, abriu a janela de sua vestimenta

Olhou-me firme nos olhos e ordenou: dance,rapaz, dance!

Dance, porque dançar é o seu alimento

O chão que desabe sob os teus passos…

E dance ao som de remotos desabamentos…

Desconcertado, dancei

-obaluaê!-

E neste barro cristalino

Continuo dançando

  • Axé, achei!

Porque Omulu assim me prescreveu

179.

Aposto um poema por outro

Que a métrica morreu de velha

Num dia como este – chuvoso…

Sem ninguém por perto

para enterrá-la, ou ressuscitá-la

180.

O artista corta uma árvore

 apara parte do tronco

Afaga seu facão

E põe- se a trabalhar em sua arte

“Tem que ter beleza…e ser funcional”

Qdo retorno, o artista, sorridente

Põe em minhas mãos a sua arte

“ bela e funcional…no rio na mata ou no mar”

Um remo, formato de lança !

Sem dúvida, um belo artefato…

Pode ser remo, pode ser lança

mas inexoravelmente

Uma fatia de árvore, agora

Num pedestal de bronze

181.

 Na mata atlântica

Agarro um relâmpago

E com uma só mão

O devolvo ao céu

Ainda ardente

Brinco de lançar pedras

Na poesia do lugar

Investigo a vida do morcego

Seu vôo, seu movimento, a forma das orelhas

Como chupa como morde  como acasala

De resto aqui na mata mato o tempo

Proseando com pássaros aranhas e insetos

182.

Contar que estou infeliz é demasiada mentira

Contar que  minha alegria contagia é muito pouco

Até que enfim encontro

No começo de uma conversa desmedida

O fio da meada para fazer alguma arte

e manter a sanidade ameaçada de caos

Faço então conta de feitos memoráveis

contabilizo monumentos não erguidos

E momentos de êxtases não  vividos

Tenho nomeado estrelas extintas

Negado valores a serem quitados

Cultivado amores que perduram (apesar de quebrados)

E tenho dado corda às horas prolixas e reticentes

Que tenho vivido sozinho numa casa cheia de espelhos

Mas finalizar um poema decente

Não tem sido de minha conta

183.

Abrupto que sou

Tava pensando em pôr

Um ponto final na lógica das ruínas

E devastações poéticas de minha língua

E voltar a ruminar pleonasmos em silêncio

Urgentemente preciso pôr

Uma pitada de eterno em cada vírgula

Para abraçar sem pudor

O efêmero de cada sentença

184.

Viajante costumaz, mas não mais.

Tres décadas fora do eixo, desguaritado

Autoexilado numa ilha-continente

A idade avançada puchando as orelhas

Deslumbrado na nudez do crepúsculo

Escutando a poesia de L. Cohen

Tomando café com um charuto a mão

Enquanto, a meus pés

Uma pilha de poemas descartados

Clamando por um fósforo

185.

Lendo lenda zen numa manhã úmida de verão

Lembro-me de uma que me foi dita

Por um curandeiro em minha infância.

Pondo a mão em minha cabeça o ancião

Disse que o paraíso está aqui dentro

Desfrute dele, ele é todo seu!

Deixe suas portas sempre abertas

Para que o inferno, se a ti chegar

Possa entrar e  sair livremente

De tua tua mente… perene

periférica, paradisíaca, potente

186.

Longe de tudo e de todos

Dou-me conta do lenga lenga da prosa de hoje

Diviso um déspota amparado por uma multidão

O eleito, o fascínora, o luminoso impiedoso

Pai de todo engodo, mãe de todo engano

Aclamado por um  povo que não quer

Ser dono do próprio nariz

O Rei dos rudes se  despe de todo enigma

E cospe em todos a sua ira

E isso é tudo  que eu não queria ver hoje

187.

Nunca não tente.

Tente sempre.

Tentar é realizar

Que no erro

existe êxtase

crescimento

 júbilo

188.

O ocorrido não pode ocorrer

Novamente

A não ser quando

A quântica quer

E                       Requer

Que ocorra.

Como se fosse uma ciência poética.

