Um espelho para todos

Elko Perissinotti & Luiz Roberto Benatti.

Sigmund Freud publicou a Introdução ao narcisismo em 1914, no ano da eclosão da Primeira grande guerra. Por outro lado, André Gide e Oscar Wilde, autores de O tratado de Narciso e O retrato de Dorian Gray, em 1891, cada um a seu modo, e segundo o fazer literário, haviam tratado do mesmo tema. O lapso de 23 anos entre as três publicações é enorme, de tal modo que, se somarmos outros 23 anos a 1818, fim da guerra, estaremos em 1941, às vésperas da Segunda guerra. Mudam-se os temas mas não as vontades? O modo como a burguesia européia refletia-se no espelho ou fora dele, em 14, era apenas decalque dos tiques e ademanes de 1890? Não, se levarmos em conta que tanto a massa trabalhadora quanto os patrões foram arremessados para o alto como cacos de telha e parede pelo furacão bélico, além de assistir à confecção de novas geografias nas quais os sobreviventes não se reencontraram. Muitos dos filhos desses sobreviventes irão incorporar-se à lost generation em Paris, pelos quais irão falar Hemingway, Fitzgerald, Pound e Joyce. Importa, no momento, pôr para fora, nos três ensaios/livros, peculiaridades e diferenças. Em Wilde, p.ex., há decadentismo, dramaticidade, quase-tragédia ou farsa: o protagonista desmancha-se em vida enquanto que o retrato permanece jovial, como se ele tivesse firmado com Mefistófeles pacto de juventude eterna em troca da alma e, de modo irônico, o demônio o ludibriasse. Freud, técnico, concentra-se no auto-enamoramento, enquanto que Gide, numa escritura marcada tanto pela metáfora quanto pela rápida notação, tira o Narciso do contexto helênico e o leva, primeiro, para a visão hebraico e, a seguir, para o cristianismo. O Narciso dos gregos ou de Ovídio congela em si mesmo  o impulso do emparceiramento com a mulher, mas não Gide que nisso vê uma espécie de sina:ajuntar-se, gerar a descendência que, uma vez mais, crescerá para de novo ajuntar-se – a clausula dos compromissos. Numa primeira conclusão, poderíamos dizer que Wilde e Freud parecem caminhar juntos numa certa identificação entre  o enclausuramento no espelho e a impossibilidade de sair de si própria, pela reflexão, e ajuntar-se ao outro. Os narcisos de ambos são solipsistas. O Narciso de Gide é artista ou escritor que faz do espelho uma página em branco na qual, pela reflexão, imprimirá a Natureza. A visão de Gide é fenomenológica. Estamos propensos a admitir que a visão clássica de Freud sobre o narcisismo esboroou-se: os espelhos estão em toda parte – na rua, no carro, na pochete, no banheiro, mas não nos rios, cujas águas apodrecidas não refletem nem mesmo para os peixes quaisquer traços físicos ou mentais. As metamorfoses ambulantes do corpo levaram à pletora a autoexposição: todos querem ver e ser vistos, obsessão que problematiza, conforme Gide, o conhecimento do formato da alma. Tanto Wilde quanto Freud estiveram nos EUA, porém não tiveram olhos para os negros e o que é pior: não mencionaram as ações desumanas da Ku-klux-kan. Gide esteve na África, como Freud, e, com Marc Allègret, viram o negro por sua integridade. Freud foi caçar animais de porte. Nossa ousadia aqui equilibra-se como funâmbulo na corda bamba: defendemos para os humilhados & ofendidos do mundo todo o direito ao uso do espelho no sentido gideano, em particular os refugiados que aos milhares morrem no mar e em terra. Uma foto não lhes basta: eles reivindicam o direito ao resgate da humanimalidade.

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