Poemas roubados de Carlos Drummond de Andrade/LRB

No caminho do meio

No caminho do meio

e na Estrada do Nada

tinha uma pedra quadrada

tão grande e pesada

que ao chutá-la feri fundo o olho da cara

Na retina colei esparadrapo

água boricada, soda limonada

mertiolate e chocolate

mas nunca mais me esquecerei

do caminho do meio

porque daquele  dia em diante tudo ficou bem feio.

Poema dos caras de pau

Quando nasci

meu pai me atirou na parede

não colei

caí no chão e me esborrachei

A turma espiava pelo buraco da fechadura

as garotas peladas no banheiro

no varal as calcinhas azuis

tinham pegadores e desejos

Pernas coxas, tetas caídas  e bundas roxas

tudo era pecado

e o pai de cada uma delas

nos arrancava sem dó as unhas

O pai de uma delas

tinha bigode de Salvador Dalì

e dentadura de sucuri

Ele se chamava Raimundo

e para nós tinha uma solução:

tapa na cara e beliscão

Em noite de lua, ele tomava conhaque

comia salame e lia almanaque.

A volta do bebum

Cachaça, aqui me tens de regresso

E suplicando te peço tremoço em excesso

Voltei pra beber com os meus chapas

que um dia deixei comendo  raspas

sem grana, cartão ou guardanapo

Ele vomitou!O bebum vomitou novamente.

Acontece que a mina que cruzou  meu caminho

e  usava batom preto e amarelo

me mandou comer farelo.

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