 Mas aqui não por acaso

o não ocorrido se casa

Com o que vai ocorrer

E disso sou testemunha

188.

A formulação das asas da abelha

Daria para ilustrar toda uma odisséia

Palavra por palavra, do ovo de uma libélula

Nasce uma musica, uma revolução

Para  compor uma sonata

um  ponto de atabaque me é suficiente

O uivo de uma matilha distante

se aproxima e me encanta

Esqueço meu pavor por pernilongo

Aqueço meu motor intestino

Vou correndo ao  banheiro

O ovo no frigir de nosso papo

Acaba sem casca sem sol e sem clara

Tudo que preciso: duas asas de cera

189.

No chapéu de aba larga

Pus uma pena de urubu

Creio que traz bons pensamentos!

De tão preta, chega a ser azul.

Permanece espiralando em minha cabeça

Sempre tendo em vista

Um corpo perfumado

Que me alimente o olfato

E me proteja de mal olhado

190.

O povo roeu a roupa rasgada da razão.

A rainha riu do povo roendo a razão do rei

E o rei acabou dando o rabo para um rato

E no fim da história, eu

De trava-língua em trava-língua

Acabei me vendo nú, trocando juras de amor

com uns trovadores de vozes estridentes

191.

Tirar leite de pedra eu tiro

Quando alguém chora de fome ou chora de alegria

Insaciável mamo na via láctea

E peito precipícios, e peito abismos

No pico da montanha que me habita

Pito o meu fumo e exalto meus orixás

O rio de minha vida desemboca

numa cachoeira que transborda

Irreprimíveis sentimentos

192.

Fecho os olhos e vejo um morcego em sua voz, amigo.

como uma abelha ele bebe de sua saliva, amigo.

A sua voz assim morcegada somada ao vulto da minha

Resulta nesta melodia que canto em surdina

Música misteriosa que somente surdos mudos podem ouvir.

Uma aranha aparece trincada no espelho

E nele constrói sua teia arquitetada de brilhos

Folhas mortas abrem novas páginas para a primavera

E hora de colher os frutos secos e as castanhas abundantes

Maribondos fulminantes e vagalumes saciados de luz

Me acompanham neste poente

Raizes aquáticas, cogumelos alucinantes

Sementes extra terrestres como alimento

Penas e mais penas para os cocares que fabrico

Caracol em cardume itinerante

Cachimbo de pai de santo

Era como se eu fosse você, amigo, mas não sou

Sou o desenhador do esporro do lápis anatômico

Do gozo no papel vazio de imagens inimagináveis

Meu universo visual ficou reduzido a carcaças

Só diviso pregos torcidos no horizonte

E das ramagens de espinhos

Um pássaro sem pena cai do ninho

Quando uma serpente escreve uma fábula na areia fumegante

E um peixe dá um salto no escuro onde me vejo radiante,

Como num sonho, como se já tivesse visto tudo isso antes

193.

Quem passa sobre brasas

Passa porque tem fé.

Quem abraça a fé que tem

Passa de cego a vidente.

Apalpa meu pulso agora

E sinta o que sinto.

Chamas inflamam

Minhas veias de ondas altíssimas

Estou perdendo a paciência com o tempo

Apalpe-me antes que eu evanesça

A aquiescência e a fé que experimento

Já não esquenta  sequer a planta de meus pés

194.

Status quo

É muito cú

Pra pouca gente

195.

Que melancolia

Que saudade

Das coisas

Que desconheço

196.

Descontinuidade da vista

dentro do próprio olhar

ver o que reluz por dentro

Pode ser Amor à primeira vista

Ou pode ser simplesmente

Descuido na piscada

197.

o sol  o sol   o sol

ver o sol. Ser o sol

Soletrar o sol

Sobretudo ser

-de novo -de novo

O sol que nasce

De teus lábios,

Meu amor

198.

O primeiro fogo que tomei foi de cana.

O segundo de ponche.

O terceiro de caipirinha.

O quarto de sangue de boi.

O quinto de margarita.

O sexto de tequila com sal.

O sétimo de champanhe barata.

O oitavo de pisco.

