Instabilidades políticas na 5ª. década

Luiz Roberto Benatti.

A quinta década requer revisão minuciosa da ação/inação politicoadministrativa da cidade. Diferentemente da década heróica de 1918-1927, na qual, com a ajuda da comunidade, ao administrador couberam as iniciativas de pensar a coisa pública, tirar leite de pedra e construir uma imitação, ainda que precária, da cidade de Deus na Terra, como queria Santo Tomás de Aquino, em 64 e nos anos seguintes os atos institucionais enfiaram goela abaixo o que deveria ser feito e como fazê-lo pelo poder público. Pena que os arquivos de lei da câmara não tenham mais os registros dos 6 anos de inatividade por força da intervenção de Estado sob a ditadura Vargas, porque, não fosse isso, constataríamos certa semelhança do período com ações administrativas da década ora comentada. A ditadura é o espaço de decisão do pai irado.
Enquanto que o poder central pensava por nós, o local tornou-se subserviente e, assim, distanciou-se de outras épocas nas quais a consciência política cortava como navalha de gume afiado. A época coincidiu com o início da implantação de estratégias virulentas contra a República, cujos solavancos teriam exigido dos figurantes no poder reflexões e escolhas para as quais não se achavam preparados. Não souberam exorcizar o arbítrio nem aproximar-se de vários intelectuais que, fossem nacionais ou viessem de fora, vislumbravam para o Município as picadas mais lúcidas a seguir. No que diz respeito ao trato com estudantes, operários e intelectuais desenharam-se naqueles dias o que veio a se chamar de os anos de chumbo. Brasília, a Escola Superior de Guerra e os quartéis retiraram do armário e a escovaram a figura do inimigo interno gestado na monarquia. Em vez da mobilização para a Segunda Guerra Mundial, em que os pracinhas da FEB foram para o fronte para garantir a salvaguarda da democracia, agora o adversário podia ser um de nós: pai, irmã, primo, vizinho, professor. Em 1959, o Expresso Brasileiro passou a ligar-nos com SP por estrada de rodagem: a estação rodoviária localizava-se no prédio protético da EFA, cujo bar pertencia ao Sr. Giacomo Macchione, pai do prefeito Affonso. No ano seguinte, houve o grande quebra-quebra da Companhia Nacional de Energia Elétrica, nas ruas Pará/Alagoas.
Três rapazes foram fuzilados por soldados a mando do farmacêutico Urbano Salles. Em 1962, fundou-se o Clube de Campo. Como tivesse surgido da iniciativa privada, com o represamento do velho Córrego dos Coqueiros, lamenta-se que o poder não soubesse cobrar de seus executivos políticas públicas de desfrute do clube pela comunidade. Essa visão retrógrada impede ao administrador pensar a urbe pelo Socialismo mais singelo que seja.
Queima-se a aponevrose do churrasco com poucos e bons em vez de praticar o duro exercício da vida comunitária. Em 1964, Augusto Gimenez, Carlos Machado e José Antônio Boso lançaram a revista Feiticeira que fez a apologia do regime militar e esforçou-se em procurar caminhos para a industrialização da cidade. Carlos Machado tinha sido moço rebelde em 1919, no episódio de queima da estação da Railway and Co. À medida que o tempo passou, ele se tornou cada vez mais apaixonado pela direita. José Antônio Borelli iniciou, nesse ano, o segundo mandato de prefeito, descaracterizou a velha Praça da República e encomendou ao pintor e dublê de escultor Oscar Valzacchi a ereção do soldado constitucionalista da Praça 9 de Julho. No ano seguinte, 1965, houve enchente de grandes proporções do Rio São Domingos, chamada pela Feiticeira de a fúria das águas. A concessão de assistência médica gratuita aos idosos nos EUA não chamou a atenção de nossos homens no poder.
Em 23 de abril, último ano da década, a FAFICA proferiu aula inaugural, permitindo, assim, que CTV ingressasse no circuito universitário. Para os padrões locais, foi escola de nutrido vigor intelectual.
Até pouco tempo, infelizmente, a FAFICA equilibrava-se muito mal nas pernas.

A escola abrigou vários espécimes de dedos-duros, mas também foi centro de resistência ao fascismo de 64.

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