CTV: 1933-1936, mandatos encavalados, jogo de cartas perigoso e pruridos integralistas

Luiz Roberto Benatti.

Deus, pátria, novo Brasil, grande Nação, lemos no cartaz, enquanto os braços, cruzados à frente do tronco, lembram que esses entusiastas do Plínio Salgado  estavam dispostos a lutar por tudo aquilo que jamais fariam. O símbolo estampado na camisa verde é a letra sigma inspirada na suástica hitlerista. Eram todos eles caricatos, como caricatas eram as nuvens baixas que dançavam acima dessas cabeças vazias porém perigosas.Oitenta e quatro anos mais tarde, a única mulher desse grupo, vestida de verde e amarelo, iria vociferar na Avenida Paulista, porque nós adoramos o cheiro de mofo das catacumbas.  Em CTV, empossou-se no dia 22 de agosto de 1933 o sr. Querino Gastaldi, no mais curto dos exercícios de administrador, porque, no dia 5 de setembro, ele foi substituído por Coriolano de Oliveira Mello, até 20 de maio de 1936. Em 12 de agosto de 1934, um magote de integralistas reuniu-se no Catanduva clube, da Rua Sergipe, meio da quadra, entre a Brasil e a Pará, dispostos a formar uma associação politicofilosófica, a fim de combater os irmãos Bueno Netto, Renato e Adalberto, cujo reduto estava sediado no Clube 7 de Setembro, na Rua Brasil com a Paraíba. Os galinhas verdes daqui imitavam os galinhas verdes do Rio e São Paulo.Em julho de 1935, o prefeito Coriolano deu início ao calçamento de ruas da cidade com paralalepídedo, porque o betume da matéria asfáltica não estava em uso como hoje mas também porque ainda não tínhamos aprendido a brincar de venha a nós a nossa licitação: ruas Brasil, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão, Pará e várias transversais. Acrescentemos que a partir de 1950 o paralelepípedo faleceu de colapso geomorfológico. Em 31 de agosto, lançou-se a pedra fundamental para a construção do prédio do fórum da Rua Amazonas. O fato mais notório do período foi um crime motivado por perda de dinheiro na mesa de jogo.

Catanduva Não Esquece!

Jogo perigoso

Os árabes tiveram na figura rimbaudiana de T. E. Lawrence o seu Gabriel D’Annunzio. Nascido em Tremadoc, Gales do Norte, em 1888, como o italiano, Lawrence foi ousado: pilotou avião da RAF, embora vivesse mais em terra como cameleiro. Como Arthur Rimbaud participou de insurreições e batalhas de seu tempo. Os três poderiam ter aberto na África a firma Rimbaud, D’Annunzio & Lawrence, de venda de munição aos beduínos. No final da vida meteórica de 47 anos, em 1935, o inglês perdeu o controle da motocicleta ao desviar-se de dois ciclistas e espatifou-se contra um muro. Assim como o rabisco duma casa feito por criança ou adulto obedece ao mesmo padrão geométrico , o modelo universal dum árabe será sempre Thomas Edward Lawrence: um beduíno de pele muito clara e olhos azuis. Dois anos antes da morte de Lawrence, longe de Beirute e do Saara, Gattaz e o sócio Estefno, donos da companhia de luz, desentendiam-se com freqüência, porque o primeiro viciara-se no jogo de cartas, em cujas mesas deixava parte dos ganhos com a venda de energia elétrica. Na década de 30, a firma já se instalara no quadrilátero formado pelas ruas Alagoas, Pará, Sergipe e Amazonas, depois de abandonar o prédio da Rua Paraíba, entre a Pará e a Brasil. Certa tarde, Inácio, filho de Miguel Estefno, iniciou discussão acalorada sobre jogo de cartas com o tio Gattaz Maluf. Armado de revólver, Gattaz alvejou o sobrinho e, a seguir, na defesa do filho, Estefno feriu de morte o sócio. Baleado, o moço Inácio foi levado às pressas para o Hospital Zaccaro. Operado por José Zaccaro, a seguir o rapaz deveria ter sido entregue à polícia, mas o amigo Antônio Zaccaro, filho do cirurgião, o escondeu no sótão da mansarda localizada no prédio do hospital. O crime, disse Platão, não é o produto intencional duma vontade maligna, mas a conseqüência necessária duma doença moral de que padece o criminoso, a quem o Estado tenciona curar. Com a desintegração do velho império otomano, os árabes espalharam pelo mundo café, álcool, aldeias, armazéns, moedas e estrelas, alforje e cimitarra, até que Mascate virou atividade marcada por deboche, e a fantástica visão de mundo dos árabes apenas o recheio das narrativas das Mil e uma noites.

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