ZYD-5 e biblioteca pública, 75 anos

Luiz Roberto Benatti.

 Os quatro atores radiofônicos acima não faziam parte da equipe da ZYD-5 que no corrente ano, em 1º. de março, teria completado 75 anos. Os deuses nos privam do que é bom e o diabo nos presenteia com  pepinos e abacaxis azedos. Em lugar do espontâneo, o empresário frio e distante.  O grande acervo da emissora desmanchou-se no ar.  Por muitas décadas CTV esteve bem próxima da Modernidade e para isso contávamos com criaturas de conhecimento e entusiasmo: Geraldo Correia, Fuad Cassis, Nair de Freitas e Diomar Zeviani eram os locutores, rapazes que nas horas de folga mandavam para o ar suas vozes. Como paga, recebiam o prazer  da ação e, na rua, o aceno do ouvinte. Além desses, integravam também a emissora Salma Naked, Aparecida Pavani, Rosinha Bugelli e Dirce Giglio. Cuidavam do som Aladim Ângelo Silva, Arlindo Camargo, Gumercindo Rodrigues Martins e Haroldo Gastaldi. Agentes de publicidade eram Lídia Lopes de Souza, Hebe Rosa Moreno, Mercedes Lomas e Lourdes Lários Tortosa. Discotecários: Arlindo Camargo, Mercedes Lomas, Gumercindo Rodrigues Martins e Gastaldi. Os programadores eram Nair de Freitas, Pedro Fornari, Gastaldi e Gumercindo. Em 1945, o “Baile Brasil” (fim da Segunda guerra)  do Catanduva clube foi transmitido por Fuad e Emílio Cassis. As novelas radiofônicas em nossos dias continuam a ser levadas ao ar  em grande parte do mundo, mas no Brasil elas se retraíram. A ZYD-5 radiofonizou a novela Meu filho Jorge cujos capítulos  o catanduvense ouviu com atenção. Nota à parte é lembrar que todo o grande acervo da emissora, caso não tivesse sido levado numa caçamba para Santa Maria dos Milagres Improváveis, poderia ser hoje parte dum utilíssimo museu. Por  trás dos rádio atores, à direita, vê-se o contrarregra responsável por ruídos de vento, chuva, trovão ou batida de porta. O imaginário carece de estímulo. Para o argentino Jorge Luís Borges os livros com suas histórias tecem narrativas entrelaçadas que vão-se desdobrando ad infinitum e nesses meandros assentamos os andaimes de sonhos e realidades, sem os quais a vida reduz-se ao buraco no asfalto, ao incômodo pernilongo, à piada cediça. Em 20 de julho de 1944, o prefeito Sylvio Salles inaugurou a Biblioteca Macedo Soares com a presença de Ulysses Guimarães. Tratada nesses anos todos como gata borralheira, o acervo da biblioteca ficou por décadas ancorado no prédio do Primeiro grupo da Rua Pará com a Paraíba até que, mais tarde, foi transportado para o galpão insalubre da Rua Maranhão onde os livros não pregaram os olhos por medo das ratazanas iletradas. A Literatura norte-americana e a nossa: do chão da realidade para a criação, ou então a criação que não  flutua no ar, longe do Real : Washington Irving

Washington foi generoso com os amigos, razão por que encorajou, dentre outros, Hawthorne, Melville ou Poe.Eles se tornaram grandes escritores. Aí está a questão da Literatura: vocação, garra, persistência, padrinho competente, revista que dê suporte ao escritor que se inicia, formação universitária sem o ranço do academicismo e um senso de observação das coisas acima da média. A isso tudo, acrescente o conhecimento de história de seu país. Irving viveu entre 1783 e 1859 e em nenhum momento a Literatura dos EUA patinava no Romantismo frágil das personagens adjetivas. Ele foi ensaísta, biógrafo, historiador, editor de revista, embaixador, diplomata. Machado, Clarice e João Guimarães Rosa habitaram outra galáxia que não a dos escritores-funâmbulos. Irving deu-se vários pseudônimos, dentre os quais Gotham que o leitor conhece graças ao Batman. Irving não inventou o homem morcego mas foi o responsável pelo batismo de NY city como Gotham city, ou a cidade das cabras. WI escreveu quantidade e qualidade, mas Rip Van Wincle, que se lê em 20 minutos, é um monumento, De ascendência holandesa, Rip vai da vila para o alto do monte Catskill, ele que, na minúscula localidade, entretinha as crianças com narrativas e brinquedos. Ao chegar à montanha com o cão Wolf, descobre um buraco onde vivem umas criaturas estranhas e muito antigas. Rip toma uma beberagem, deita-se e dorme por muitos anos. Ao acordar, não vê mais o cachorro, desce a montanha e, na vila, não reconhece ninguém nem é pelas pessoas identificado. O tempo havia escorrido e os fatos de história, agora, tinham virado passado, como foi o caso da Guerra de 1812. Enfim, Irving/Rip dormira durante a Revolução americana, como nós deveríamos ter dormido durante a Guerra do Paraguai. WI morou na Europa por muitos anos, inclusive deu-se ao luxo de ter residido no palácio Alhambra, em Granada, na Espanha, em 1829. Se tivesse adormecido por uns cento e tantos anos, iria topar com João Cabral de Melo Neto que conheceu o chão da realidade.

Seria interessante, depois de consultar os registros, verificar quantos livros, contados ano a ano, a administração pública acrescentou aos pré-existentes, consulta que iria confirmar a doença por nós contraída: a bibliofobia. Temos muito medo de saber mais do que de fato sabemos, porque os livros enlouquecem como foi o caso do Dom Quixote da La Mancha.

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