A tia prestimosa lê o Fausto, de Goethe, para a sobrinha

Luiz Roberto Benatti.

No mais das vezes, e no que diz respeito à leitura, com base numa inefável pedagogia, lemos para a criança aquilo que pensamos ser o melhor, dentro do melhor dos mundos possíveis. É como se ela não tivesse  dentes e, com isso, não pudesse roer a carne suculenta que se enrodilha no osso, e, desse modo, faminta, tivesse de se contentar com sopa rala. Ofereça-lhe os irmãos Grimm, numa edição que não tivesse sido mexida e remexida e  que insista em manter a criança enclausurada numa gaiola, distante dos mundos grotescos. O famoso Skinner, apavorado com a idéia de que o filho de poucos meses pudesse contrair bactérias e vírus do mundo, construiu para o coitadinho uma bolha onde o encerrou: o alimento era-lhe passado por uma escotilha por onde os males do entorno não conseguiriam penetrar. O menino, mais tarde, contaminou-se porque no mundo heraclítico os contrários convivem (des)armoniosamente bem. Saúde/doença, bem/mal/feio/bonito/guerra/paz, fogo/gelo. A tia e a sobrinha da foto, com o Fausto à mão, preparam-se para ler a obra monumental da Literatura germânica,  isenta de bobagens pedagógicas. Nos dias que correm, o pedagogo virou escravo alforriado que se fez mestre e, como mestre, decide sobre os caminhos a ser trilhados pela criança. A criança, a rigor, é produto de nosso imaginário, um imaginário, diga-se de passagem, incapacitado para vislumbrar o dia seguinte. Neste momento, a tia lê para a sobrinha o seguinte diálogo entre Fausto e Mefistófeles: (F) Que sou eu, se não posso alcançar, afinal, a coroa com louros de nossa humanidade, a que todos almejam com tanta ansiedade? (M) Não és mais, meu senhor, do que és – um mortal! Perucas, podes ter, com louros aos milhões. Alçar-te com teus pés nos mais altos tacões, serás sempre o que és: um pobre ser mortal! Ah!, prestimoso leitor, não se deixe enganar com a falsa idéia de que a criança, novinha em folha, não merece saber o que significam coroa de louros, almejar, perucas ou tacões. Se você não lhe der nada, seu conhecimento será nulo. Melhor começar cedo, antes que Paulo Coelho, o bicho papão da literatura tosca e sem graça, venha pegá-la no quarto escuro.

2 comentários sobre “A tia prestimosa lê o Fausto, de Goethe, para a sobrinha

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