Olavo Bilac, o cabotino (versão um pouco ampliada)

Luiz Roberto Benatti.

Foi num veículo como o da foto – um Serpollet – que Olavo Bilac acidentou-se contra uma árvore na estrada da Tijuca, RJ, em 1897. O fato garantiu-lhe a façanha  de ter sido o primeiro motorista acidentado no País, todavia nem isso nem sua poesia no mais das vezes aguada ou sua pregação profética para a  militarização do Brasil diminuíram-lhe o brilho. Antes, pelo contrário, fez-se patrono póstumo de centenas de escolas. Sem disciplina não haverá progresso. Essa idéia está entranhada na cabeça e no coração de muita gente, dentre os quais  os filhotes dos movimentos de rua. Com freqüência, as pessoas se lembram de procurar em George Orwell – no famoso “1984” – regras de controle social dos indivíduos, quando Bilac foi talvez mais longe nesse nazifascismo disfarçado.Bilac atacou os miseráveis, Floriano Peixoto e a conspurcação da Língua portuguesa pelos estrangeiros e, como isso, naqueles dias da República velha, iluminou a multidão sem eira nem beira dos miseráveis e a xenofobia, quer dizer, quem vem de fora não passa de vampiro nosferatu pronto a sugar nosso sangue verde-amarelo. Aí vão as pérolas bilaquianas extraídas de A defesa nacional:  “Os imigrantes europeus mantêm aqui a sua língua e os seus costumes. Outros idiomas e outras tradições deitam raízes, fixam-se na terra, viçam, prosperam. E a nossa língua fenece, o nosso passado apaga-se”, e estas jóias de raro lavor: “”Que é o serviço militar generalizado? É o triunfo completo da democracia; o nivelamento das classes; a escola da ordem, da disciplina, da coesão; o laboratório da dignidade própria e do patriotismo. (…)é o asseio obrigatório, a higiene obrigatória, a regeneração muscular e psíquica obrigatória. As cidades estão cheias de ociosos descalços, maltrapilhos, inimigos da carta de “abc” e do banho, – animais brutos, que de homens têm apenas a aparência e a maldade”. Bilac disse tais firulas a estudantes da Faculdade de Direito de SP, em 9 de outubro de 1915, há 100 anos. Há um século, portanto,  pensamos as mesmas coisas.Há certa identidade no modo de pensar entre Lobato e Bilac, com a diferença de que o primeiro poderá parecer-nos mais provinciano no que o segundo aparenta ter de nacional. Onde Lobato viu o que nos faltava, Bilac deu-se conta do que nos outros não havia – Éden inesgotável:ao dirigir-se à criança no soneto A pátria, ele escreveu: Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!, dentre os quais, diríamos nós, o barbeiro que picou o Jeca de Lobato.Todos os nacionalismos se arrebentam nos contrafortes da Mantiqueira.    

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