Se não estivesse no paraíso, o Cine República completaria 92 anos

Luiz Roberto Benatti

O Theatro São Domingos (mais tarde, República) foi inaugurado no dia 15 de novembro de 1927. Se estivesse de pé,  teria completado  91 anos. No dia 27 de abril daquele ano tão distante, o Congresso  Operário Sindical fundou, no Rio de Janeiro, a CGT/Confederação Geral do Trabalho e, em 11 de agosto, o governo conservador decretou a ilegalidade do Partido Comunista.No dia 23 de agosto, depois de idas e vindas, o juiz Thayer, nos EUA,  por fim, conseguiu decretar a execução dos imigrantes italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, injustamente acusados de anarquismo.Foi esse também o ano do lançamento de Metrópolis de Fritz Lang, na Alemanha,  cujo enredo fala de uma cidade em cujos subterrâneos vivem operários escravizados a máquinas, enquanto que nos arranha-céus da superfície residem e dão ordens os capitalistas. Dispostos a manter o controle da classe operária, ordenam a um inventor a construção dum robô representante dum líder operário, com o propósito de estimular os trabalhadores à rebelião e, depois, à repressão do movimento paredista. Morder e assoprar.

Outros fatos sumamente importantes de 1927 foram a primeira concessão no País do direito de voto às mulheres do Rio Grande do Norte, a construção, em SP, da primeira casa modernista pelo arquiteto russo Gregori Warchavchik, a publicação de A Estrela de Absinto de Oswald de Andrade, Brás, Bexiga e Barra Funda de Alcântara Machado, Amar, Verbo Intransitivo de Mário de Andrade e a elaboração do filme Tesouro Perdido de Humberto Mauro. Em 24 de julho de 1927, o jornal mineiro O Cataguazes anunciou que o grande filme de HM estava em cartaz no Cinema Central do RJ com grande sucesso. Estávamos avançando em percepções sociais e refinamento da crítica da economia política. Nesta fotografia de resolução muito boa, vêem-se, à porta do cinema, à luz do dia, vários espectadores vestidos de paletó, gravata e chapéu, dentre os quais  crianças. À direita, uma mulher. Para muitos operários o cinema foi a escola primária, o ginásio, o colégio e a universidade. Ao contrário dos clubes freqüentados pela classe média, o cinema foi o lugar de distribuição e reciclagem da cultura da classe operária, com a possibilidade de, por seu intermédio, assentar-se os fundamentos para o fim da pré-história. Bertold Brecht metaforiza essa questão no fabuloso poema “Perguntas de um trabalhador que lê”. No cinema, os obreiros passaram muitas horas de seus dias ou noites, para rir-se, chorar, sobretudo alimentar-se de imaginário ou reconstruir o processo de reflexão sobre a máquina política de produção e reprodução do mundo capitalista. Por sua natureza física, mas principalmente por ser a trincheira do imaginário, o cinema não pôde ser apropriado ou desapropriado pela classe burguesa. Para sobreviver, o cinema dependeu da venda de todos os seus lugares e não de uns poucos. Quem iria rir-se de modo solto da ironia de Chaplin quando Carlitos, esfaimado, dispôs-se a cozinhar as botinas, feitas de berinjela? Geniais os fotogramas em que ele chupa os pregos da botina feitos de nabo. Você consegue rir-se da própria desgraça? Chaplin resgatava Van Gogh, cujos comedores de batata conheceram a cor e a textura da fome. As ditaduras excitaram-se com a possibilidade de usar o cinema na reconfiguração e reeducação da população empobrecida, porém insolente e anarquista. No ano da inauguração do República, o senador Cippico anunciou a instalação para breve, na Itália, do Instituto Internacional de Cinematografia de finalidade educativa e, no dia de sua abertura, na Villa Falconieri, em 5 de novembro de 1928, na presença do rei, Mussolini sublinhou as elevadas vantagens do cinema comparadas com o livro e o jornal: linguagem universal por dirigir-se aos olhos e, com isso, estatuir-se como veículo educativo de ordem internacional. Cheio de dedos e pruridos nervosos, o embaixador chileno advertiu os presentes para os perigos advindos da grande popularidade do cinema. Mussolini, como, mais tarde, Hitler ou Stálin, atentos ao reordenamento das massas, ruminaram sobre a importância da estética sobre a ética incômoda, no cinema, na música ou na arquitetura. As ditaduras exibem volumes arquitetônicos monumentais para seqüestrar os olhos e os corações dos  basbaques. Na observação de Hermann Broch, “a essência do kitsch consiste na substituição da categoria ética pela categoria estética; ela impõe ao artista a obrigação de levar a cabo, não um bom trabalho, todavia um trabalho agradável. Logo, o que mais importa é o efeito”.

