Matar ou morrer em CTV

Luiz Roberto Benatti.

Diz-se que o receptador de automóvel roubado exige do puxador marca, cor e ano do veículo encomendado pelo freguês. O carro é valioso e sua revenda é lucrativa. O receptador ou o sujeito que encomendou o roubo  são criaturas anônimas, ao contrário do ladrão de cavalo das primeiras décadas do século XX que, na vila, depois da venda dos animais roubados, amarrava a montaria na argola de ferro do boteco, bebia, jogava truco com os companheiros, depenava o pato e metia-se em briga. Se fosse para o xilindró a mando do delegado, um dia voltava ao povoado para se vingar. A vingança é prato que se come frio, seja pela surra levada por  nossa tia Maria ou pela curra da irmã Sofia. O cavalo também era caro. Tempo do barato é fala desajeitada  do mau teatro. Viu-se um pouco mais tarde que o nosso bandido imitava a figura posuda   do valentão  do faroeste norte-americano, com a diferença de que não tínhamos diligência carregada de ouro, mocinha bonita ou agente funerário nas proximidades.  No cinema, tudo é muito mais charmoso. Paschoal Roberto Turatto estudou alguns bandidos da região, dentre os quais Aníbal Vieira e o tenente Galinha que fazia as vezes de mocinho. No encalço de bandidos, o tenente hospedou-se no Hotel Líder, da Rua Pernambuco,  de Ângelo Bernucci, em mais de uma ocasião.  Para o bandido, a glória suprema vinha da  admiração ou o temor do público, seguido das histórias sobre seus feitos contadas na praça ou em casa. O bandido precisa se ver no espelho cinzento da vila. A vila vende a pinga onde a fama do bandido respinga. Tenente Galinha, o chefe da Captura, jantava no hotel quando o bandido de bota alta, chapéu e esporas entrou e perguntou pelo matador de bandidos e mandou dizer que o “galo” estava ali para acertar contas com a “galinha”. Galinha respondeu  que o esperasse terminar a refeição e, a seguir, depois de pedir um bom punhado de sal ao cozinheiro, levou o desafiador até a entrada do Cerradinho onde estavam acampados os comandados do tenente. Amarraram nu o bandido numa árvore, deram-lhe boas chicotadas e, depois, despejaram sal nas costas lanhadas. A narrativa circulou pela vila por muito tempo. A Captura foi criada pelo governo do Estado que lhe deu o comando ao tenente Antônio de Oliveira, Galinha chamado, porque, das diligências em busca de bandidos, o tenente voltava sempre com galinhas, presenteadas talvez pelos sitiantes agradecidos. Tenente dizia-se a personificação da lei e provavelmente revestido de couraça vigorosa, mas na perseguição de Severino Botelho, num sítio pelos lados de Dois Córregos, levou tiro no joelho, hoje em moda nos filmes da Netflyx. Galinha desistiu dessa perseguição, mas enfrentou outras com requinte extremo de crueldade como foi o caso em que  ele e os comandados fuzilaram Vaca Brava e Antônio Canguçu, cortaram-lhes as orelhas e os enterraram nas covas 534 e 544 do cemitério de Ribeirãozinho, atual Taquaritinga. Outros aderentes da Captura foram Serelepe, Isidoro, Cuiabano, Boca de Fogo e Gambá. Os apelidos, como as tatuagens, são como outdoors que anunciam a pujança do atleta. Noutra ocasião, a tropa rumou para Cachoeira Velha/Ibirá à procura de João dos Santos e Luís Biano que tinham roubado uma venda de Ariranha. Biano e o companheiro bebiam num boteco onde o tenente já entrou abrindo fogo contra Biano, enquanto que João dos Santos foi-se refugiar nos fundos duma igreja. Um dos jagunços do Galinha, Evaristão, abriu a facão da cabeça do facínora. Turatto sabia que, reunidas, essas narrativas dariam excelente filme de nosso faroeste. Nem mesmo o enforcamento faltou: o último deles foi executado na Taquara, atual Ururaí. No dia 25 de abril de 1913, às vésperas da eclosão da Primeira guerra, Galinha foi assassinado em sua casa da Rua Ana Nery, 14, e virou nome de rua na Mooca. Glória e tranquilidade aos amedrontados e cabeças em covas rasas enterradas no cemitério da vila.

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