Literatura e Psicanálise: o Ulysses de James Joyce

Luiz Roberto Benatti .

Alguém já se referiu ao Ulisses do irlandês James Joyce como a suma de nosso tempo, como se fora a réplica literária de Guernica do espanhol Pablo Picasso, quer dizer, obras que, por sua força intrínseca, tivessem ido para além de sua época, de tal modo que em ambas pudéssemos nos espelhar e ao mesmo investigar-lhes o conteúdo como berço do qual proviemos.Façamos no entanto ligeira correção: publicado em 1922, o Ulisses antecipa-se ao Guernica por Picasso elaborada para assinalar a destruição do santuário basco, em 1936. Tanto uma obra quanto a outra romperam de vez com a maneira como se faziam romances ou pinturas de cavalete. Ambas se marcam por um realismo absoluto, cujos sinais de simbolismo não se anulam, mas, ao contrário, emprestam ao nosso olhar a possibilidade de lermos tanto o presente de sua concepção quanto o futuro para o qual fomos inexoravelmente impelidos. Fixemo-nos no irlandês: James Joyce sai de Dublim, em 1902, para estudar Medicina em Paris, escolha que, no que nos diz respeito, o aproxima do mineiro João Guimarães Rosa, cuja obra, monumental, Grande sertão: veredas -, descontadas as enormes diferenças, aparenta-se com Ulisses. Em 1903, Joyce, em razão da morte da mãe por câncer, retorna a Dublim, onde permanece, talvez um pouco deslocado de seu projeto médico. No dia 16 de junho de 1904, o encontro com uma moça de 20 anos, Nora Barnacle, muda de vez sua vida. No encontro, nas preliminares do sexo, Nora amedrontou-se com a idéia de concluir o coito e masturbou-se. O episódio, por sua data, vai-se constituir num rótulo temporal para o romance, cuja trama desenrola-se no dia do encontro dos namorados Joyce/Nora. Nora provavelmente serviu de inspiração para a construção da personagem Molly Bloom, cujo longo monólogo fecha o romance. No breve retorno a Dublim, JJ morou com Oliver St John Gogarthy que serviu de estofo para a criação da personagem Buck Mulligan. Gogarthy vivia na Torre Martelo onde James passou 6 noites. Depois duma discussão, eles se embebam num bordel e quem o livrou das agruras de lei foi Alfred Hunter, que no romance será Leopold Bloom. Joyce, ele próprio, é Dédalo/Stephen. Desse modo, completam-se as figuras básicas da obra. As demais – e são inúmeras – vêm das casas, ruas, estabelecimentos comerciais da cidade, cruel & cardial, à qual o irlandês imortalizou, de modo tal, que redigiu para ela um guia turístico perene: a memória daqueles dias poderá ser recuperada pela leitura atenta do livro. Por fim, acrescentemos que a Odisséia de Homero serve de ossatura para o Ulisses, ainda que, do texto helênico, Joyce tivesse escolhido apenas 8 episódios. A sagacidade exponencial de JJ o levou a trocar o mítico pelo chão da realidade. A Dublim de Joyce é de carne e osso.

II

Tendo em vista a aproximação da Literatura com a Psicanálise em Ulysses, escolhemos o episódio “Circe”. Em Homero, Circe é a deusa da magia, com poder de atração e transformação das criaturas, filha de Hélio e Perse, oceanida. Vemos, desse modo, que Circe é deusa dúplice: de um lado como ser solar e de outro como personagem abissal, duplicidade que, na visão de Freud, empresta-lhe moradia entre Ego e Id, consciência e inconsciente. A trama mítica aparenta ainda Circe a Pasifaé, sua irmã, casada com Minos e mãe do Minotauro. Sem exagero poderíamos dizer que há identidade entre Dublim e o Labirinto. Ao fazer uso de poções mágicas, Circe metamorfoseia os inimigos em animais, ações por ela repetidas na recepção de Ulisses e os marinheiros, depois de oferecer-lhes queijo, mel e vinho, até a embriaguez e transformá-los em porcos.

III

“Circe” é uma ópera cômica, todavia não deverá ser lida com olhos moralistas, como se o bordel não fosse o lugar por excelência de jovens e adultos em diferentes fases da vida. A genialidade de JJ está em que ele caminha do real para o irreal literário como se esse imaginário pudesse ser visto como surreal e ao mesmo tempo assentado no concreto. Tudo no episódio é muito engraçado e, ao fim e ao cabo, fôssemos mais exigentes em nossas escolhas literárias, poderia ser visto como manual para uma educação sentimental de adolescentes: Bloom e Stephen procuram-se como se fossem pai e filho ainda que isso ocorra num prostíbulo. No todo, o romance decorre em 24 horas, com uma hora reservada para o bordel, mas  o leitor alimenta  a impressão dum tempo muitas vezes superior, em razão talvez das fantasias mentais. Bloom, à procura de Stephen, na Rua Mabbot, entra no bordel, onde vai avistar-se com Stephen. Tão logo ele entra no prostíbulo, a prostitua Zoe o chama de Bloomusalém, e o trocadilho é muito engraçado. No romance, Circe é Madame Bello a quem, no delírio, Bloom chama de Mr. Bello. Bella e Boom trocam nos diálogos o sexo um do outro: Bello chuta Bloom e, a seguir o cavalga, depois de obrigar o judeu a beber-lhe a urina. Bloom é vendido como prostituta. Noutra passagem, Bloom masturba-se à vista da prática sexual entre Boylan, o amante, e a mulher Molly Bloom. Stephen dança com Kitty e assiste à mãe erguendo-se do túmulo. Os episódios estão crivados de ocorrências masoquistas.      

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