A diferença entre “fundadores” e founding fathers, ou porque, em CTV, nos tornamos criaturas a-tópicas

Luiz Roberto Benatti.

Para Carlos Dantas

Em vez de insistirmos, semana sim, semana não, em determinar que certa escritura cartorária  lavrada em Jaboticabal  garantiria ao velho Figueiredo a posse de alguns alqueires no Cerradinho, com o objetivo de atribuir-lhe o título de founding father, recomendaria aos novos e aos remanescentes historiadores de CTV que se debruçassem sobre os feitos de Napoleão Bonaparte, sem os quais Hegel não encontraria ersats/substituto  para essa  criatura terrena metida num dólmã  quase divino. Sem Hegel, Marx talvez não conseguisse tirar dos olhos a venda que o impediria de perceber no Capital os obsessivos movimentos duma planária que se deixa arrastar rumo ao ouro solar no afã de transmutar Natureza em Cultura, de modo contínuo e predatório. Sem Marx, 3 ou 4 founding fathers não suturariam a ferida incicatrizável de nossa orfandade psicanalítica. Napoleão foi a modernidade absoluta, embora nos pareça queimar como pedra de gelo na mão fechada. Napoleão mandou abrir fogo contra o encarquilhado e rabiscou o novo num papel ora esfarelado e coberto dos sargaços de Elba. Napoleão acotovelou Dom João VI na prancha de embarque do navio rumo ao exílio brasileiro, por cujo gesto o País aprendeu hábitos de higiene e os caminhos da escola. Tempos depois, as grande secas do final do século XIX modelaram o bisavô do Fabiano de Vidas secas, esturricaram o solo das Gerais e obrigaram meridionais e espanhóis a cruzar o Atlântico numa viagem de 33 dias cujo balé chapliniano nos fez rir-se e chorar. Figueiredo arrumou a matula e palmilhou o planalto de Barretos, como Henrique Dumont, o pai do aviador, que, depois de deixar Cabangu com 300 contos de réis e 80 escravos, foi para Casa Branca de onde alcançou Ribeirão Preto. Nosso  pai está sempre onde o pomos, mas nunca o pomos onde estamos. Nosso discurso sobre o pai é a-tópico. Ao contrário dos founding fathers norte-americanos, que, no Congresso, em 28 de junho de 1776, assinaram com o povo a Declaração de independência dos Estados Unidos da América, nossos fundadores cuidaram de si, da prole e dos leitões, sem o menor senso de como poderíamos reconstruir a civilização à margem da Estrada do Taboado, porque essa servia aos safristas enquanto que a Railway & co., cujo trajeto foi corrigido por Dumont, apontava para nós os ruídos da Baldwin  da economia comunitária. [continua]

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