Em CTV, o leitor foi encaixotado e enviado para Santo Antônio dos Tomates Pelados

Luiz Roberto Benatti.

Charles Dickens publicou em 1838 o grande romance Oliver Twist, lido e relido no mundo todo. Machado de Assis que sabia das coisas o traduziu para o Português. Esse período dos ingleses coincidente com o triunfo da burguesia foi chamado “The great london waif crisis” ou “A grande crise londrina da criança abandonada”.A miséria é fruto do progresso e da exploração capitalista de classe. Criança abandonada? Aqui ou alhures, muitas nem chegam a isso, porque, depois do vagido inaugural, vão para a lata de lixo. Babytrash. Para muitas criaturas, além da maçã, o Demiurgo deveria ter dado cepo e cutelo. Na doce CTV você vê a criança que se transforma em adolescente e, mais tarde, se a TB não a levou desta para a melhor, em adulto que transporta, de lá para cá, a casa enfiada num saco. Casa móvel sem móveis. Oliver não leu, porque foi da casa de correção para as ruas de Londres, pelas mãos de Artful Dodger, líder das gangues de batedores de carteira. Quando existem carteiras para bater, a criança abandonada e destra de ambas as mãos adia a fome para depois de amanhã.Fome adiada, estômago pacificado. Mais uma vez o Demiurgo foi o culpado porque nos deu boca e vontade de comer. Aqui na província a ignorância acha-se ao alcance de todos. Nas décadas dos 50s e 60s, na Praça 9 de Julho, havia a livraria do professor Macedo e, no quarteirão de baixo, em frente das palmeiras, a Santa Rita. Dois quarteirões para baixo, no meio da quadra, ficava a bem servida Livraria e Papelaria Arnaldo do inefável Ultério Facci (quando a edição brasileira do Doutor Jivago foi lançada, eram tantos os leitores interessados, que os volumes ficavam na calçada, empilhados); na Galeria De Franchi, a Bossa Livros, de Hélio Dalto e, na esquina da Alagoas, a Casa Papel & Tinta. Entre a Pernambuco e a Paraíba, a livraria do Osvaldo Ganej. Na Rua Maranhão, em frente do portão lateral do antigo Lyceo Rio Branco,a Olavo Bilac dos Monteleone e, na Praça da Independência, ao lado do cinema, outra livraria Dalto. Quando a Bossa Livros desencadernou-se, em frente, instalou-se a Contraponto. Mais recentemente, a livraria Nobel da Rua 13 de Maio cedeu espaço para um restaurante japonês. Vivemos o tempo do estômago. Amanhã, será de novo o da Cultura. Os órfãos abandonados que se cuidem.Em CTV, a Cultura está encaixotada.Em 29 de julho de 1966, a Câmara votou a instalação da FAFICA, grande promessa de que iríamos avançar nas trilhas universitárias. No dia 23 de abril do ano seguinte, a escola promoveu aula inaugural. Nos dias que correm, ela foi removida para o ermo do bosque e perdeu cadeiras essenciais ao alargamento da visão crítica do mundo. No dia 30 de junho daquele ano distante, a Bossalivros de Hélio Dalto inaugurou loja minúscula na Galeria De Franchi. Os livros chegavam duas ou três vezes por semana e eram devorados em parte pela moçada da minha geração. Não líamos a história do besouro que mamava no leite escorrido do mamoeiro, mas os autores competentes da América Latina, Sartre, Gramsci. Tudo isso se deu noutros tempos e talvez noutra galáxia.

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