O Rio São Domingos e suas três metáforas

Luiz Roberto Benatti.

No fundo do vale, entre duas colinas – a  parte velha ou imperial da cidade (São Francisco/Fazenda Moreira, & Higienópolis) e a nova ou republicana (Praça da República/Largo do Café & imediações) claudica o Rio São Domingos. Ao cruzá-lo, você poderá fingir que não o vê, mas ele o fotografa com sua câmera-olho cinza-esverdeada. O rio é um corte cesáreo aberto no baixo ventre da cidade, ali inscrito de tal modo, que você não poderá teletransportar-se no tempo histórico da urbe sem transpô-lo. Onipresença fluvial obsessiva e indiscreta. Assim como os baianos oferecem a Iemanjá flores, espelho e pente, deveríamos presentear o São Domingos com mais 5 ou 6 pequenas e simpáticas pontes fletidas sobre ele. Teria sido hidrograficamente interessante manter a lembrança do nome Japurá, porque, desse modo, jamais iríamos pensar que, nas cheias, o rio fazia o que jamais deveria ter feito. O velho Japurá é como Macunaíma – rio sem nenhum caráter. O nome cristão de batismo, e que lhe foi dado, talvez, para com ele perpetuar-se o nome de Minguta, não nos remete a qualquer sentido metafórico, mas tão-somente à biografia do santo. Quando Domingos Borges da Costa instalou-se no entroncamento do Japurá/São Domingos com o Córrego dos Coqueiros/Minguta, o rio podia ser pensado por sua denominação indígena de procedência caiouá: Japurá quer dizer mentira, porque, nas grandes cheias, ao espraiar-se dos fundos da FAMECA até a Estação Rodoviária, a tudo ele encobria ou velava, e suas águas suspensas escondiam febres palustres (tifo, paratifo, maleita). O rio mentiu ao caiouá, quando nele sumiram-se, tragados pelas águas barrentas, tacape e borduna; mentiu a Minguta, quando ele molhou o cós da calça arregaçada; mentiu ao criador de porcos, quando o rio afogou-lhe um dos animais na curva dos bombeiros e mentiu ao negro que se alimentava de macaco-da-meia-noite, o segundo sentido metafórico do rio. O Japurá só não mentiu quando, por muitas décadas, talvez séculos ou milênios, antes e depois das cheias, plantou, ao longo de suas margens, a bela voquísea, o terceiro nome metafórico do rio.  

+

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.