O República foi posto abaixo e dele não se conservou um único tijolo. Era esplendoroso como o sonho da classe operária de ir-se para o paraíso socialista, como queria Elio Petri. O República tinha frisa, palco italiano, orquestra, salão de barbeiro e mercearia. Ele tinha a cara de Catanduva na época. Nele você reeducava os sentidos e meditava acerca das estruturas sociais. Em seu lugar foi erguido o prédio do Banco Bradesco. Completo mesmo era o cinema. O banco é apenas o lugar do capital volátil e da mais-valia sem peias. Sinal dos tempos.Prefeito de velha cepa. Stocco, em junho de 1962, assinou a lei 585 que proibia a construção, a instalação e o funcionamento de estabelecimentos bancários na quadra que circunda a Praça da República, respeitados os estabelecimentos bancários em funcionamento. Alguém revogou a lei ou então agiu como se ela jamais tivesse sido votada.

Perguntas de um trabalhador que lê

Bertold Brecht

Quem construiu a Tebas de sete portas?

Nos livros estão os nomes de reis.

Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída

quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas

da Lima dourada moravam os construtores?

Para onde foram os pedreiros,

na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A Grande Roma está cheia de Arcos do Triunfo.

Quem os ergueu? Sobre quem

triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio

tinha somente palácios para seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida,

os que se afogavam gritaram por seus escravos

na noite em que o mar os tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sozinho?

César bateu os gauleses.

Não tinha sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada naufragou.

Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.

Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória.

Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande homem.

Quem pagava a conta?

Tantas histórias.

Tantas questões.

