Maltrapilhos & maltratados:o desastre ambiental de Santa Adélia

Luiz Roberto Benatti.

O porto seco paira sobre Santa Adélia como se fosse um OVNI piramidal. Ao pegar fogo, cozinhou o açúcar e queimou as tabelas de Grut até transformá-los em melaço. O galpão fica a cavaleiro da Rua César Rossi, intransitável e abandonada em parte pelos moradores, ora instalados em hotéis. Entre o muro do porto e as casas, há uma extensa trincheira de terra vermelha por onde escorre a massa preta do açúcar queimado até a lagoa de contenção no fim da rua. As galinhas ciscam nos quintais, o automóvel não pode sair da garagem. Acima do armazém e qualquer coisa distante, na Fazenda Dumont, fica a nascente do Rio São Domingos, cujo fio d’água desce até o córrego abaixo do galpão. As águas estão enegrecidas e os caminhões, dia e noite, sugam e transportam o melaço para as curvas de nível das plantações de cana. O córrego foi entancado. O que era da terra volta ao solo. O porto é visível de vários pontos da cidade. Presença obsessiva 24 horas por dia: feia, desatualizada, contraste irrealista com a noção de lucro empresarial, proteção do meio ambiente e segurança dos habitantes da comunidade. Monarcas do açúcar protegidos pelo dinheiro do governo, população maltratada, caviar e aponevrose. A par do que sobrou para nós, de hoje em diante recomendo aos catanduvenses rezar para que a caldeira da COCAM não vá pelos ares, se não passaríamos o resto de nossos dias degustando café solúvel com melaço.

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