O herdeiro político de Adhemar de Barros, ou Os piores anos de nossas vidas, III: 1970

Luiz Roberto Benatti

A comparação é inevitável: do mesmo modo que Notícias Populares (aquele jornal paulistano do qual diziam que, bem espremido, dele saía sangue) prestou culto fervoroso a Brigitte Bardot, musa francesa que foi da rara beleza à plena corrosão das estruturas físicas, A Feiticeira, movida por fervor religioso, cultuou Orlando Gabriel Zancaner, até que o estampou na capa. Orlando tricotou com categoria. Apesar da delicadeza de traços físicos  e da voz de  contralto, era verborrágico, motivo pelo qual os admiradores o ouviam como se escutassem um semideus. Pelo  fato de ele abrir muitos corredores   e salas do poder,  fez prosélitos e apadrinhados às carradas. Suas pescarias ficaram famosas, não pelos peixes a ser descamados, mas pelas camas de vento, o churrasco e as narrativas intermináveis.Despido de retórica e  idéias políticas minimamente avançadas, atrelou-se a José Antônio Borelli para alcançar a prefeitura, bem passado e sem um pingo de suor. Moço de sorte. E foi desse modo que escalou os degraus do Estado e depois os da Federação. Controlou a Arena com mão de ferro e, em 1970, do escritório da Rua 13 de Maio/Alagoas, comandou o triste episódio de caça aos comunistas, como quem quisesse purgar-se de inocentes delitos. Os militares não toleravam políticos oscilantes, razão por que jamais iremos saber se O[g]Z, nosso mágico de Oz (há sempre um pote de ouro além do arco-íris), foi cassado no Senado ou então  convidado a vestir-se com o pijama da renúncia e a abulia.  Como o rei Midas, morreu acabrunhado e sem poder trocar rês ou terreno por champanhe francês ou camisa de linho. Embora todos os reinos acabem por esboroar-se, 1970, com Médici no controle da ditadura de 64, foi seu ano mais virulento, ainda que perturbador porque, primeiro, nos enquistamos na Arena e, depois, quando ele ameaçou tirar a escada, no alto da qual segurávamos brocha de cal, fundamos o MDB. Furibundo, ele nos remeteu para Lins, onde nos internamos por uns tempinhos, o suficiente para que, ao sair, exibíssemos na testa a divisa de subversivos. Ficamos tão notórios quanto a Coca-cola. As prisões ocorreram no dia dos Finados, antes um pouco de 15 de novembro, data das eleições: Médici queria a todo custo resolver na prática  a  questão dos 2/3 dos assentos da Câmara dos deputados e, como nós fazíamos  agitação política, o jeito  foi isolar-nos. Dentre  os planos lúdicos e simbólicos, 1970 foi ano de copa do mundo: gritos no Maracanã e nos porões da ditadura. Foguetório e maçarico.  Para o Nordeste e a Amazônia, em particular, Médici inventou o PIN ou Plano de integração nacional, cuja divisa tinha o sinal cabalístico da caserna: integrar para não entregar.Quando o município entrega às feras seus intelectuais, ela arrebenta a bússola da melhor política.

A Estrada transamazônica ficou entaliscada no lodaçal, enquanto que Gláuber Rocha, na República do Congo, filmou Der Leone have sept cabeças. No título só havia cinco.  Gláuber sonhava com uma revolução transcontinental, cujos adversários, serpentes de muitas cabeças, tinham de ser abatidos com vigoroso fervor. Predestinado, gênio e doido, outro assim tão logo não haverá nestas plagas.

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