Lumière, Spanazzi & o Cine República

No dia 28/12/1895, Antoine Lumière promoveu, no Salão do Grande Café de Paris, a primeira exibição paga de filmes. Sucesso. Seus filhos, os famosos Irmãos Lumière, foram os produtores do primeiro documentário de cinema. A fita exibia a saída de obreiros da usina Lumière no fim da jornada de trabalho. Em 1881, Émile Zola publicou O germinal. Zola ensinou os Lumière e os Lumière ensinaram a Chaplin como encontrar o caminho do  ouro. Decorridos 13 anos, em 1908, Ford deu início à produção seriada do automóvel modelo T, apelidado de fordinho de bigode. A idéia de movimento escapara da Caixa de Pandora, refugiara-se nos dutos dos olhos e enfurnou-se no cérebro das criaturas.  O automóvel  sempre foi caro e poucas pessoas puderam comprá-lo. No ano anterior, Giovanni Spanazzi, italiano, e sua mulher, Adalgisa Prandi, procedentes de Jaboticabal, de onde vieram em carro de bois conduzido por José Pedro da Motta, chegaram ao Cerradinho do São Domingos. Os rios davam aos burgos água, navegação, nominação e identidade, razão por que a velha denominação do São Domingos – Rio Japurá – foi abandonada. Japurá ou jupará é 1º) a voquísia, árvore conhecida dos índios pelas aplicações medicinais; 2º.) o macaco-da-meia-noite; e 3º.) o termo tupi para mentira. Ao exorcizar a natureza em estado bruto, tudo fazíamos para construir a cultura.  Oleiro, construtor, ferreiro e beneficiador de arroz, Spanazzi comprou a saleta de projeção do primeiro Cine Central ainda inacabado. Ficava na Rua Brasil [antiga Rua 3 ou  Rua da Estação], com a Paraíba, lugar em que se instalou, primeiro, a agência Ford de automóveis; depois, a 2ª. versão do BANESPA, atual SANTANDER . Mais tarde, o Cine Central mudou-se para a Praça 1º. de Maio, em frente da estação ferroviária [inaugurada em 1910] e ao lado do Café da Marina. José Ângelo Pellegrino, nessa época ou logo a seguir, foi seu proprietário. Por 12 meses, de 1919 a 1920, na Rua Rio Grande do Sul, cuja localização se perdeu, o serviço de propaganda A iniciativa, ao remedar o cinema, projetava numa tela quadrinhos e fotografias da cidade. Em 1920, a Inglaterra criou o British Board of Film Censors ou Serviço de Censura Cinematográfica.  O Hotel Acácio [1929], há pouco demolido, e o Hotel dos Viajantes [antigo Hotel Accorsi-Di Cunto, 1916], e também a Rua São Paulo e os primeiros cem metros da Rua Brasil, dispuseram-se como cenário inaugural de comércio e, por extensão, como pólos modestos de irradiação de cultura, da qual o circo, o teatro, o rádio  e o cinema foram poderosos difusores. Quando a cidade, a custo, pôde escalar o paredão ascendente da Rua Brasil e espraiar-se pela Praça da República [antigo Largo do Jardim] e arredores, ergueu-se, na Rua Alagoas, a meia quadra do Café da Esquina (na época, Casa Americana), a construção imponente do Cine República. Estávamos em 1927. A exemplo da planária, os aglomerados humanos deslocam-se à procura da luz e, como burgos, reproduzem-se a si mesmos para recompor-se como matéria gasta do mundo. Como disse Ítalo Calvino, em As cidades invisíveis: “Quem vai a Olinda com uma lente de aumento e procura com atenção pode encontrar em algum lugar um ponto não maior do que a cabeça de um alfinete que um pouco ampliado mostra em seu interior telhados antenas clarabóias jardins tanques, faixas através das ruas, quiosques nas praças, pistas para as corridas de cavalos. Aquele ponto não permanece imóvel: depois de um ano,  já está grande como um limão; depois, como um cogumelo; depois, como um prato de sopa. E eis que se torna uma cidade de tamanho natural, contida na primeira cidade: uma nova cidade que abre espaço em meio à primeira cidade e impele-a para fora”. Assim, o que se fez, em época recuada, em torno da EFA, refez-se noutros lugares da cidade. Nesse período de espessa bruma, Salomão casou-se com Jesuína Simões que, ao enviuvar-se, contraiu novas núpcias com Manoel Estrela, dono da Pensão Estrela, da Rua Maranhão, na altura do número 408, onde Pe. Albino tomava refeições. Desse segundo casamento, nasceu Alzira, prima do Pe. Synval Januário e esposa do Dr. Indalécio Gomes. O Sr. Guilherme Couto, emigrado primeiro de Portugal para Catanduva, atraiu os patrícios. Couto foi dono de grande parte do quadrilátero formado pelas ruas Maranhão [Rua 4], 13 de Maio [Rua 5], Alagoas [Avenida 3] e Pernambuco [Avenida 2]. Ao movimentar-se pela topografia urbana, de olho nos cogumelos de Calvino, vemos que a cidade levou consigo quase tudo o que acumulara ao longo dos anos. Ciosa de suas coisas, ela não quis perder nada. Quem perde cidades e vidas são os especuladores econômicos, os quais, por isso, tornam-se criaturas acabrunhadas.   Ao redor do República, por muito tempo, o carrossel do período de ouro da cidade deu voltas e mais voltas, até que o prédio, atordoado, veio abaixo, para se transformar num amontoado de tijolos, madeira, ferro retorcido e fragmentos de celulóide: o sonho desfeito de Giovanni Spanazzi.

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