Prosa caipira

Luiz Roberto Benatti.

Asturdia, u óme apiô dum turdio com cara de abestaiado. Raspô a bota imbarreada no limpapé de tampinha de garrafa, oiô mei de insgueio e adentrô. Pensei num fidumaégua lá de Vargim inguar a esse dito cujo.Fedia cachaça e a inhaca era de vomitá o armoço donti. Garrei a maginá que aí vinha forfé.Forfé é qui num  farta nesse fimdimundu.  O omão era parrudo e fui logo desembuchando: Tá quainahora de fechá o buteco e o mé acabô.Também não tenho mé pra disconhecidu fedorento.  O zaroião nem triscô o zóio bão. Fiquei desenxavido e pensei: agora levo os corno pra véia conferi.A véia fica cum medo qui eu leve sova de valentão Disse: abanque-se, seu ome sem nome nem sobrenome. Ficô ele de coqui um tempão, caiu aguacero desses que o pai chamava de dilunvo, porca grunhiu no terrero e a véia veio de mansinho, aventar na mão calosa e berrô bem arto, pruquê to surdo como porta: Juanim, quiqui si passa? Arrespondi: chegô esse parrudo, mas não sei quiqué, não tugiu nem mugiu, ficô inguar passarinho na muda. Aí o grandão tamanho de cumiera se alevantô, botô a   mãozona na cartuchera e desembestô: eu só quero a sua fia Zurmira de zóio melado e boca grande. Muierão cheia de prenda e encanto. Não vou maiá meu sogro antis do ajuntamento.Eu e a véia trememo como vara verde, mijei na carça de brim amarelo, a véia encoieuce tudinha atrais do barcão, começou a rezá o crendospadre e eu me fiz de tonto: cuméquié, seu ome? Quero sua fia,  seo carniça, a Zurmirinha, luz na treva que deixa lamparina acesa na rabera. Chispa, arrisquei. Num sarto de onça pintada, ele grudô meu pescoço, ergueu mão peluda no dorso, mas Zurmira gritô:Deixa o pai, Vardomiro.Mió si entendê com o pai. Antisdonte pensei em vancê e logo botei na oreia uns pingo do prefume que você ganhô na quermessia. A fia tá de Chico, gritô a mãe.Isso passa, tudo passa, só o meu benquerê por essa muié é qui não passa. Oncotava quando bebi até caí nas ribancera só pensando nocê? Botei de doido a cabeça com chapéu e tudo denduforno pra curá o mar de pinga, saí locão e fui campiá mula-sem-cabeça no pasto longe.Vortei zambeta quatruhora dispois. Já si lavô, Zurmira?Bota a saia rendada.Arruma os pano e vamo pra casa. O chico passa e nóis vai fazê fiarada de lotá pondiônus na vila.Vixe! Uns oito.  Compro carro de boi novinho infoia pra passiá os mininu. Vão crescê sadio e catiça arguma vai pegá nelis. O mundo só tem começo, nem tem nem fim. O mundo fica treis tiro de cartuchera dispois da casa de nhô Raymundo com ipsilone que sabe lê e inscrevê.

[Dedico esta narrativa meio singela à memória de meu primo Ado Benatti, poeta da musa cabocla nos anos 50s e 60s. Ado não era um caipira autêntico. Homem de cidade, no entanto, soube trabalhar à maneira caipira temas como o ciúme que, sem dúvida, estão presentes tanto na zona rural quanto na cidade.]

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