O nono de conhaque Napoleão.                                              

O décimo vou tomar agora

Pra acabar de vez

Com esta história de bebedeira

199.

Você evoca um poeta, e com voz alterada, diz

Você é fogo poeta! Eu sou fogo poeta!

Aqui somos todos fogo poeta!

Todo mundo. Todo o país.

Que se foda então, poeta, todo aquele

Que não mate e beba o sangue do próprio poema.

Viva os mágicos do planeta

as ambivalências, as conotações,

As dicotomias e  fonemas evidentes.

As rosas já não são rosas como antes

Já não falam com os poetas

As roseiras sabem disso e quando florescem

Só dão frutos abstratos

Que só  a terra , somente ela, há de comer

200.

De repente o amanhã saiu sem se despedir

Saiu de mansinho. Nem um tchauzinho.

Se um dia, sem mais nem menos, voltar

Arrependido… vai ter  comigo!

Vou castigá-lo com beijos

201.

Tá todo mundo caduco.

 Tudo, todos completamente caducos.

Os poetas, nem se fala, caducaram de vez.

Cada criatura que encontro suspira

Como se o ar não fosse rarefeito

Cada mão que aperto só quer dizer adeus

Os olhos estatelados, a boca cheia de esquecimentos

Cutuco as próprias costelas, morro de rir de mim mesmo

Digo uma  palavra curta, curto todo eco que me permeia

Depois, corto essa, porque só o silêncio vale a pena

202.

As roseiras não deram rosas.

Os jasmins, por sua vez proliferaram.

A bromélia secou na rocha

(E Agora morre devagarinho).

Ao longo do rio os lírios cantam como se fossem garças.

Me lembro das tulipas que desenhava quando criança.

Dona Margarida, a vizinha,  está sorrindo na janela.

Ainda tenho tempo de regar a jabuticabeira.

Depois falo do talo do coqueiro

A grama me chama pruma poda

Os brilhos se deleitam entre  bagaços de cana

O  enigma do entardecer me basta.

Antes de urinar preciso mencionar

Que as roseiras não deram rosas

Por que  não estavam afim.

203.

 Goya vive entre nós

E vive dizendo

“Os horrores da guerra

Está porvir. Cuidem-se!

Ou o Brasil acaba com os juízes

Ou os juízes acabam com o Brasil

E não sou eu quem vai  retratá-los”

204.

Encontrei minha cara metade.

Deu trabalho mas encontrei meu outro.

Ele sou eu. Eu sou ele.

Não somos nós. Somos um nó.

Siameses narcisos

Atados num espelho

205.

o polo norte

Onde fica?

Siga Rumo ao sul

Não é distante

Vai sempre reto

Num instante

Chegará lá

206.

Dane-se,surta-se

Constitua-se

Arrogue-se todo

Rir-se-de-si mesmo

batucar-se-na-cabeça

Fortalecer o couro de dentro

Aclimate-se, calor ou frio dá no mesmo

Preciosa, a vida agradece

E não deixa a morte ficar fiada

207.

Pra mim mesmo sou

A Harmonia do barulho

Inerente ao trovão

E Quero só pra mim

Toda tempestade…

Toda fornalha ancestral.

Sobretudo quero

o silêncio que vem

E impera

Depois do estampido

De um poema de Maicovsky

Um suspiro

Dado antes

Do estrondo

De uma estrofe

De Rimbaud

É quase tudo

o que quero hoje

208.

Vira e mexe dou uma reviravolta em meus sentidos

E hoje não por acaso mudei o tom de minha voz

Acordei de pá virada e mandei as dúvidas pro caralho

Ao inferno mandei meus medos meus receios e meus titubeios

Aprendi uma ou duas palavras em latim ( que já esqueci)

E passei horas a fio vendo uma aranha tecer a sua teia

209.

Lua nova, Cara velha.

Atrás dela ví uma bruxa

Mexendo seus pauzinhos.

Fiz que não ví. Guardei silêncio.

Até aqui a ninguém contei

A cena que vi.

Rompo agora o segredo.

Os pauzinhos mexidos eram pra mim.

A velha sumiu de vista

Não sem antes dizer

Que a  lua nova já era!

 

 

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